Despertando

Era engraçado o jeito manhoso como os raios de sol invadiam as vidraças da minha janela para me acordar toda manhã. Alguns chegavam meio tímidos, outros já conheciam o caminho – lá pelas seis e tantas, todo mundo já se sentia em casa. Então se roçavam em minha cama e lambiam meu rosto, fazendo gracinhas até eu despertar. Vibravam, demonstrando a carência para que eu retribuísse a brincadeira, como animais de estimação ansiosos por um gesto familiar do dono. Mesmo já consciente, eu me fingia de adormecida, virando para o lado e fugindo propositalmente do seu encontro. Perceber que ainda me faltavam alguns minutos sagrados antes que tocasse o despertador me provocava um mau humor ácido.

Lembro de quando, há muitos quilômetros e anos dali, era minha mãe quem chamava meu nome toda manhã, lembrando o horário sempre em que eu insistia em ficar por mais alguns minutos na cama. Levantar-me sempre foi a pior parte do dia. O corpo sonolento de quem sigilosamente dormiu fora do horário reclamava. Os olhos negavam-se a abrir, e os personagens do sonho interrompido ao meio ficavam indignados. Os cabelos arrepiados assustavam o espelho. E era assim, com essa carga de quem era obrigada a carregar a nudez do mundo, que eu costumava começar os meus dias, por muitos anos.

Mas hoje algo começou diferente. Mesmo tendo feito colagens nos vidros de minha janela, para impedir que a luz me despertasse tão cedo ao amanhecer, fui surpreendida por pequenos raios de sol que conseguiram se espremer nas minúsculas falhas da minha tentativa frustrada de não ser acordada. Hoje foi diferente e jamais saberei explicar porquê. Os fiapos de luz dançavam em meu rosto, escorregavam por minha bochecha, faziam cócegas. De um lado a outro, num doce ritual, eles enfim conseguiram me seduzir naquela brincadeira… mesmo com o corpo adormecido, mesmo semi-consciente, eu deixei um sorriso nascer tímido no canto dos lábios. Foi assim, sem explicação, que os raios de sol conseguiram me inflamar.

Hoje eu sorri para o sol. E, sem querer, despertei para a vida. Ela sempre esteve lá, tentando-me, insistindo por mim. Eu virava a cara e resmungava mal humorada. Na verdade, escondia o meu medo de acordar. Minha existência inteira, tantas existências, quanto medo de acordar para a vida! É tão mais fácil reclamar de um corpo ainda cansado, da agenda de compromissos cheia, de problemas que não enxergamos solução. É tão mais simples perder tempo procurando culpados e viver algemados em responsabilidades que julgamos não ser nossas. É tão mais cômodo ser pessimista porque, no fundo, não queremos nos esforçar para ser capazes.

Difícil é sorrir ao amanhecer e admitir que tudo depende, primeiramente, de nós. E que todo dia que nasce nos apresenta uma vastidão de oportunidades esperando para serem descobertas. Não importa se chegar azul, cinza, nublado ou até mesmo furioso – no fundo, o céu sempre retribui o nosso sorriso em sua plenitude. Basta que nós tomemos a iniciativa de, ao menos, não lhe virar as costas. Podemos fazer do nosso dia apenas uma rotina desgastante, torcendo para que chegue logo ao fim, para iniciar-se outro igual. Ou podemos peitá-lo, mostrar quem está no comando e saborear cada pequeno instante da incrível existência.

Não basta abrir os olhos ao amanhecer. É preciso despertar para o que há de melhor em nós. É preciso sorrir para o que há de melhor na vida.

 

 

 

Frutas cítricas

Não tivera coragem de ocupar a outra parte do guarda-roupa, vazia há seis meses, como se a qualquer momento ele fosse adentrar pela porta da frente e voltar a preencher o seu lugar. Silenciosamente, continuava alerta para não deixar a chave atravessada na porta ao chegar do trabalho. E ali, naquele apartamento vazio, tudo continuava do mesmo jeito. Principalmente ela, que em nada mudara. Usava aquele óleo de banho, com aroma de frutas cítricas e cheiro deles dois abraçados debaixo do cobertor. Hidratava-se, penteava-se e vestia uma daquelas camisolas de seda que ele tanto gostava. E então, punha-se em cima da cama para ler um livro ou assistir TV, com a melhor distração que podia forjar.

Ela não ousaria admitir, nem para o mais íntimo dos seus pensamentos, mas cada dia seu era uma nova espera. O coração acelerava a todo ruído familiar de carro que passasse à rua, a toda vez que o vento sacudia uma porta ou janela. E também a cada som qualquer que facilitasse a sua imaginação sussurrar que era a fechadura se abrindo, ou os passos vagarosos de quem não queria lhe interromper o sono com outra coisa se não um beijo de boa noite.

