Imperativos

Inspire. Expire. Respire. Puxe todo o ar que conseguir e saboreie: viver é uma delícia. O calor, o frio, o arrepio: viva tudo o que puder.  Do inverno à primavera, os dias estão a sua espera, sedentos.  Doe-se às experiências. Doa-se o resto. Um beijo, um abraço, um riso, uma viagem, um plano, uma vodka, um frio na barriga… entregue-se às sensações! E, com um pouco de magia humana, construa com elas histórias que mereçam sobreviver a vida inteira. Por favor, não se deixe cair no mesmo. Não perca a capacidade de admirar-se. Mantenha sempre aquecida a sua sensibilidade, que ela se encarregará de não deixar morrer o encanto.

Seja. Sinta. Permita. Morda o fruto proibido: o mundo é seu. Aceite ao menos descobrir o que ele tem para oferecer. Não tenha medo, não tenha fé; tenha amigos. E que alguns sejam serpentes e soprem ao seu ouvido que há vida além das videiras. E que você decida o que é bom e o que é mau. Vá ao outro lado. Vá aonde quiser. Há tanta gente, tanto lugar, tanta eternidade esperando para serem descobertos! Extravase os limites do Éden. Crie os seus próprios limites. Pecados e paraísos: quem disse que devem ser paradoxos? Não esqueça: a vida não é eterna, mas pode ser intensa.

Irradie. Inove. Renove. Conjugue todos os verbos que quiser: a escolha é sua. Não importa o que dizem a sintaxe ou a morfologia, mas sim o sentido que dá o coração. Não espere o tempo engolir o prazo de validade. Deixe cicatrizar. Diga que ama. Ou que não ama mais. Perdoe. Peça perdão. Ria alto. Olhe nos olhos. Liberte-se. Veja no espelho os reflexos de sua história, sentimentos e situações, e então diga o que é certo e o que é errado – ninguém mais poderá fazê-lo. Não se preocupe, o que se faz pra ser feliz dispensa explicações. A felicidade é primordial, e por isso, por si só justifica-se.  Então, pronuncie em voz alta o que você quer o que você pode. Sim, querer é poder. Pois o bom da vida é mesmo essa coisa de gostar e desgostar; planejar, destruir e reconstituir; tentar e tentar de novo. O bom da vida, meu amigo, é que ela é sua.

 

Mesmo estando bastante atrasada, gostaria de desejar você, querido leitor do blog, um feliz ano novo. Que você possa inspirar, expirar, sentir, permitir, irradiar e renovar, não apenas em 2012, mas em toda a sua existência.

Feliz ano novo! Feliz vida! 

 

Foto: arquivo pessoal.

Eu e os outros

Eu sou tão eu, que na grande maioria das vezes acabo esquecendo os outros. Minto: não os esqueço, apenas não me importo. Com essa amargura de quarentona solitária. Explico: tem outros que são parte de mim, e tem outros que são apenas os outros. E eu, que já carreguei todos comigo de uma forma tão minha, hoje não me surpreendo mais com as perdas.

Os outros que um dia foram meus, e agora não passam de outros, desprenderam-se de mim e escorregaram, ora de forma abrupta, ora de forma tão suave, que quase não me dei conta. Sei que eles ficaram pelo caminho. E então, eu andei com as minhas próprias pernas. E o que um dia foi dor, hoje é um cortês ‘bom dia’, e quem sabe uma conversa trivial sobre um assunto qualquer.

Esse meu jeito de ser eu nem sempre foi tão meu assim. Emprestado, aprendido, improvisado. Hoje tudo é assinado com a minha rubrica, eu me assumo prontamente porque me sinto por completo – como uma menina que ganha o seu primeiro sutiã. E se os outros que são tão somente outros tiveram o seu motivo para escorregar, sejamos francos, talvez eu também tenha tido para abrir mão. Agora que me sou, sei: não há juras de eternidade que um dia não possam ser quebradas. Ainda que por um momento isso soe tão profano.

E por ser eu de forma tão escancarada e repetitiva, não consigo mentir, fingir ou trapacear. E por isso mais uma vez revelo: não me surpreendo com as perdas, mas nunca perdi o medo de perder. Porque os outros que fazem parte de mim completam o meu eu, e só assim sou. E como de quarentona solitária não tenho nada, não me nego: vivo por amor. E a não ser se um dia a mudança for tamanha a ponto de alterar a pulsação deste coração, garanto que há aqueles outros que, na primeira ameaça de escorregar de mim, eu tentaria agarrar de volta, segurando até as pontas dos meus dedos.

