As marcas de um relacionamento abusivo

Eles chegaram disfarçados de cuidado e proteção. Uma grosseria aqui. Uma proibição ali. Um grito acolá. Os abusos começaram de forma sutil, ganharam espaço e, em pouco tempo, foram normalizados dentro da relação. O príncipe encantado se tornou um sapo. A qualquer tentativa de questionar as mudanças, tudo se resumia a um desvario de loucura e exagero meus. Mais uma grosseria. Que péssima companheira eu era: incompreensiva e nada empática, ao provocar desgastes chatos e desnecessários em meio aos seus momentos de dificuldades. Outra proibição. Quando a situação era bastante escancarada, impossível de ser minimizada, então ela aconteceu apenas por que eu dei algum motivo. Um grito mais forte. “Isso acontece em toda relação.”

Quem já viveu um relacionamento abusivo dificilmente esquece as ofensas, os palavrões, murros em paredes, empurrões, objetos quebrados. De ser afastada dos amigos, violada, traída, manipulada, desacreditada, fragilizada. A gente ainda sente a pontada no peito ao lembrar como era deitar na cama soluçando de choro, após mais uma explosão, enquanto o outro virava pro lado e dormia tranquilo. A gente ainda carrega a ferida da perda da autoestima, do controle, da noção da realidade. A gente se lembra de todas as justificativas para a intimidação, a humilhação, as ameaças. “Eu não sou assim, você que faz perder a cabeça.”

Quem já viveu um relacionamento abusivo sabe como é difícil reconhecer a violência psicológica quando se é vítima dela. O ciclo é vicioso: calmaria, explosão, reconciliação. O mesmo cara que nos xinga, nos empurra e nos humilha em público é o cara que diz que nos ama, cozinha pra nós, procura o nosso filme preferido e faz planos pro futuro. Pra quem está emocionalmente envolvida e fragilizada, é uma missão bastante difícil enxergar o agressor dentro do amor das nossas vidas. “Você nunca vai encontrar alguém que te ame e te suporte como eu.”

Quem já viveu um relacionamento abusivo sabe que, lá dentro, a gente sente que algo está errado. A gente tem vergonha de expor a situação para as outras pessoas, de buscar ajuda dos amigos – na verdade, muitas vezes nem sabemos que precisamos de ajuda. Sozinhas ali, a convivência se torna um campo minado. A gente passa a medir as palavras e a calcular cada atitude para evitar que, por nosso descuido, estoure outra bomba. É quando, sem perceber, nasce o medo. Porque, quando a gente provoca, merecemos arcar com as consequências. Afinal, somos nós que adoramos uma confusão. Nós costumamos até inventar coisas que nunca aconteceram para arquitetar uma briga. Nós somos tão manipuladas que chegamos ao ponto de questionar nossa sanidade mental. “Você é doente, precisa se tratar.”

Sim, a gente acredita. E quando a gente se culpa por erros que não são nossos, a gente perdoa os erros do outro. Perdoa o controle, perdoa a traição, perdoa os gritos, a humilhação, o sexo forçado, o puxão pelo braço, o que for preciso. “Mas ele nunca me bateu.” Nós evitamos usar a roupa que gostamos, mudamos nossa aparência para agradá-lo, deixamos de cumprimentar aquele amigo, perdemos a individualidade e a privacidade. “Mas ele nunca me bateu.” A gente entende que é nossa obrigação atender o celular no máximo ao terceiro toque e se destrói por dentro pra fazer o outro feliz. “Mas ele nunca me bateu.”

Quando a violência deixa de ser tão somente psicológica e se torna física, o estalo não ecoa apenas do primeiro tapa – mas de algum lugar dentro de nós. Quando sentimos o peso na carne, finalmente entendemos que, por dentro, já apanhamos tanto que estamos completamente desfiguradas. E então descobrimos que a dor na alma é e sempre será maior. Na frente do espelho, encaramos um animal tão amedrontado e impotente, que não há resquício de força ou coragem para enfrentar o que aconteceu – a próxima bomba pode ser ainda pior. Então até as feridas do corpo a gente perdoa. “Eu também tive culpa.”

Quem já viveu um relacionamento abusivo sabe que essa é uma ferida que dificilmente se fecha. A gente supera o sentimento de culpa, a gente vence a vergonha, a gente perde o bloqueio de falar a respeito, a gente enfrenta o medo de se relacionar de novo; mas a gente não se cura. Uma relação desse tipo parece mudar o que nós somos, e depois disso o caminho é longo e tortuoso até encontrarmos os nossos pedaços outra vez. A sensação é que nunca mais voltaremos a ser inteiras.

