A minha pele ainda se lembra

Minha pele ainda se lembra de quando estava intacta. Lembra de mergulhar em ondas de arrepio a cada anúncio da tua chegada. Da pulsação acelerada ao giro da maçaneta, denunciando a fome para teu corpo se adentrar ao meu. De como era bem-vindo esse saciar de saudades. Minha pele se recorda da sensação da sala bagunçada, roupas e risos se confundindo num misturar astuto, por horas que não eram compostas por minutos, mas por eternidades. De como o teu perfume se agarrava ao meu hidratante e assim fazia nascer o nosso cheiro. Minha pele sabe descrever sem rodeios os tons vermelhos que teus dedos imprimiam à frágil capa das minhas coxas. É capaz de distinguir a voz rouca de cada poro implorando um toque a mais, e confidenciar o encarte que compôs para guardar tuas digitais.

Ela tem memórias dos resmungos que exclamava por debaixo do casaco, nas noites de vinho e vento frio no terraço. De como ao teu lado era leve o meu passo, que se acostumou a andar sem o incômodos dos calos. Minha pele se recorda do caminho que o suor abria nas tardes ensolaradas em que dançávamos pelo quarto ao som de um disco qualquer, que para essa festa acontecer a verdadeira atração era a gente se ter. Ela ainda sabe descrever em minúcias o frescor da água do chuveiro morno, que não se decidia se pingava sobre o meu ou teu corpo, confusa ficava diante da imensidão de nós. Minha pele conta tantas vezes tantas histórias que já não sei se escuto memórias ou invenções. Ela repete que você é a sua tatuagem mais feliz. Eu escuto cheia de atenções, e no fim lhe lembro: é preciso curar essa cicatriz.

Diálogos com Seu Moço XVII

Seu Moço, interrompe o correr dos dias. Te coloca em sorrateira vigia das folhas do calendário – é que toda manhã nos soterra com minutos vários, mas o contar do meu peito há muito está estagnado. Lá fora tudo se desdobra, e aqui dentro não se passou nem uma hora. Vamos fazer esse pacto? Segura aí no céu um eterno entardecer. Eu assumo a missão de quebrar cada relógio que nos maldizer. Sumo sem permissão com todo segundo e cada fração que se colocar em meu caminho. Passarei por todo pulso e parede, por cada tela e rede. Vou destruir pixels, ponteiros, talvez um ano inteiro. Nem os sinos das catedrais poderei poupar na minha heresia.

Seu Moço, eu tenho sido pisoteada por toda essa correria. E dia após dia não há pausa pra voltar a me erguer. Está selado nosso pacto? Meu peito não suporta mais a crueldade deste fato: o tempo tem engolido abraços e tirado de nós as pontas dos laços. Quanto tempo nos tem sido roubado? Não há lógica no tique-e-taque analógico que tudo leva e nada traz, nem no toque-sem-toque que restou entre digitais. Falta espaço aliado pra colecionar novos pedaços de vida, sobra tempo afiado feito aço abrindo novas feridas. Perdi a conta de quanto tempo estou tentando não sufocar com a ideia do que poderia ter sido. Não há mais imaginação pra compor cenas que, porque não vivi, invento. Seu Moço, eis o nosso impacto: vamos parar o tempo.

Vai passar – sopra num minuto um coro de vozes em impulso. Mas engasgado feito soluço, posso ouvir que a contagem não é regressiva, e sim agressiva. Há quantas dores estamos contando? Na ampulheta dos dias, cada grão que cai é uma pedra em livre queda no peito. Deito sobre meu próprio peso, olho pro lado: todos caminham encurvados. Mas antes de adormecerem as lágrimas, acorda o despertador. Temo que não haja mais tempo para nossa aventura, mas pensa em minha proposta, por favor. Parar o tempo por um tempo, Seu Moço, é só o que te peço. Por ora me despeço, pois está na minha hora. O alarme soou e eu estou novamente atrasada – há pressa em seguir em frente rumo a nada.

Dia do Jornalista: informação também pode salvar vidas

A informação tem o poder de salvar vidas. Todos os dias, jornalistas remam em meio às dificuldades da alta maré para entregar coletes flutuadores à população. Não deixar que ninguém se afogue na escuridão da falta de conhecimento é o seu maior compromisso profissional.

E para garantir que o seu objetivo seja cumprido, não há descanso. De domingo a domingo, 24 horas por dia, durante fortes tempestades ou sobre águas aparentemente calmas… Sempre haverá um jornalista remando. Em sua embarcação, a bravura em assumir os riscos da aventura é uma velha companheira maruja. Em sua bússola, o dever com a verdade é norte.

O trabalho em equipe assegura o sucesso da jornada. Produzir, entrevistar, escrever, apresentar, filmar, editar, checar, fotografar, revisar… Esse é um remo para muitos braços. Aqui, a lenda da polarização entre jornalistas de veículos e jornalistas de assessorias de imprensa cai por terra. Se a missão é informar com clareza e eficiência, entregando coletes salva-vidas ao público, estamos todos no mesmo barco.