E eu sou tão eu, que não sei responder outra coisa: sou amor e sou indiferença, a depender de quem perguntar. Pelo meu caminho vou preparada para os gozos e para as meias-palavras, separando aos poucos o que ainda é futuro e o que são lembranças desbotadas esquecidas em algum lugar no sótão. Porque amor pode ser eterno, já sobre as promessas, não me arrisco. Os outros podem ser outros de tantos jeitos, vai saber de mim, deles, da vida. Carrego as incertezas de tantos outros de outrora e tantos outros de agora. E o peso da bagagem não me deixa esquecer: se escorregar, não é amor.

 

 

Sobre histórias com H

Vez por outra fico me indagando sobre como começam as histórias. Parece tolice, mas isso me fascina. Deuses, destinos, acasos, coincidências, escolhas, propósitos, providências divinas, um esbarrão na rua – respostas não faltam. Eu sempre prefiro o mistério de não me decidir ao certo em qual delas assinalo, apenas as que elimino. Os amores que amei, os risos que ri, os braços que abracei, os laços que me entrelaçaram… as pessoas que a vida me presenteou. De onde elas vêm? Como foi primeiro riso que nos aproximou? Em qual abraço já havíamos nos entrelaçado? Em qual desses laços já era amor?

Só sei que, de alguma forma, as histórias começam. Talvez ninguém lembre ao certo de quem foi a primeira palavra, mas a essa altura muitas delas  já riscaram em demasia o papel. Às vezes rasuramos, às vezes escrevemos algo por cima, às vezes manchamos a folha com uma lágrima teimosa. Destacamos um negrito o que foi especial. Colocamos um entretítulo e mudamos o rumo. Escrevemos nas entrelinhas e esperamos que fique entendido. Em momentos de raiva, distorcemos a caligrafia, e depois sentimos vergonha do quão feia e destoante ficou a sua aparência.

E, diferente das estórias que criamos, nas histórias da vida os personagens têm vida própria. E decidem por si. Não somos apenas nós que conduzimos o enredo. Nem assinamos sozinhos ao final. Qualquer que seja a emoção da tinta com a qual rabiscamos cada atitude, as mensagens que ela deixa não podem ser apagadas. Diferente do que acontece apenas no papel, o que marca a vida fere a eternidade.

E sobre as histórias com H, dessas que dizem ser de verdade, podemos nunca saber realmente o motivo que permitiu que elas começassem. Sabemos apenas que, se existem, é preciso ter responsabilidade sobre tudo o que deixaremos marcados nos outros. Assim como é preciso estar preparado para o que pode ficar marcado em nós mesmos. Os laços do amor trazem risos e abraços, mas também podem trazer embaraços.

Mas, não nos precipitemos. Se não sabemos como as histórias começam, o que se dirá então de como elas terminam? Basta saber que elas terminam. Não importa quem foram os personagens e o que disse o enredo. Não importa o que ficou marcado. A única certeza que temos das histórias é que todas elas têm o seu ponto final.

 

Foto: arquivo pessoal.

Vermelho Intenso

Andava com os mesmos passos descompassados da meninice, na mesma calçada, voltando do mesmo local de trabalho desde que era estudante. O horário era o mesmo, com os últimos raios do mesmo sol alaranjando o horizonte, num anúncio de despedida. Eu era a mesma, sempre. A mesma casa, os mesmos amigos, o mesmo cardápio e penteado. Os mesmos livros, as mesmas músicas, os mesmos hábitos e planos.

E lá estava eu descendo do mesmo ônibus e seguindo pela mesma calçada com o mesmo descompasso, quando olhei de relance a mesma loja de cosméticos que ficava do outro lado da rua. Estaquei, como nunca havia feito. Olhei para os dois lados, com medo de que alguém estivesse a flagrar aquela cena. Alguns minutos se passaram, algumas pessoas se esbarraram em mim, até que eu conseguisse domar o meu conflito interior. Coloquei o primeiro pé na faixa de pedestres. Avancei.