Ela lhe esperava desde o dia em que lhe mandou ir embora. Podia lembrar a última briga, por telefone, e de ouvir saltarem de sua boca palavras gritando em frenesia para que ele viesse buscar os seus pertences. Recordava a raiva nauseante com a qual jogara tudo dele dentro das malas – as roupas, os objetos, os presentes, a aliança com seu nome e a fotografia rasgada. A euforia foi tanta que, neste momento, não percebeu que deixara cair um pedaço de si junto com aquele emaranhado de coisas. Antes disso, lacrou as malas e as deixou ao lado da porta. Na manhã seguinte, levantou-se cedo e cuidou de passar o dia inteiro fora. Percebeu a besteira que fez quando descobriu que não suportaria ficar ali, para vê-lo partir da sua vida.

Mas muito ingênuo é quem pensa que só de amor se faz o coração. E que só de coração se faz uma vida a dois. E o orgulho, a confiança, a amizade, a cumplicidade, o ciúme, o respeito, a liberdade, a privacidade, o desejo, os espaços, a toalha molhada em cima da cama e a tampa do vaso sempre em pé? Ela era exigente, como a maioria. E então o amor perdia-se em meio às suas exigências. Ela perdia-se em meio ao amor que sentia. E ele… deixara-o se perder.

E nesse duelo entre o que pede a vida e o que pede coração, e tudo o que se perde no meio dos dois, ela passava dia após dia, banhando-se em frutas cítricas todas as noites antes de dormir. Talvez, na sua mais sã consciência, ela não estivesse realmente à sua espera. Mas, lá dentro, algo sempre pedia para deixar tudo como estava. Era a vida que seguia, em um coração que não sabia dar adeus.

 

 

 

Vestido xadrez

Fixei os olhos no alto do armário velho e aguardei ansiosamente. As mãos claras da minha mãe abriram a porta superior com cuidado e remexeram várias sacolas plásticas guardadas ali há um tempo que não era possível mensurar. Em poucos minutos, retirou um embrulho pequeno e o levou até a mim.

– Abra.

Toquei as fitas amareladas pela tinta dos anos e deixei o invólucro revelar o seu conteúdo. O cheiro de mofo invadiu as minhas narinas e arrancou-me alguns espirros. Mas, ao me recuperar, dei-me conta de que lá estava ele: o vestido xadrez. Puxei-o, com gestos tímidos, sentindo-me culpada por não ter ensaiado passo a passo este momento. O glorioso momento.

– Veja se serve.

Serviria, com certeza. Há muito tempo esperei pelo vestido xadrez, e não queria tornar essa espera em vão. Mais à vontade, senti-me no direito de observá-lo. As listras em tons de vermelho contrastavam com o fundo verde-bandeira. A renda branca fazia o acabamento em contornos suaves. Exatamente como vi nas fotografias.

Feito por minha avó, quando suas mãos ainda eram hábeis na agulha, o vestido foi dado de presente à minha mãe em um tempo de exatidão já esquecida. Como um tesouro que não se pode perder entre as gerações, chegou à minha irmã. Daqui a alguns anos, seria da filha que ela traz no ventre. Mas hoje, ninguém me roubaria este momento. Hoje, ele era meu.

– Vamos, vista.

Entrei no vestido como se entrassem em um conto de fadas. Adivinhando meus pensamentos, minha mãe nem pediu permissão quando começou a trançar meus cabelos. Agora, o ritual estava completo. Eu finalmente teria as minhas fotografias, para contemplar, depois, orgulhosa. Desfilaria naquela noite como tantas outras garotas da minha idade, mas, sem saber explicar, aquilo para mim era algo totalmente incomum.

– Sei que está antigo, mas não temos condições de comprar outro…

Eu não queria outro. Queria aquele vestido xadrez. Listras coloridas, traçando-se perpendicularmente umas sobre as outras. Algo que a minha mãe não ousaria me contar, mas  eu conseguia enxergar claramente naquelas cores, é que o xadrez é como as pequenas coisas em nossa vida. Pessoas, histórias, sonhos: tudo se cruza em algum momento, aqui e acolá, deixa seu ponto de intersecção e segue em frente até morrer no acabamento. E então a renda vem coroar o fim com a sua beleza, pois sempre há algo de trágico e belo no fim.

