Absintos e objeções num balcão de bar

É sempre assim: quando absorvo a quietude ao redor consigo observar o tamanho da bagunça. Finjo que abstraio os incômodos, porque nunca aprendi a obedecê-los. É essa vida, seu moço! Com seus abismos onde não cabe todo o meu abstrato. E suas obras que não preenchem a minha obsessão. Vou te contar um segredo: na caixa que guardei aquele retrato tranquei também o meu coração. Para de falar que está consumado, me deixa fazer uma objeção! E dizer que nem mais uma dose de absinto ou uma dúzia de abraços conseguiriam me fazer entender o que eu sinto e me livrar desse embaraço. Abre o meu peito, seu moço, lê o meu diário! Eu não sei mentir, eu só queria deixar claro: os meus olhos apesar de oblíquos nunca foram rasos. Abrevia essa conversa, não me obriga a dizer que o único fato absoluto é que meu desejo era obstinado.

Então não é a gente que abdica, mas o sentimento obtuso. É a hora em que as mágoas confrontam a abstinência e fazem da lembrança apenas um objeto antiquado e sem uso. Escuta, seu moço: amor e ódio estão sempre falando a mesma linguagem. Eu nunca obtenho respostas. Então absorvo esse silêncio empedrado e selvagem.

Só vou quebrá-lo mais uma vez pra confessar que eu quis obrigar o destino a me abrigar naqueles braços. Mas quando desliguei o abajur e me deparei com o obscuro, descobri que o óbvio nem sempre é claro – mas eu o vi. E ouvi o eco de um sorriso fino caindo ao fundo do poço. Não sei se isso me abala ou me obedece. Sinto apenas que é tudo obsceno e absurdo. Mas é a verdade, seu moço.

 

 

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