Trintei

Trintei. Sozinha em casa, de moletom e meia. Sem abraços de colegas de trabalho, sem planos pra rever a família, sem mesa de bar reservada com os amigos. Trintei lembrando uma frase que li recentemente no Twitter: “Se você pudesse falar algo para o seu eu de 15 anos atrás, o que diria?” Sem dúvidas eu sussurraria em meu ouvido jovial, com os recentes brincos reluzindo: “Não é nada disso que você tá pensando.”

Aos 15, eu imaginava que chegaria aqui sendo uma mulher casada, mãe, dona de títulos e posses. Esses eram, afinal, os pilares de uma vida adulta realizada. Quanta coisa aquela adolescente colegial tinha a aprender pela frente. Nos últimos 15 anos, eu entendi que casamento e procriação não eram meus destinos naturais; e me libertando dessa sina, descobri o quanto eu era pouco simpática a ela. Aprendi que a vida adulta tem muito menos glamour do que as comédias românticas. Percebi que a gente passa tanto tempo tentando chegar a algum lugar, que por vezes esquecemos que a vida é o próprio caminho. Demorei a entender que os votos de “realizações” que tanto recebi nesta mesma data não dizem tão somente sobre uma meta futura, mas também sobre o reconhecimento pelo que hoje me cerca.

E, assim, compreendi que a realização também pode estar concretizada na rede que acabei de instalar na minha sala. E em poder ter, aqui, uma hora de sossego toda manhã, antes de começar as obrigações, com um café preto e um livro – a paz desse momento desconsidera que se trata de um apartamento alugado. A realização também tá em chegar à minha terra natal e receber o abraço da minha mãe, religiosamente, na porta lateral de casa. Em acordar domingo e espiar meu pai sem camisa mexendo nas plantinhas do quintal. Nas crises de riso para conseguir tirar uma foto com minhas irmãs em que nenhuma das três saia fazendo careta – e a forma que esses momentos me preenchem tornam pequenas as cinco horas dentro de um Camurujipe.

A realização também tá em rever meus primos e relembrar as histórias da nossa infância nos inesquecíveis fins de semana na roça – porque a realização não se resume ao que será, mas sobretudo ao que foi. Nas crises de riso de doer a barriga com os amigos em Ibicuí, ou Rio de Contas, ou Morro de São Paulo, ou Rio de Janeiro, ou Buenos Aires – porque a realização não se fia a onde, mas sobretudo a o quê. A realização tá em passar um ano inteiro planejando um fim de semana de reencontro com minhas amigas numa viagem à praia. E a bagagem de sorrisos que eu trago de volta faz do cochilo no banco da rodoviária apenas um detalhe que irá arrancar novos risos (mas não contem isso pra Dany).

A realização tá em tomar a minha cerveja preferida ao fim do dia, ou comprar a coleção de livros que marcou minha infância e nunca antes eu pudera ter. Em fazer contagem regressiva para uma nova reunião com meus colegas-irmãos de faculdade, para rir das velhas histórias como se fosse a primeira vez em que estivéssemos contando-ouvindo. Aos 30, essa canceriana caricata se vê cada vez mais agarrada a um clichê cafona: há grandiosidade nas pequenas coisas. Eu recuso o conformismo, mas também dispenso uma sede por “realizações” que me cegue diante dos meus privilégios.

A vida é o que eu tenho agora em minhas mãos. E eu tenho tanto afeto que preciso usar os dois braços e apoiar junto ao peito pra não perder nada – o amor me transborda. Só por hoje – é um exercício constante – eu não quero lembrar onde poderia estar, mas agradecer por onde nunca imaginei que um dia estivesse. E se eu pudesse depositar mais alguma coisa no ouvido da adolescente debutante, antes que ela possa me lançar um olhar de frustração, seria: “Tá tudo bem.”

Tá tudo bem a gente não ter realizado tudo aos 30. Tá tudo bem a gente ter desviado, desacelerado, desconstruído, descoberto. A vida é sobre se reinventar e inventar de novo. Não é somente sobre aonde queremos chegar, mas sobre o aconchego do pouso. Não se resume aos balanços das curvas do caminho, mas também aos de uma rede na sala. Só por hoje, mesmo sendo tudo tão diferente do que um dia imaginei, posso dizer: sim, sou realizada. É… Trintei.