Por isso só me serviria aquele vestido. Cravado pelas marcas da minha família, agora era a vez de deixar a minha. Percorreria o labirinto daquelas listras, e ali desenharia as minhas sensações, medos, alegrias, planos e segredos. E não importa quais seriam os seus destinos, eu já estava preparada para contemplar a delicadeza da renda.

– Já está anoitecendo. Você não vai querer se atrasar.

Eu não estava atrasada. Estava pronta para o desfile, as danças e os adeus. Eu era uma criança pronta para a vida.

 

 

O viajante, a larva e eu

– Ora, quem és tu, que nunca vi antes por aqui?
– Sou viajante de terras longínquas, e por aqui piso pela primeira vez. E tu, quem és?
– Não vês? Sou uma simples larva, que um dia há de virar uma pupa, para só então tornar-se uma borboleta. Mas conta-me, viajante, o que te trazes neste lugar? O que procuras?
– Meu caminho é a existência, e minha busca é o seu sentido.
– E por que andas com passadas tão largas? Cada passo pode ser decisivo…
– E eu não temo as decisões.
– Mas há de existir obstáculos. Quando o céu ficar cinza, a tempestade virá então dificultar teus passos…
– Quando isso acontecer, farei dela instrumento para lavar-me a alma.
– E os raios e relâmpagos te atormentarão o sono!
– Eles trarão luz para clarear minha estrada.
– Vejo que o que mais trazes em tua bagagem é coragem.
– Engana-te. São lições.
– E onde conseguiste todas elas?
– Preferes que eu descreva primeiro o céu ou o inferno?
– Sim, teu semblante não me mostra apenas experiências agradáveis. Vejo que já tropeçaste e caíste. Trechos tortuosos já te machucaram. Sofreste mágoas e decepções. Já conheceste o agonizar de uma dor.
– E também a dor de um silêncio.
– E onde estão tuas mágoas? Não as vejo em tua bagagem…
– Já te disse que trago apenas lições. Evito olhar para as cicatrizes. Aprendi a perdoar.
– E porque olhas para trás? Por acaso temes o futuro?
– Temer o futuro é tão natural quanto a brisa que sopra à tardinha. Mas refugiar-se em lembranças é tolice. Quem se entrega à caminhada deve aprender a olhar para trás apenas para ver quanta estrada já foi percorrida – e esse é o grande estímulo para seguir em frente. Pois cada passo dado já é uma vitória. E por isso não importa se andaste uma milha ou uma légua: a coragem de tentar já te faz um vencedor.
– Vejo que muito aprendeste ao longo de tua caminha. Foi o mestre Tempo que tanto te ensinaste?
– Eu poderia ter 40 anos ou 17. Nunca é tarde demais para aprender. E nunca é cedo demais para dar o primeiro passo.
– E esse gesto vacilante? Por um momento achei que foste abaixar a cabeça…
– Se eu fizesse isso, perderia de vista o horizonte dos meus sonhos.
– Sonhos! Pretende realizá-los estando tão só?
– Eu nunca estou só. Olhe para a estrada que se estende atrás dos meus pés! Há tantas pegadas nela gravadas que eu sozinho nunca conseguiria deixar. Cada ser que cruza meu caminho deixa marcas. E ainda que eles se desviem – pois cada um deve ser autor de sua própria existência – não deixarão de estar comigo. Da mesma forma como durante o dia não podemos ver todas as estrelas do céu, ainda assim sabemos que elas estão lá. E a noite chega carregada de luzes para nos comprovar isso. Por isso, sempre que eu olho o céu, lembro que as pessoas são como as estrelas. Por mais que eu não possa vê-las ou tocá-las, sei que estarão comigo. E sei também que em algum lugar, por mais remoto que seja, existe alguém que contempla o céu, e então se lembra de mim…
– Pessoas são como estrelas… Uma larva nunca poderá ser algo de tão belo assim…
– Não sejas tola! Tu és invejada por muitos homens. Tua vida é feita de metamorfoses. Um dia, para tu saíres do casulo e deixar de ser uma larva, tu arriscarás tua vida. Os homens não têm essa coragem. Eles temem as mudanças. Preferem viver em meio ao comodismo, estagnados em algum ponto de sua existência, imersos numa rotina enfadonha. Não te sintas diminuída por seres uma larva. Muito espírito humano é bastante inferior a isso. E um dia, tu mostrarás ao sol tuas lindas asas de borboleta. Então tu serás livre. E os homens, por mais que tenham força para vencer as fases de sua vida, por mais que reconheçam a mudança como principal ponto de partida, dificilmente sentirão o sabor da verdadeira liberdade. A realidade exterior ao homem tem face de gaiola.
– Queres me consolar, viajante?

