Todo ano é a mesma coisa

Final de ano é sempre a mesma coisa. A começar pelas milhares de luzinhas que invadem a cidade, e por todo lugar que a gente passa, lá estão elas: piscando. De todas as formas e cores: piscando. Tão bonitinhas: piscando. Começam a encher o saco: piscando. Lá vem a sua dor de cabeça: piscando. Aí você se convence de que o Natal não para por causa do seu astigmatismo.

E há a decoração natalina: de repente parece que tudo a nossa volta fica verde e vermelho. Os comerciais na TV, as vitrines, os outdoors. A salada parece ficar mais verde e vermelha. E até mesmo o saldo bancário resolve entrar na festa: sai do verde e entra no vermelho.

Também há as imitações fajutas de neve. Pedaços de isopor, de plástico, de algodão… A simulação tem que estar perfeita. Claro, que no país tropical abençoado por Deus, a gente improvisa como pode. Principalmente quando se tem um sol de 30 graus torrando o cocurute.

Natal é época de ser solidário. Ver aquela família carente no Gugu que iria passar Natal com fome dá um nó na garganta! Você chega mesmo a doar um quilo de alimento ou um brinquedo para projetos que irão doar a comunidades carentes. Aí você se sente até mais leve. Aí chora assistindo aos mesmos filmes da crucificação de Cristo que viu no ano passado. Afinal, Natal é época de se sensibilizar.

Mas eis que a imitação de pinheiro armada na entrada do trabalho lembra que está chegando a festa de confraternização da empresa. Festa de confraternização é sempre a mesma coisa. Parece sina aquela secretária mal humorada lhe tirar todo ano no amigo-secreto. E então você é obrigada a desembrulhar aquela blusa cafona, parecendo que foi comprada para sua avó. Aí se esforça para dar o sorriso mais natural que conseguir, e… vamos lá… você consegue… “Nossa, adorei!”. Ufa! Mas ela parece não se dar por convencida e toma a blusa de sua mão, estica para ficar bem visível pra todo mundo, e diz que achou a sua cara. A sua cara, esse pedaço de pano velho?! Tudo bem que ultimamente você anda com algumas olheiras, mas ela não podia ter feito isso justo na frente do estagiário bonitão! E quando você pensa que está acabando, ainda tem o presente de Natal da empresa – a forma de agradecer as 10 horas de trabalho ao dia, sem pagamento de horas extras: um panetone que cabe na palma da mão. Aliás, parece mais com um brigadeiro um pouco crescido. A diferença é que o brigadeiro não tem gosto de pão mofado.

Passado o trauma da festa da empresa, chega então a mais famosa de todas as festas de família: a ceia de Natal. Mas ceia de Natal também é sempre a mesma coisa. Sempre tem algum parente que a gente só viu uma vez na vida, ou nem ao menos conhece, que resolve sair do quinto dos infernos para cear com a família. “Oi tio, tudo bem?”, “Tia, que bom que a senhora veio!”, “Nossa, tio, parece que o senhor está mais jovem desde a última vez”… Até surgir o beliscão de sua mãe: “Esse não, menina, esse é o garçom!”. Então logo começam aqueles pirralhos correndo pelo meio da casa, esbarrando nos móveis e arranjos de decoração. Aquela tia antipática, que não perde a oportunidade de lhe alfinetar, começa a dizer que já está na hora de você arrumar um noivo, afinal, não quer ficar para titia, né? Faça como a Ritinha, que está de casamento marcado com o gerente daquela empresa famosíssima, que parece com um ator de novela e ganha super bem. Aí você se pergunta: o que é que a sua prima tem que você não tem? Olha de esguelha para a Ritinha: loira, alta, cinturinha de Barbie, bumbum enorme… É melhor não estragar sua noite de Natal com a resposta.
Mas logo depois de algumas doses de vinho você se vinga de todos eles. Nossa, parece que você não tinha reparado no batom vermelho da Ritinha… Poderia até mesmo confundi-la com um travesti! Hahahaha! Olha, o Zezinho caiu embaraçado no pisca-pica… Hahaha, bem feito! Moleque endiabrado, hahaha! Olha só o tamanho do prato do tio Osvaldo, parece que ficou o dia inteiro sem comer para vir para cá! Hahahaha! Nossa, não tinha prestando atenção no quanto sua tia ta gorda… Ta parecendo um colchão amarrado dentro desse vestido… hahaha!
De repente tudo se apaga, e você só volta a se dar conta de si quando acorda de ressaca ouvindo a maior bronca de sua mãe. E ainda tem que arrumar a bagunça com aquela dor de cabeça.

Mas, passado o trauma da ceia de Natal, vem a festa de réveillon. E festa de réveillon é sempre a mesma coisa – você nunca sabe ao certo como se escreve ou pronuncia, só sabe que tem muita champanhe para estourar. Viagem à praia, com aquela galera. Todo mundo se preparando para a tão esperada virada. E logo começam as superstições. Vermelho, cor da paixão: fita vermelha amarrada na calcinha, para desencalhar. Fita rosa para que seja logo com o seu grande amor. Amarela para que ele seja bem rico. Verde porque se ele não chegar esse ano, você não desistir de esperar por ele no próximo. Quando termina de amarrar todas as fitas, sua roupa íntima já está digna de Globeleza.

É chegado o grande momento! 5… 4… 3… 2… 1! Feliz ano novo! Nossa, aí é uma agonia pra abraçar logo todo mundo, que quando você se dá conta já abraçou o marido da moça que ia passando, o vendedor de água mineral, o catador de latinha, mas acabou esquecendo o primo gato da Pri. Qual a cor da fita para espantar miopia? Promete que não vai esquecer de pesquisar isso no próximo ano…
E chega a hora de pular as 7 ondas e fazer os 7 pedidos. Pula a primeira onda: saúde pra toda a… Lá vem a segunda onda: que o estagiário bonitão me chame pra… Terceira onda: um bumbum igual ao da Riti… Quarta onda: que a chata não me tire no próximo… Passou a quinta, você não fez o pedido. Corre atrás da quinta! Lá vem a sexta… Puft! A sétima te dá um banho. E você acaba caída na praia, com a roupa encharcada. O mico da noite. E o pior de tudo: já era a sua chapinha.

E todo ano novo também começa com velhas promessas de uma vida nova. Dedicar-se aos estudos, ser mais agradável com as pessoas no trabalho, levar a sério aquela dieta de toda segunda-feira, não jogar mais papel de bombom na rua, não cobiçar o namorado da vizinha… E então o ano começa, e começa a rotina, e os problemas, e as contas para pagar… Volta a dor de cabeça, e você se irrita com o trabalho, principalmente com a Alzira, que começou a pegar o estagiário bonitão. Tem que se virar com desculpas esfarrapadas toda vez que a secretária lhe pergunta por que ainda não usou aquela blusa pra ir trabalhar. Tem que engolir o convite de casamento da Ritinha. E você não tem mais tempo pra pensar em dieta, muito menos em estudos. Não tem mais tempo nada. E a única coisa que lhe resta fazer é esperar pelo próximo ano, pedindo do fundo do coração para que ele seja diferente.

Porque os anos que estão por vir são sempre a mesma coisa. Neles apostamos todas as nossas fichas, todas as esperanças de algo melhor. Então no final é ir levando as coisas do jeito que puder e torcer para que no ano que vem a vida seja mais fácil. E o panetone, mais gostoso.

 

Texto originalmente publicado no site Revertério.

 

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