Encontra a tua força

Encontra a força aí dentro. Ela também faz parte de quem você é. Te olha no espelho: tua força diz sobre você assim como a cor dos teus olhos ou a textura dos teus cabelos. “Como é essa mulher de quem tu falas? É jovem ou madura? É alta ou baixa?” “Oh” – responderão os que te conhecem bem os traços – “Ela é forte.”

Encontra essa velha inquilina e convida ela para um café. Você pode até achar que lhe perdeu de vista por algum tempo, ou que ela se tornou surda aos teus chamados. Mas, às vezes, ela só está paralisada pelo cansaço de quem abafa o ouvido com o travesseiro ao toque insistente do despertador. E tá tudo bem.

Você pode até dar um tempo à tua força, só não pode desistir dela – pois isso seria desistir de você mesma. Tire-a da cama com gentileza e lhe lembre de que vocês precisam uma da outra. E então, oferece o teu braço para erguê-la, e apoie-se nela para caminhar. Tenha força para digerir o noticiário, para suportar as distâncias, para sentir a dor do outro, para lidar com as próprias feridas, para encarar as despedidas…

Tenha força – até mesmo – para gritar por ajuda quando tudo isso ficar pesado demais. Pois também é preciso ser forte para admitir as nossas fragilidades. E tá tudo bem. Nossos cacos também fazem parte de quem nós somos. Da próxima vez que te olhar no espelho, não te demora na sobrancelha por fazer, nos centímetros que despontaram na cintura ou na mais recém-chegada espinha. Olha pro que realmente importa. “Que estou a procurar?” “Nada” – responderá o espelho – “Já encontraste a tua força.”

Eu conheço a tua dor, menina

Menina, eu conheço a tua dor. Sei que o peso da vergonha nos enterra a cabeça entre os ombros, e parece que nunca vamos ser capazes de sustentar os olhares de fora outra vez. Eu sei que o dia seguinte tem gosto de ressaca – mesmo quando não precisaram te empurrar bebida ou colocar droga no teu copo pra te deixar vulnerável. É a ressaca de quem acorda se sentindo suja. A náusea ao se olhar no espelho. A vontade de vomitar até colocar pra fora aquele cheiro, aquele gesto, aquela lembrança – ou até limpar tudo o que está te bloqueando a memória e te corroendo com a dúvida. É a dor que nenhum analgésico é capaz de curar.

Eu conheço essa sensação, menina. Também já arrastei comigo os grilhões da culpa, as feridas mudas na alma. O silêncio é uma saída confortável, eu sei. Calar nos traz a falsa sensação de que nunca mais precisaremos encarar a vergonha e a culpa outra vez. Mas a ferida continua lá, não é mesmo? Eu só queria que você realmente soubesse que, num mundo onde se ensina que os corpos femininos são públicos, numa cultura que semeia ódio gratuito à mulher, você não é a culpada. É a vítima.

Não tenha vergonha da agressão que você viveu. Infelizmente, arrisco dizer que toda mulher à tua volta também esconde, silenciosa, sua própria ferida. Respeite seu tempo, mas lembre que compartilhar a bagagem torna o peso um pouco menor. Usar tua voz para alertar futuras vítimas talvez seja um poderoso cicatrizante. E o abraço de tantas outras mulheres que também conhecem a tua dor, menina, é a sensação mais próxima que você vai ter de um copo d’água numa manhã de ressaca.

Sinta meu abraço. Eu também estou com você. Seja forte. Vai passar.

Diálogos com Seu Moço XVII

Nesses dedos onde mora vasto pleito de palavras, costumava rumar o ritmo doce da certeza. Onde lhe deixei? A caligrafia já nasce torta. Desses medos que agora o meu peito desbravam, me escorrega o remo ao ritmo violento da correnteza. Onde me afoguei? A esperança já nasce morta. Corta meu pulmão cada nova respiração a que tento me agarrar enquanto o mar é meu chão. Concreto não há mais – nem das paredes, nem dos anos. Incerteza agora é cais – de embarcações e de planos. Oceano me engoliu e se travestiu de lar: mar é tudo o que sobrou depois do dano. Em minha pele tem viva água em fornada, em meus olhos têm água salobre e salgada, em meu peito tem água ensanguentada; mas em meu leito de alga tem algo escondido em barricada – uma caixinha de ar.

