Eu conheço a tua dor, menina

Menina, eu conheço a tua dor. Sei que o peso da vergonha nos enterra a cabeça entre os ombros, e parece que nunca vamos ser capazes de sustentar os olhares de fora outra vez. Eu sei que o dia seguinte tem gosto de ressaca – mesmo quando não precisaram te empurrar bebida ou colocar droga no teu copo pra te deixar vulnerável. É a ressaca de quem acorda se sentindo suja. A náusea ao se olhar no espelho. A vontade de vomitar até colocar pra fora aquele cheiro, aquele gesto, aquela lembrança – ou até limpar tudo o que está te bloqueando a memória e te corroendo com a dúvida. É a dor que nenhum analgésico é capaz de curar.

Eu conheço essa sensação, menina. Também já arrastei comigo os grilhões da culpa, as feridas mudas na alma. O silêncio é uma saída confortável, eu sei. Calar nos traz a falsa sensação de que nunca mais precisaremos encarar a vergonha e a culpa outra vez. Mas a ferida continua lá, não é mesmo? Eu só queria que você realmente soubesse que, num mundo onde se ensina que os corpos femininos são públicos, numa cultura que semeia ódio gratuito à mulher, você não é a culpada. É a vítima.

Não tenha vergonha da agressão que você viveu. Infelizmente, arrisco dizer que toda mulher à tua volta também esconde, silenciosa, sua própria ferida. Respeite seu tempo, mas lembre que compartilhar a bagagem torna o peso um pouco menor. Usar tua voz para alertar futuras vítimas talvez seja um poderoso cicatrizante. E o abraço de tantas outras mulheres que também conhecem a tua dor, menina, é a sensação mais próxima que você vai ter de um copo d’água numa manhã de ressaca.

Sinta meu abraço. Eu também estou com você. Seja forte. Vai passar.

Comments

comments

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *