Sobre tudo o que a gente não foi

TEMPOA gente poderia ter sido ter sido um par. Um para o outro. Outro reencontro, outro beijo na testa, outro dedo de café preto no fim da tarde. Quantas tardes a gente poderia ter tido? Infinito era a palavra que selava tua promessa. Eu ainda guardo tuas cartas e teus dedos embaraçados nas pontas do meu cabelo. Guardo o sabor amargo daquela nossa coragem em desafiar os conceitos de tempo e espaço pra criar um laço que nunca conhecesse o desatino. Mas você carregou para longe a tua ponta da corda e agora eu desafino. Tua voz foi firme quando pronunciou adeus. A gente poderia ter feito melodia, mas você abriu mão da minha poesia, e agora impera o silêncio.

A gente poderia ter sido um lar. Pousado num bairro do interior e feito ninho. Planejei te acordar de mansinho com o vai-e-vem dos dedos em tuas costas, do jeito que você gosta. Poderia ter tido um fim de semana na praia e um fim de vida na casa de jardim colorido que um dia a gente sonhou. Poderia ter sido abraço com gosto de eternidade em frente ao portão. Mais um dia me contando como foi o dia, mais uma noite sendo pedaço de mim. Mais ou menos assim como eu sempre imaginei: você ao lado para não temer o que vier pela frente. Mas o teu primeiro tropeço fez trapaça com meus planos. Nosso caminho virou desengano. Você poderia ter escolhido ficar comigo, mas escolheu ficar pra trás.

A gente poderia ter sido mar. Areia e sal brincando de completude num dia de sol qualquer. Poderia ter sido tua onda de calor lambendo meu corpo a se molhar. Melhor sexo, melhor nexo, melhor clareza. Tsunami de plena certeza de que esse é um mergulho sem volta. E então, nunca mais a gente saberia o que é viver na superfície. A gente poderia ter ido mais fundo. Ancorado em qualquer mundo onde nunca fosse preciso levantar velas outra vez. A gente poderia ter sido afago. Ter sido verdade. Mas, no meio de tanta coisa bonita, você preferiu me afogar em saudade.

Este é mais um post coletivo dos Escritores da Era do Compartilhamento, com o tema “Saudade”. Leia também a Tatiane Argenta, Jô Lima, