Diálogos com Seu Moço XV

Olha, Seu Moço, aqui em meus pés costumava habitar um chão. Não sei por onde eu andava quando a vida me puxou o tapete e desnudou o vão. Paredes se transformaram em abismo. Céu me acenou em cinismo. Velocidade me dilacerou o pulmão. Em queda livre eu permaneço aprisionada – o ar aqui fora chicoteia meu corpo sem perdão. Paraquedas não funciona, analgésico também não. Nada me alivia a dor de quem cai em incerteza no meio da escuridão.

Sabe, Seu Moço, naquele chão eu costumava desenhar meus passos. Faço de conta que esqueci os planos do próximo encalço, pra ver se alivia essa agonia da falta de direção. Caço jeito de fingir que desfiz o laço antes de desatar o que era nós. Perdida no escuro, tateio na tentativa de erguer muro em volta do coração. Tijolos não funcionam, promessas também não. Nada me alivia a dor de quem cai com a certeza dos cacos que ficam pelo chão.

Escuta, Seu Moço, naqueles passos costumava existir sentido. Havia norte, bússola e razão. Onde o caminho era desconhecido, flor nascia no horizonte e o medo saltava pela curva veloz. Havia sorte, girassóis e paixão. Agora, só o que tenho sentido é uma câimbra forte rompendo o peito. Sem jeito, me entrego à gravidade que me engole sem pudor. Fugir não adianta, gritar também não. Seu Moço, me diga a verdade, por favor: será que algum dia eu vou encontrar algo que me alivie essa dor?

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