Lar é o que vai sobrar depois que eu engolir cada gota de oceano. Não me engano: se grande ele é, maior preciso ser. Que nosso tamanho a gente só conhece quando se mede na sombra do que nos faz temer. Se ele vem com tormenta, preciso me manter são. Se é presságio de desolação, preciso me fazer duro. Aqui no escuro, a conchinha que encosto ao ouvido tem a melodia de uma respiração. Será sonho? Será sereia? Que a esperança morta – feito água viva – há de chegar até a superfície e nos guiar pela areia. Abrirá ferida, mas trará salvação. Será verdade? Talvez sim, talvez não. É que sobreviver é mais do que inspirar e expirar– por mais tanto se afirme. É mais que consciência durante o afogar – por mais que isso se confirme. Mas o que nos mantém realmente vivos, Seu Moço, é acreditar que ainda há terra firme.

Tenha cuidado com os espinhos do outro

Há cactos decorando todos os cômodos do meu apartamento. Em diferentes tamanhos e formatos, repousam alegres sobre vasos coloridos. Às vezes, quando os coloco para tomar sol, o descuidado no manuseio faz com que minha mão se roce sem querer entre os espinhos. Basta um movimento leve e despretensioso, e então é inevitável: alguns deles ficam grudados na pele. Por menores e mais inofensivos que pareçam, sinto me espetarem o dedo. Mesmo quando não consigo vê-los, sei que estão lá: a agonia é a certeza de que algo me entrecorta. A dor é sutil, mas incômoda – tudo o que eu toco ao longo do dia me lembra de que há um espinho ali.

Existem traumas que são como pequenos espinhos. A gente pensa que se curou e que está imune ao seu impacto. A gente acredita que assumiu o controle e aprende a encará-los com certa insignificância. Até os perdemos de vista. Aí, num dia qualquer, quando achamos que estamos seguros daquela experiência ruim que ficou lá atrás, um fato corriqueiro vai nos empurrar novamente contra as feridas que ela nos abriu. E então vai voltar a doer. Talvez a gente não saiba explicar exatamente onde está a mágoa – mas vamos reconhecê-la ao primeiro toque. Talvez nossa queixa soe exagerada demais diante do pedacinho de espinho visível a olho nu – e só nós saberemos o tamanho da nossa dor.

Conheça os espinhos da pessoa com quem você se relaciona. Somos todos – também – frutos de uma bagagem de experiências, bem ou mal sucedidas. Dizer que não tem nada a ver com o que aconteceu antes de você chegar é negligenciar as vulnerabilidades do coração onde você escolheu fazer morada – mesmo com e apesar delas. É exigir ver a casa sempre arrumada, ignorando que em alguns momentos o preço disso seja esconder a sujeira debaixo do tapete. Não é sobre pagar pelos erros dos outros, mas sobre escolher ser curativo em vez de dedo na ferida. É lembrar que jardinagem é uma arte que se faz com muitas mãos, e quem escolhe cultivar amor precisa encarar a terra acumulada nas unhas e os espinhos escondidos na alma.

Ninguém espera que você cure, mas que você cuide. Ninguém vai te pedir para usar uma pinça ou fazer o truque com fita adesiva para remover esses traumas – essa é uma tarefa intransferível. Mas, na dança a dois, você vai descobrir que custa bem pouco coreografar pequenos passos fora do roteiro para não deixar que seu par se esbarre em alguns deles. Custa pouco e simboliza uma das maiores traduções do significado de querer bem. Há dores que podem até nos soar incompreensíveis, mas nem por isso deixam de ser contornáveis. Evitar machucar o outro quando temos um mapa do terreno de suas feridas também é nossa responsabilidade. Na jardinagem do amor, ser luva é ser leve. Afinal, para quem carrega cacto no peito, qualquer dor sutil de um pequeno espinho pode ser dor demais.