Pois o jornalismo é, sem distinções, um agente de função social. Não há jornalismo sem interesse público. A força que move o Quarto Poder é também a voz que grita a verdade, o punho que escreve a história, o escudo em torno dos oprimidos, o alimento diário da cidadania.

É preciso coragem e resistência para não pular do barco quando as ondas ganham altura e parecem prestes a nos engolir, e os trovões são tão altos que ameaçam nos silenciar. E somente o amor pela aventura é capaz de nos sussurrar, ao fim de cada dia: “Sim, valeu a pena.” É por isso que todo jornalista faz do alto mar o seu porto-seguro.

Talvez, para cada um dos profissionais de jornalismo do mundo inteiro, o mar nunca tenha estado tão desafiador. A pandemia da Covid-19 tirou um monstro marinho da ficção e nos deixou com a missão de encará-lo, com nossos remos, coletes, e agora também máscaras de proteção. Mais do que nunca, a informação tem salvado vidas – pois, apesar do vasto campo de possibilidades das figuras de linguagem, essa afirmação nunca foi uma metáfora.

Feliz Dia do Jornalista, colegas!

(Texto originalmente escrito para a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Vitória da Conquista, em 7 de abril de 2020.)

Mulher, tu és imensidão

Te despe dessa roupa amarrotada. Te livra de todas as amarras. Quantas camadas de tecido têm sido tua prisão? Quantas camisas de força te forçaram à exaustão? Desnuda tua alma, não há poder maior que perder o pudor de ser o que se é. Tira a roupa em frente ao espelho e admira a essência da tua grandeza: dentro de ti habita o universo. Em tuas veias corre tinta que pinta tela e escreve verso. Arte é o astro do teu avesso.

Deixa brilhar tua coleção de estrelas – bem sei que, na ânsia por caber em cubículos, tu engoliste constelações inteiras. Quanto tempo perdeste na tentativa de permanecer onde não havia espaço pro teu eu real? Te derrama pelo infinito: teu espaço é sideral. Te denomina dona da tua própria matéria, olhos de telescópio revelando a descoberta do quão arrebatador é pertencer somente a ti. Imensa, intensa, inteira – interestelar.

Liberta teus meteoros, que explodir também é evolução. Te despe da culpa. Te despede sem desculpas. Dá adeus eu ao teu antigo eu, que é hora de ser de novo. Flutua aventureira em cada uma das tuas partículas de cósmica poeira. Depois de conhecer teus próprios sóis, não haverá gravidade com força o bastante para te prender ao inóspito outra vez. Grave mesmo é o engano de não se permitir viver teus tantos. Orbita em torno de ti mesma, não há de existir em todo o universo caminho mais bonito.

Vamos, é chegada a hora. Amadurecer é confiar que tempo também é sábia distância, dias são dádivas, anos-luz. Te des-cobre. Nenhuma missão é tão aterrorizante e prazerosa quanto a jornada dentro de nós mesmas. Então, tira essa roupa – cada peça se fazendo cadente. Peça cada pedido que andou esquecido no céu interior. Agora, coração é estrela contente, ciente da sua própria vastidão. Não há mais que tentar escondê-lo por detrás de camisas-cortinas. Ser infinita é tua sina. Mulher, tu és imensidão.

[Texto inspirado neste quadro lindo da Dri Pião]

Quando me tornei a mulher que nasceu em mim

Tá assinado em meu nome, marcado em meu corpo, estampado em minha pele. Me entender mulher foi minha maior revolução. Tá no meu sexo dito frágil e nas minhas entranhas feitas fortes. Tá na minha voz, nos meus livros, nos meus laços – em tudo que aprendi a fazer de arma e também de escudo. Tá nas feridas que me doeram o corpo e dilaceraram a alma. Tá na tinta da pele que todo mundo vê e nas cicatrizes do peito que ninguém enxerga. Tá em tudo que já tive que abrir mão. No medo que me acompanha em cada passo, consultório, Uber, entrega de gás. Tá em todas as pessoas que já precisei deixar pra trás – e nas que, possivelmente, ainda precisarei. Em tanta vida que perdi durante o tempo que me fizeram acreditar que eu era menos capaz, menos forte e destinada a menores feitos. Que meu melhor atributo era a minha aparência e que minha igual era a minha rival. Que violência era amor.

Doeu enxergar. Doeu o caminho até me encontrar. Me tornar a mulher que nasceu em mim exigiu a dor de um parto: pari a mim mesma. Doeu, mas também foi libertador. Porque só assim foi possível, de fato, começar a viver. Quando me dei à luz, consegui me conhecer, me pertencer, me ser autossuficiente e começar a me amar. Me tornar essa mulher foi, sobretudo, entender que o problema que nos condena ultrapassa minha condição enquanto indivíduo: ele é coletivo e estrutural. E envolve outras cores, classes, sexualidades, escolaridades, realidades. E que, ao ser mulher, é impossível ser por si só: é imprescindível ser por todas. Podem continuar tentando parar algumas de nós, mas nunca irão conseguir parar todas nós. A luta é diária, tropeça e aprende, mas nunca descansa. Hoje é só mais um dia de luta. Pra nós, só mais um dia.