Depois de me afundar numa escuridão bem profunda, eu consegui respirar de novo. Durante muito tempo, eu achei que havia me afogado sozinha, mas conhecer o relato de outras mulheres que viveram o mesmo foi o meu colete salva-vidas. Sempre haverá dedos apontados para nos responsabilizar, nos questionar, nos empurrar para baixo. Mas, do outro lado, também têm muitas mãos dispostas a segurar firme e nos trazer de volta pra superfície. Com o tempo, a gente aprende a conviver com as cicatrizes e a remendar os cacos. Algumas vezes, os pulmões ainda vão voltar a doer. Pode até faltar ar de vez em quando. Mas passa. E a gente sobrevive.

>>> Eu queria que este texto representasse todas as mulheres que já viveram ou vivem um relacionamento abusivo. Mas, infelizmente, nem todas nós realmente sobrevivem pra contar a história. Se você está vivendo num campo minado, se não sabe mais diferenciar agressão e amor, busque seu colete salva-vidas. Ligue 180, busque o Centro de Referência da Mulher da sua cidade (em Vitória da Conquista, o Crav oferece atendimento psicossocial e jurídico gratuitos, e você pode saber mais pelo telefone 3424-5325). Se estiver confusa sobre o que está vivendo, converse com familiares e amigos, ou busque outras mulheres que já viveram uma experiência parecida – inclusive esta que lhes fala. Não se deixe afogar por mais tempo. Você merece respirar de novo!

>>> Violência psicológica contra a mulher agora é crime previsto pelo Código Penal! De acordo com a lei, “causar dano emocional à mulher que a prejudique e perturbe seu pleno desenvolvimento ou que vise a degradar ou a controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, chantagem, ridicularização, limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que cause prejuízo à sua saúde psicológica e autodeterminação” pode gerar reclusão de seis meses a dois anos, além do pagamento de multa.


O amigo de verdade

Você tem um amigo que nunca desistiu de você? Que te fez o convite mesmo imaginando que você não iria. Que foi te buscar quando você se isolou. Que entendeu a razão de tuas respostas secas ou desinteresse e, nunca, deixou de querer saber como você está. Ou de conversar amenidades para, nas entrelinhas, deixar registrado que ele está ali. O amigo que já respeitou o teu espaço mas também soube a hora de te puxar pela mão. Aquele que soube o momento de guardar a própria dor no bolso para, ao ver o tamanho da tua ferida, ir te oferecer curativo. O amigo que te abraça na tua pior versão é um dos maiores retratos do amor.

Você já teve um amigo de quem não teme julgamentos? Aquele que você sabe que as palavras duras, às vezes, são a expressão necessária do cuidado e amor. O amigo que você tem a certeza de que não existe nada que ele fale sobre você, que ele também não fale para você. Que faz da sinceridade um gesto de acolhimento. E as preocupações sobre teus excessos ou desvios são apontadas primeiramente para você, e não transformadas tão somente em dedos nas tuas costas. Aquele amigo que é espaço seguro para mostrar teus maiores medos e inseguranças. Que sabe que tuas vulnerabilidades e falhas não te fazem uma pessoa pior, mas te fazem humano. O amigo com quem você se sente livre para ser você mesmo é um dos lugares mais bonitos do amor.

Você já teve um amigo que a vida precisou levar por outros caminhos, mas o decorrer dos anos nunca significou desencontro? O amigo que você não consegue acompanhar de pertinho a caminhada, mas a cada conversa se pega admirando a pessoa que ele se tornou. E todo novo encontro é como se o tempo nunca tivesse passado, porque ele é, afinal, aquele seu amigo. E você entende que, das poucas certezas que a maturidade traz, uma delas é que algumas raízes estão sempre lá, não importa o que, não importa quando, não importa onde. E que essas raízes dizem tanto sobre você quanto os frutos que continuam brotando pelos teus novos caminhos. O amigo que é a tua definição de “sempre” – para falar sobre passado e futuro – é uma dos laços mais fortes do amor.

A minha pele ainda se lembra

Minha pele ainda se lembra de quando estava intacta. Lembra de mergulhar em ondas de arrepio a cada anúncio da tua chegada. Da pulsação acelerada ao giro da maçaneta, denunciando a fome para teu corpo se adentrar ao meu. De como era bem-vindo esse saciar de saudades. Minha pele se recorda da sensação da sala bagunçada, roupas e risos se confundindo num misturar astuto, por horas que não eram compostas por minutos, mas por eternidades. De como o teu perfume se agarrava ao meu hidratante e assim fazia nascer o nosso cheiro. Minha pele sabe descrever sem rodeios os tons vermelhos que teus dedos imprimiam à frágil capa das minhas coxas. É capaz de distinguir a voz rouca de cada poro implorando um toque a mais, e confidenciar o encarte que compôs para guardar tuas digitais.

Ela tem memórias dos resmungos que exclamava por debaixo do casaco, nas noites de vinho e vento frio no terraço. De como ao teu lado era leve o meu passo, que se acostumou a andar sem o incômodos dos calos. Minha pele se recorda do caminho que o suor abria nas tardes ensolaradas em que dançávamos pelo quarto ao som de um disco qualquer, que para essa festa acontecer a verdadeira atração era a gente se ter. Ela ainda sabe descrever em minúcias o frescor da água do chuveiro morno, que não se decidia se pingava sobre o meu ou teu corpo, confusa ficava diante da imensidão de nós. Minha pele conta tantas vezes tantas histórias que já não sei se escuto memórias ou invenções. Ela repete que você é a sua tatuagem mais feliz. Eu escuto cheia de atenções, e no fim lhe lembro: é preciso curar essa cicatriz.