Cheguei ao outro lado da rua pela primeira vez, quebrando sigilosamente aquele mesmo ritual diário. Respirei fundo, temendo que alguém ouvisse as batidas violentas do meu coração – seria um erro fatal que ele me denunciasse nesta hora. Entrei na loja de cosméticos, assustada com tanta coisa diferente do mesmo. Prateleiras com diversas cores, tamanhos, nomes, aromas e formatos. Eu, com olhos incertos, mãos levemente trêmulas e palavras atropelando-se em minha cabeça, mas que eu não conseguia balbuciar. Boba, atônita, apenas admirando o objeto do meu desejo. Eu ainda não sabia, mas aquilo eram sintomas de uma paixão.

Agarrei-o. Atravessei as pessoas, as prateleiras, o caixa, e corri num compasso diferente até em casa. Bati a porta, passei a chave e larguei-me no chão, o ar ainda cortando os pulmões pela sede para recuperar o fôlego. Não havia tempo a perder. Em poucos minutos, já estava rasgando a embalagem e deixando à mostra o responsável pelo crime passional que acabara de cometer: um estojo de tinta de cabelo, cor vermelho intenso. Meus olhos brilharam novamente. Havia um descolorante. Havia luvas de aplicação. Havia um manual de como encarar a mudança.

E lá estava eu, quase possessiva, devorando com os olhos aquele passo-a-passo. No fundo, mesmo nunca tendo deixado de ser a mesma, eu sabia que não há essa coisa de fórmula pronta para a gente aprender a mudar. É algo que nascemos sabendo, e só descobrimos esta habilidade quando nos vemos encurralados por ruas intermináveis a céu aberto. É algo como, no exercício da mais plena liberdade, sentir que não há escolha. E então escolhemos pelo diferente, e libertamo-nos. Mas, não sem dor ou medo.  Pois a convivência com o mesmo de nós é tão cômoda, que nos ludibria a ponto de passarmos tanto tempo ali, achando que estamos felizes por cultivar amor. Mas só quando a libido pelo novo toma nosso corpo, e inconscientemente segura as rédeas das nossas ações, percebemos o quanto há de espaço em nosso coração. Vemos o quanto de vida há a nossa volta, esperando apenas uma troca de olhares para nos apaixonar.

Sim, eu me apaixonei pela vida. Andando pela mesma calçada, no mesmo horário, eu olhei acidentalmente em seus olhos – um caminho sem volta. No dia seguinte, até o meu espelho saltou de espanto quando me viu reluzir aos raios de um novo sol que entravam pela janela. Saí de casa dando novos passos e criando outro descompasso. Agora, eu carregava um vermelho que não me deixaria esquecer o sabor do inflamável. Agora, eu era intensa em tudo fazia. Afinal, apaixonar-se pela vida era um caminho sem volta, e por ele eu seguia.

 

 

Últimas palavras

A manhã nasceu sussurrando tristemente o anúncio do seu presságio.  O vento frio entrou pelas brechas da janela e gelou seu coração. Titubeou por um momento, mas se conteve e fez de conta que ainda dormia. Naquele dia, seria preciso escolher cuidadosamente todas as palavras que daria vida em seus lábios. Com a mesma certeza que o tato dos cegos, sentia que seriam as últimas.

Ainda assim, falou de sentimentos, sorrisos e futuro. E mesmo sem conseguir dar uma atribuição lógica para isso, sabia que tudo era feito carinhosamente com as pinceladas mais doces da sua sinceridade. Desenterrou os sonhos de outrora e os entregou ali. Foi minuciosa nas palavras, pois aprendera a presentear com flores aqueles que se vão.

Por isso, falava tudo num futuro do pretérito bem claro, mas que ele nunca entenderia, pois sempre fizera questão de viver apenas entre os números. Mas ela foi verdadeira. Ele achou que entendeu. Ela sempre estivera ali. Ele sempre soube que ela estaria ali – mesmo sem saber ao certo o que significava essa conjugação. Foi quando amanheceu aquele céu cinza em um dia frio. Então, algo mais forte separou, ali, o futuro e o pretérito.

A noite caiu e trouxe consigo a hora de maior angústia – aquela em que não se pode mais prolongar o fim. Se houve um último beijo, nem lembra mais. Talvez o cansaço tivesse falado mais alto, e ela continuasse optando por evitar despedidas. As últimas palavras foram ficando trôpegas, embriagadas pelo sono. Então, assim como a sua história , foram perdendo a força, sussurraram alguma coisa qualquer e perderam a importância. Sem consciência de si, calaram-se.