Tudo velho de novo

ano_novoNão houve mudança alguma após a queima de fogos. A vida continuou igual– o expediente retornou em alguns dias, a pilha de livros intocados ainda descansa sobre a prateleira e a roupa suja não deixou o cesto. Soletrar a contagem regressiva não soou como uma fórmula mágica. E quando o coro empolgado chegou ao 1, é possível que ninguém na multidão tenha percebido, mas a vida permaneceu exatamente no mesmo lugar. Tudo velho de novo.

A esperança que preenche o peito nessa hora é real. Mas celebrar desejo de mudança não apaga o fato de que ela é apenas simbólica. As promessas continuam sendo promessas. Os pedidos despejados nas ondas são tão somente pedidos. E a oração silenciosa durante os primeiros minutos do ano, por mais fervorosa que seja, não fará por si só milagre algum.

A vida nova que procede ao ano novo é apenas um conceito vago pra compor mais um clichê bonito. Mas, pra ser sincera, quem nunca precisou se apegar a alguma abstração pra seguir em frente? A miragem dos dias melhores às vezes é o conforto que a alma precisa quando os músculos doloridos relutam em ter que dar o próximo passo. E, por vezes, o que comprime o peito é ver o tempo correr sob pés acomodados, sem que a gente saia do lugar.

Devemos realmente acreditar que o sol brilha depois da curva. Mas está na hora de parar de fingir que não sabemos que não é a curva que se dobra até nós. Passada a euforia dos desejos de recomeço, a gente costuma deixar que as promessas de luta por dias melhores sejam subsituídas pelo aconchego aos dias mais fáceis. E então não se inicia um novo ciclo, apenas se completa mais uma volta em círculo. Tudo velho. De novo.

A gente anda confundindo o movimento de renovação com o movimento de inércia. Mas, veja só, o que precisamos mesmo é sair do lugar. Iniciar, finalizar, iniciar de novo. Quando a gente trabalha em um objetivo, nem mesmo um ponto final sem resultado é perda de tempo. O esforço é cumulativo. Por isso, seja qual for a ideia de ciclo você estabeleça para si, apenas se mova – em janeiro, em cada segunda-feira ou simplesmente naquele dia em que desperta a percepção de que não é esta a vida que você quer. Não importa quando, é sempre preciso tentar de novo.

E se clichês bonitos realmente funcionam, então admita que tudo velho de novo, e de novo, cansa. E experimente fazer algo novo, ao menos dessa vez. Afinal, nenhum ciclo começa simplesmente por convenções cronológicas. Ele começa quando você começa. O ano novo está dentro de você.

 

Imagem: divulgação.

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