Partes de um todo

Aos colegas da turma 2011 de Jornalismo da Uesb.

SÂMIA LOUISE DE ALMEIDA MELO. O coração disparou. Não podia ser. SÂ-MI-A-LOU-I-SE-DE-AL-MEI-DA-ME-LO. Era eu? Não acreditei. Como se este fosse um nome bastante comum, corri o dedo em linha reta e consultei o RG. 0-9-6… Era eu. Era eu! Foi indescritível a sensação que me percorreu da cabeça aos pés ao ver que aquilo que eu havia sonhado durante boa parte da vida e sido alvo do meu esforço o ano inteiro estava materializado ali, naquelas letras e números que me acompanharam por toda a vida.

Vitória da Conquista. Não fazia ideia de onde ficava, como era e o que me esperava. Não podia imaginar que iria chegar a um lugar para as pessoas estranharem o fato de eu falar ConquiXta em vez de ConquiSta. Onde não sabiam o que é um quente-frio e chamavam lagartixa de ‘biba’. Onde trocavam mungunzá por canjica e canjica por bolo de milho. Não podia imaginar que nessa cidade a exclamativa mais comum era “moooço!”, e que um dia eu estaria viciada nela. Até então, eu só conhecia aquele frio na barriga de toda vez que pensava em arrumar as malas e partir para longe, onde eu não conhecia nada e ninguém.

trote certo

E foi então que surgiu Enrique, o meu primeiro porto-seguro. Perdidos em meio aos ‘bichos’ sofrendo ameaças em uma comunidade no Orkut, nos achamos. Na busca por pensionatos, ele acabou escolhendo o mesmo que eu. Pois é, daí pra frente Enrique esteve presente não apenas na minha primeira moradia e na faculdade, mas também no primeiro trabalho temporário, no primeiro estágio, no segundo estágio, e até no curso de Inglês. Vocês acreditam em coincidência? Eu acredito em maníacos que dedicam vidas inteiras a perseguições secretas. Mas (não contem pra ele!), eu sou grata por isso.

E também veio Diego. Quando achei um paraense que aterrissou em Conquista, me senti mais confortável. Confesso que, mesmo Diego sendo o profissional que é hoje, a melhor coisa que ele me ensinou durante esses quatro anos foi o caminho do Bar do Genilson, no Bairro Brasil. É totalmente desnecessário dizer que neste dia voltamos para casa levemente bêbados, cantando Engenheiros do Hawaii dentro do ônibus. E, claro, sob os olhares de censura de Enrique (ele já foi pior que isso, acreditem!).

doisanos1

O meu lado filantrópico se manifestou assim que conheci Andressa. A pobrezinha além de ser pequena, morava perto de Anagé, sob o teto de três tias super-poderosas. O nosso espírito festeiro logo se reconheceu. Pronto, adotei a pobre pequena, levando-a para dormir escondido em meu pensionato a cada fim de noite badalada (sim, dona Marilda, eu fazia isso mesmo!)  O lar virou então o nosso destino. Logo, passamos a dividir muito mais que baladações, como também o aluguel e a louça suja.

E nesse lar, também teve Priscila. Com o sotaque paulista, a televisão de porteiro, a jaqueta de paquita e a caneca da Ana Maria Braga.  E depois chegou a Pinta (vulgo Dany Ana), que, nos tempos de outrora, formou comigo a dupla do Topa Tudo Sem Dinheiro. De Festival de Inverno a Quinta Sem Lei, de Jorge e Matheus a república-de-não-sei-quem. Sempre assim: loucamente!  Quem vê todas nós hoje, não imagina tudo o que já conversamos, fizemos, rimos, choramos, endoidamos e vivemos naquele 204. Sim, o 204! A nossa querida maloca, o quartel-general das MIC’s*, o lugar onde todo mundo acabava indo quando não tinha nada pra fazer (e sem ninguém ter chamado).

204

Lays foi um acontecimento importante no meu processo de autoaceitação. Quando eu vivia crises de identidade por me sentir um espírito de homem em corpo de mulher, ela cruzou o meu caminho e disse: “Boba!” E com toda a sua excelência, me mostrou que há muito mais no universo dos pés avantajados, estômagos dilatados e amor ao pão, ovo e farofa do que eu podia imaginar. E, claro, há os inúmeros episódios que não se pode relatar, como aquele em que ela faz de conta que vai nos contar algo no ouvido no meio de uma festa e… Deixa pra lá.  Mesmo tendo que aturar tudo isso, passamos a formar uma grande dupla. De penas no cabelo, de produções hollywoodianas, de barrigas esforçadamente fartas e de ídolos do arrocha (Todos S2 Tayrone e Zezito).