– Isso não é um consolo, é a mais sincera realidade. E como prova do que eu te digo, hei de fazer uma promessa: assim como todos que cruzam meu caminho, tu também deixarás tua pegada. Levar-te-ei comigo não só como uma lembrança. A tua forma de vida será o meu maior aprendizado, a minha maior lição. Farei de ti o principal guia em minha jornada. Serás marca para toda a vida…

 

Texto originalmente publicado no site Revertério.

 

Foto: arquivo pessoal.

Chamas e retratos

Desde criança, uma das coisas a que mais se apegara ali era uma enorme estante onde repousavam dezenas de porta-retratos. Deles saltavam sorrisos vários, uns bastantes longínquos, bem faceiros; outros desbotados, que nem sorriam mais. A cada vez que a família aumentava, um novo porta-retratos passava a sorrir da estante. Apesar de já conhecê-los de cor, gostava de olhá-los toda vez como se fosse a primeira. Ria-se das mudanças do tempo, recontava algumas histórias sobre aquelas cenas, ouvia muitas outras.

Daquela vez, havia algo estranho. Para chegar até lá, não fez o seu percurso habitual. A cada passo, tinha que desvencilhar-se de uma multidão sem face aglomerada ao seu redor. Ao entrar, viu que estavam quase todos ali presentes, como se cada um tivesse ganhado vida da sua própria fotografia. Porém, não sorriam. Por um momento, foi como se ainda não entendesse o que estava acontecendo. O som de soluços, gemidos e murmurinhos sem sentido confundiam-se o tempo inteiro.  A sua boca cada vez mais salgada parecia querer exclamar algo em que relutava a acreditar – um instante beirando a insanidade. Subitamente, voltou em si. Foi quando descobriu o que viera fazer ali: era hora de dar adeus. O último adeus.

E então o tempo parou. A caneta estaca sobre o papel. Não há poesia que consiga descrever o quanto dói dar um adeus fatal. Sem ‘até logo’. Sem ‘até amanhã’. Sem ‘volto em breve’. Sem planos, pedidos ou promessas. Dessa vez era apenas adeus. Assim: cruel, com direito apenas a um ponto final. De todas as dores que já havia conhecido, a dor da perda era incomparavelmente a mais violenta. Sádica e sedenta, parecia vibrar em cada pulsação do seu corpo.

Engraçado pensar na lógica de perder alguém, simplesmente porque não há.  É como abraçar o desamparo (com força, a mesma força que tanto lhes desejam). Feito pedra fria e dura, nunca se está preparado para dar de cara com ele. Mais: é como carregar uma chama que por todo o tempo esteve acesa, e de repente, ela se apaga. E então os calafrios diários percorrendo a espinha vêm lembrar que agora só há cinzas… e saudade. O quão tênue será a linha que separa o existir do não existir? O suficiente talvez para bastar apenas um sopro. Um sopro que apaga a chama. Um sopro que varre o mundo.

Agora, não saberia como lidar com a mistura de sentimentos que fervilharia dentro de si toda vez que visse aquela porta e janela, que outrora tornaram conversas tão ensolaradas, sempre fechadas. Quando, ao aproximar-se do pequeno portão, descobrisse que do outro lado não havia mais um assento de onde lhe esperava o mais terno sorriso. Assim como não haveria mais tardes de caminhadas, bobagens jogadas ao vento, histórias de um tempo que não conheceu, risadas tantas, nenhum por quê. A casa ficou vazia. Cada um levou para si, além do seu próprio porta-retratos e objetos que traziam boas lembranças, também um pouco do vazio que lá ficou.

Como as linhas que não param de desenhar o papel, os dias também continuam seguindo o calendário. E assim como nos dias, em alguns trechos a caligrafia ameaça chegar ao ilegível por conta de olhos marejados. Mas a vida tem que seguir o seu curso natural, é o que dizem. Também dizem que hoje, outras estantes em outros lares ganharam um novo porta-retratos. E dali, sorridente, a lembrança daquela chama continuará mantendo aceso o brilho nos olhos de todos aqueles que ela pode iluminar. E quando a dor começar a ceder nos corações que até então estavam a se sentir desamparados, eles descobrirão que não irão perder jamais o seu calor. Porque chamas e retratos estão todos vulneráveis à efemeridade da vida. Mas a luz e os sorrisos que um dia eles sustentaram são antes os significados do verdadeiro amor. E sendo amor, são eternos. E sendo eternos, vão além.

 

Texto originalmente no site Revertério, em 2010.