Tempestades de Doralice

doraliceO despertador só precisa tocar uma vez pra ela começar a tocar o dia. A manhã invade o seu quarto com um sol intruso e notas de axé. Os pingos frios do chuveiro escorrem por seu corpo morno, enquanto a água no bule ferve para o café. Em seu paladar, ela tateia cada temperatura. Na rádio em que escuta, a previsão do tempo diz que será um dia de luta. Ela não presta muita atenção, focada no relógio que marca seis e quinze. A sua cara ainda está amassada. E ela, já atrasada.

E então é ônibus e metrô e medo de atropelar os velhinhos na avenida com suas passadas largas. É suspiro, é prazo, é suor, é a vida que lhe faz lembrar o quanto está cansada. O almoço esfriou, mas o embrulho em seu estômago é causado pelos bilhetes de cinema que o rapaz de camisa quadriculada coloca em sua frente. Ela confirma que não há planos para a noite enquanto lhe sorri com os olhos. Com um desses sorrisos que não mente.

Mas então chega sexta-feira e tudo fica diferente. O filme foi bom, mas agora ela sorri com a audácia de quem sabe ser dona de si. Lá no bairro tem samba e essa menina não engana: sua saia rodada já chega anunciando que na noite é ela quem encanta. E na ponta do pé ela roda feito bambolê de criança. Em seu corpo, olhos maldosos tentam se adocicar com a sua cor de jambo. Eu sambo – ela responde em cada movimento habilidoso da sua cintura. Ela sente, ela se entrega, ela exagera, insana criatura.

O remelexo da moça desperta a atenção dos deuses. São Pedro, filho ousado, não resiste ao seu sapateado. Lá vem ele com lágrimas de felicidade molhar a calçada onde a viola não sabe ficar calada. E então a morena olha para o céu e pede pra que seja trovoada. Porque se tem uma coisa que ela não suporta é tudo o que vem em pingos lentos. Se a vida não cabe em um conta-gotas, por que não se afogar em uma torrente de sentimentos? Sai pra lá com esse chuvisco, porque a moça pede enchente! Oxente, se é pra molhar que seja pra sentir arrepio. Se é rio, então se deixa carregar por essa corrente. Ela samba, ela chora, ela chove, e por alguns minutos a tristeza do seu cansaço escorre pro outro lado da rua. A saia encharcada pesa sobre o seu corpo, mas a moça se sente leve: sua alma está nua.

Eu nasci para ser vendaval – ela disse. Seu ascendente é a tempestade. Seu temperamento é a intensidade. Seu nome: Doralice.

Este texto faz parte de um projeto especial do Esquinas com canções de Saulo Fernandes e foi inspirado na música “Doralice“.

 

Imagem: reprodução.

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