Diálogos com Seu Moço XVII

Seu Moço, interrompe o correr dos dias. Te coloca em sorrateira vigia das folhas do calendário – é que toda manhã nos soterra com minutos vários, mas o contar do meu peito há muito está estagnado. Lá fora tudo se desdobra, e aqui dentro não se passou nem uma hora. Vamos fazer esse pacto? Segura aí no céu um eterno entardecer. Eu assumo a missão de quebrar cada relógio que nos maldizer. Sumo sem permissão com todo segundo e cada fração que se colocar em meu caminho. Passarei por todo pulso e parede, por cada tela e rede. Vou destruir pixels, ponteiros, talvez um ano inteiro. Nem os sinos das catedrais poderei poupar na minha heresia.

Seu Moço, eu tenho sido pisoteada por toda essa correria. E dia após dia não há pausa pra voltar a me erguer. Está selado nosso pacto? Meu peito não suporta mais a crueldade deste fato: o tempo tem engolido abraços e tirado de nós as pontas dos laços. Quanto tempo nos tem sido roubado? Não há lógica no tique-e-taque analógico que tudo leva e nada traz, nem no toque-sem-toque que restou entre digitais. Falta espaço aliado pra colecionar novos pedaços de vida, sobra tempo afiado feito aço abrindo novas feridas. Perdi a conta de quanto tempo estou tentando não sufocar com a ideia do que poderia ter sido. Não há mais imaginação pra compor cenas que, porque não vivi, invento. Seu Moço, eis o nosso impacto: vamos parar o tempo.

Vai passar – sopra num minuto um coro de vozes em impulso. Mas engasgado feito soluço, posso ouvir que a contagem não é regressiva, e sim agressiva. Há quantas dores estamos contando? Na ampulheta dos dias, cada grão que cai é uma pedra em livre queda no peito. Deito sobre meu próprio peso, olho pro lado: todos caminham encurvados. Mas antes de adormecerem as lágrimas, acorda o despertador. Temo que não haja mais tempo para nossa aventura, mas pensa em minha proposta, por favor. Parar o tempo por um tempo, Seu Moço, é só o que te peço. Por ora me despeço, pois está na minha hora. O alarme soou e eu estou novamente atrasada – há pressa em seguir em frente rumo a nada.

Dia do Jornalista: informação também pode salvar vidas

A informação tem o poder de salvar vidas. Todos os dias, jornalistas remam em meio às dificuldades da alta maré para entregar coletes flutuadores à população. Não deixar que ninguém se afogue na escuridão da falta de conhecimento é o seu maior compromisso profissional.

E para garantir que o seu objetivo seja cumprido, não há descanso. De domingo a domingo, 24 horas por dia, durante fortes tempestades ou sobre águas aparentemente calmas… Sempre haverá um jornalista remando. Em sua embarcação, a bravura em assumir os riscos da aventura é uma velha companheira maruja. Em sua bússola, o dever com a verdade é norte.

O trabalho em equipe assegura o sucesso da jornada. Produzir, entrevistar, escrever, apresentar, filmar, editar, checar, fotografar, revisar… Esse é um remo para muitos braços. Aqui, a lenda da polarização entre jornalistas de veículos e jornalistas de assessorias de imprensa cai por terra. Se a missão é informar com clareza e eficiência, entregando coletes salva-vidas ao público, estamos todos no mesmo barco.

Pois o jornalismo é, sem distinções, um agente de função social. Não há jornalismo sem interesse público. A força que move o Quarto Poder é também a voz que grita a verdade, o punho que escreve a história, o escudo em torno dos oprimidos, o alimento diário da cidadania.

É preciso coragem e resistência para não pular do barco quando as ondas ganham altura e parecem prestes a nos engolir, e os trovões são tão altos que ameaçam nos silenciar. E somente o amor pela aventura é capaz de nos sussurrar, ao fim de cada dia: “Sim, valeu a pena.” É por isso que todo jornalista faz do alto mar o seu porto-seguro.

Talvez, para cada um dos profissionais de jornalismo do mundo inteiro, o mar nunca tenha estado tão desafiador. A pandemia da Covid-19 tirou um monstro marinho da ficção e nos deixou com a missão de encará-lo, com nossos remos, coletes, e agora também máscaras de proteção. Mais do que nunca, a informação tem salvado vidas – pois, apesar do vasto campo de possibilidades das figuras de linguagem, essa afirmação nunca foi uma metáfora.

Feliz Dia do Jornalista, colegas!

(Texto originalmente escrito para a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Vitória da Conquista, em 7 de abril de 2020.)