Conviver com Camila Teles me fez ver que toda hora é hora e todo lugar é lugar para falar sobre… o lado bom da vida. Conviver com Ellen me crer que não há medo que não possa ser superado (e que deixar de lado uma dúzia de piercings pode ajudar). Conviver com Rafaela me fez sentir eternamente feia. Purki me fez refletir que memória não é tudo nessa vida. Camila Queiroz me fez sentir o quanto as coisas podem ser doces. E os dias vividos com Thanize mostraram que podemos viver todas as fases e momentos e continuarmos sendo liiiindas, gente!

busu

Ju ficou famosa pela sua macarronada. Pela feijoada. Pelo vatapá. Enfim, pelos seus dotes culinários que nos renderam lindos almoços durante muitas semanas. Apesar de amar a sua comida, eu preciso confessar que o talento da moça vai muito além. Pra mim, a melhor coisa que Ju realmente sabe fazer é descer até o chão, nos momentos Perereca Dance [mão esquerda no peito e um minuto de silêncio pela menção ao nosso hino]. Todas as MIC’s ‘morre’ de orgulho e de dor na coluna tentando acompanhar!

Certa vez, bem no início de tudo, ouvi a frase: “É impossível não gostar de Mari.” Logo, a vida fez o seu feliz papel de me mostrar o quanto isso era verdade. Eu gosto de Mari porque a gente tem um jeito particular de se entender, de viver entre palavras e, sobretudo, porque ela divide comigo um passado negro. Minto, o passado não é negro, mas sim tem cabelos revoltosos, dreads,  vestidões, havaianas coloridas, braceletes no mesmo braço e andava por aí tirado a hippie. Que bom que temos uma a outra ao viver estas lembranças.

meninas

Emi sempre foi uma surpresa. Primeiro, quando surgiu em minha frente com uma camisa tamanho GG, um all star com cadarço laranja marca-texto em um pé e verde cana no outro. Eu fiquei tão em choque quanto o rosa do seu cabelo. Depois, porque mostrou que todas aquelas cores não eram nada se comparadas às que existiam em sua imaginação. E mais ainda por deixar as meias estampadas e munhequeiras para  se tornar essa loira-linda-maravilhosa-que-eu-pegava-facim-facim.

Durante a maior parte do tempo, o jeito Thayná de ser me fez achar que ela era muito frágil. Enganei-me. Conviver com Thay me fez conhecer como ela sabe ser forte. E, perdido no meio das suas fortalezas, descobri o fato de que ela consegue ser mais lerda que eu (família, é sério!). Por sinal, se alguém precisar baixar um programa pra converter arquivo de Word em PDF, é só contatá-la.

outrass

Daniela me presentou, já no finalzinho do segundo tempo, com a oportunidade de conhecê-la. Logo, além de sites e redes sociais dos assessorados, também passamos a atualizar as fofocas, os dramas pessoais e os desejos de por roupas, sapatos e – principalmente – comidas.

Eu pensava que Wilson era um chato que só falava em festa, nas primeiras vezes que falei com ele no MSN antes de chegar à Uesb. Enganei-me. Wilson não é apenas um chato que só fala em festa, como também mata as pessoas de vergonha quando está nelas. O que dizer de uma pessoa que adquire um diploma, mas não adquire a dignidade de ficar devidamente vestido em locais públicos? Tinha que ser o compositor do samba da nossa redação, com Wilson no esporte e Emi na diagramação.

calourada

Ígor trouxe uma grande contribuição para a turma. Não, por incrível que pareça, não foi a expressão “pieguice ginasiana”.  Também não foi por ter contrariado a lei da gravidade e mostrado com louvor que é possível, sim, dormir em pé. Bobagens! A coisa mais inteligente que Ígor fez durante a faculdade foi ter ido morar no 501. De lá, todo mundo carrega uma história inusitada da qual se arrependerá eternamente sempre se lembrará. Foi lá que [conteúdo removido para garantir que ninguém será deserdado].  

Dinho me fez sentir uma pessoa mais pontual e terráquea. Simara mostrou que quem tem autoestima tem tudo. Mas, a potência é para poucas.

Lembro de Júnia enchendo todo mundo de orgulho até na hora de se despedir. De passar horas andando à procura de laboratórios com Verônica, para produzir o Uesb Rural. De uma Jamile determinada em tudo o que fazia. E de rir nos causos de Analice na Paraíba (principalmente o da quadrilha), enquanto comia meu Rubacão com toda a minha elegância.

Outras

Lembro de um Dia das Crianças com Jádia. De um René Descartes, ou melhor, Zenilda, num banco de réus. Lembro de um Paulo que eu chamava de Paulete. Dos trabalhos com Thaís. Das risadas de Fabrício. Dos comentários de Juá. Das produções de Gilmar. E das latinhas de cerveja de Rafael.

E sei que tudo isso também soa muito romântico. Que nós já brigamos, discutimos, nos estranhamos e falamos mal um do outro. Mas, ao fim de tudo, o que fica senão as boas lembranças? O que fica, senão o melhor que tivemos de cada um? Durante quatro anos, houve tempo para amar pessoas, viver momentos e nos apegar a uma rotina onde cada um ocupava o seu devido lugar (sentados às 7h20 da manhã com lindas caras de olheiras esperando Maria Marques fazer a chamada). Pois é, não dá para fugir à pieguice. As coisas do coração são realmente piegas.

Variadas 079

E é isso.  Peço licença para ser mesmo romântica e dizer que conviver com toda essa turma me fez descobrir que adentrar na madrugada escrevendo artigo para Francis pode ser divertido, quando você tem risos e pizza. Amanhecer o dia fechando jornal pode não ser tão ruim quando, no final, as meninas embolam na sala do 204 e dormem como num 5 estrelas. Longas horas de viagem podem passar voando, quando se está ao som do Samba do Busão (é o samba do Busã-ão!). E que as Teorias da Comunicação podem ser muito bem discutidas com um pastel oleoso, na cantina de Dona Dalva.

Aprendi que quem nunca tirou um 10 em Caetano, nunca esteve no curso. Quem nunca morreu de medo do resultado de Jorge Cardoso, também. Quem nunca tentou entrar no ônibus dos funcionários para economizar a passagem no primeiro semestre e levou uma bronca de Seu Zé, não sabe a emoção de estar na Uesb. E quem nunca sentiu vontade de matar a pessoa que apresentou o power point a Cláudia Lima, merece um Nobel da Paz.

Aprendi também que por trás de uma boa reportagem, existe uma boa pauta. E que ANA+ELSON = ANAELSON. Que pior do que mexerem no nosso corte de cabelo, é mexerem em nosso texto. Que é muito mais fácil inverter a pirâmide depois de algumas doses de álcool. Descobri que quanto mais tentavam nos ensinar  agenda setting, gatekeeper, sonora, passagem, viúva e chamada, mais a gente aprendia a fazer calourada.

impresso

Só entendi a teoria da elasticidade quando consegui fazer minha bolsa estágio durar um mês inteiro. Soube que ninguém precisa de uma redação para fazer reunião de pauta, quando se tem o Copo Sujo. E que é preciso muito preparo físico para localizar e agarrar a lista de frenquência nas palestras do Dia do Jornalista, e depois se esgueirar de fininho até a porta. Descobri que quem+o quê+onde+quando é a fórmula do lead. E que a fórmula da felicidade é Vodka+Sprite+MID.

E o maior conhecimento acadêmico que pude adquirir foi algo que Adorno e McLuhan jamais teriam cacife para ensinar: “A mulher namora o pão, mas casa com o salame” (SAMPAIO, 2009).

E tudo isso me ensinou que as pequenas palavras rabiscadas nas entrelinhas são coisas as mais marcantes quando penso nesse capítulo intitulado Faculdade. Os risos abafados no meio da aula, as conversas nos corredores, a euforia nos laboratórios, o frio na barriga por cada conquista, as palavras trocadas até mesmo com aqueles não tão próximos – página após página, compõe-se uma grande e boa lembrança.  E tudo isso e todos vocês são partes dessa história, que dessa vez, não é só minha. Partes de um todo que será carregado por todos que dele fizeram parte.  E seguiremos com essa responsabilidade (e alegria) de estarmos no todo e sermos sempre partes – de histórias, de vidas, de fotografias… e de pessoas.

Obrigada por terem me ajudado a escrever melhor capítulo da minha vida. Agora, vocês também fazem parte dela.

391804_232546493478227_100001686357778_622249_351887807_n

Se eu não fosse um de nós teria inveja da gente.”

 

Fotos: arquivo pessoal.

Comments

comments

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *