Quando me tornei a mulher que nasceu em mim

Tá assinado em meu nome, marcado em meu corpo, estampado em minha pele. Me entender mulher foi minha maior revolução. Tá no meu sexo dito frágil e nas minhas entranhas feitas fortes. Tá na minha voz, nos meus livros, nos meus laços – em tudo que aprendi a fazer de arma e também de escudo. Tá nas feridas que me doeram o corpo e dilaceraram a alma. Tá na tinta da pele que todo mundo vê e nas cicatrizes do peito que ninguém enxerga. Tá em tudo que já tive que abrir mão. No medo que me acompanha em cada passo, consultório, Uber, entrega de gás. Tá em todas as pessoas que já precisei deixar pra trás – e nas que, possivelmente, ainda precisarei. Em tanta vida que perdi durante o tempo que me fizeram acreditar que eu era menos capaz, menos forte e destinada a menores feitos. Que meu melhor atributo era a minha aparência e que minha igual era a minha rival. Que violência era amor.

Doeu enxergar. Doeu o caminho até me encontrar. Me tornar a mulher que nasceu em mim exigiu a dor de um parto: pari a mim mesma. Doeu, mas também foi libertador. Porque só assim foi possível, de fato, começar a viver. Quando me dei à luz, consegui me conhecer, me pertencer, me ser autossuficiente e começar a me amar. Me tornar essa mulher foi, sobretudo, entender que o problema que nos condena ultrapassa minha condição enquanto indivíduo: ele é coletivo e estrutural. E envolve outras cores, classes, sexualidades, escolaridades, realidades. E que, ao ser mulher, é impossível ser por si só: é imprescindível ser por todas. Podem continuar tentando parar algumas de nós, mas nunca irão conseguir parar todas nós. A luta é diária, tropeça e aprende, mas nunca descansa. Hoje é só mais um dia de luta. Pra nós, só mais um dia.

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