Vermelho Intenso

Andava com os mesmos passos descompassados da meninice, na mesma calçada, voltando do mesmo local de trabalho desde que era estudante. O horário era o mesmo, com os últimos raios do mesmo sol alaranjando o horizonte, num anúncio de despedida. Eu era a mesma, sempre. A mesma casa, os mesmos amigos, o mesmo cardápio e penteado. Os mesmos livros, as mesmas músicas, os mesmos hábitos e planos.

E lá estava eu descendo do mesmo ônibus e seguindo pela mesma calçada com o mesmo descompasso, quando olhei de relance a mesma loja de cosméticos que ficava do outro lado da rua. Estaquei, como nunca havia feito. Olhei para os dois lados, com medo de que alguém estivesse a flagrar aquela cena. Alguns minutos se passaram, algumas pessoas se esbarraram em mim, até que eu conseguisse domar o meu conflito interior. Coloquei o primeiro pé na faixa de pedestres. Avancei.

Cheguei ao outro lado da rua pela primeira vez, quebrando sigilosamente aquele mesmo ritual diário. Respirei fundo, temendo que alguém ouvisse as batidas violentas do meu coração – seria um erro fatal que ele me denunciasse nesta hora. Entrei na loja de cosméticos, assustada com tanta coisa diferente do mesmo. Prateleiras com diversas cores, tamanhos, nomes, aromas e formatos. Eu, com olhos incertos, mãos levemente trêmulas e palavras atropelando-se em minha cabeça, mas que eu não conseguia balbuciar. Boba, atônita, apenas admirando o objeto do meu desejo. Eu ainda não sabia, mas aquilo eram sintomas de uma paixão.

Agarrei-o. Atravessei as pessoas, as prateleiras, o caixa, e corri num compasso diferente até em casa. Bati a porta, passei a chave e larguei-me no chão, o ar ainda cortando os pulmões pela sede para recuperar o fôlego. Não havia tempo a perder. Em poucos minutos, já estava rasgando a embalagem e deixando à mostra o responsável pelo crime passional que acabara de cometer: um estojo de tinta de cabelo, cor vermelho intenso. Meus olhos brilharam novamente. Havia um descolorante. Havia luvas de aplicação. Havia um manual de como encarar a mudança.

E lá estava eu, quase possessiva, devorando com os olhos aquele passo-a-passo. No fundo, mesmo nunca tendo deixado de ser a mesma, eu sabia que não há essa coisa de fórmula pronta para a gente aprender a mudar. É algo que nascemos sabendo, e só descobrimos esta habilidade quando nos vemos encurralados por ruas intermináveis a céu aberto. É algo como, no exercício da mais plena liberdade, sentir que não há escolha. E então escolhemos pelo diferente, e libertamo-nos. Mas, não sem dor ou medo.  Pois a convivência com o mesmo de nós é tão cômoda, que nos ludibria a ponto de passarmos tanto tempo ali, achando que estamos felizes por cultivar amor. Mas só quando a libido pelo novo toma nosso corpo, e inconscientemente segura as rédeas das nossas ações, percebemos o quanto há de espaço em nosso coração. Vemos o quanto de vida há a nossa volta, esperando apenas uma troca de olhares para nos apaixonar.

Sim, eu me apaixonei pela vida. Andando pela mesma calçada, no mesmo horário, eu olhei acidentalmente em seus olhos – um caminho sem volta. No dia seguinte, até o meu espelho saltou de espanto quando me viu reluzir aos raios de um novo sol que entravam pela janela. Saí de casa dando novos passos e criando outro descompasso. Agora, eu carregava um vermelho que não me deixaria esquecer o sabor do inflamável. Agora, eu era intensa em tudo fazia. Afinal, apaixonar-se pela vida era um caminho sem volta, e por ele eu seguia.

 

 

Comments

comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *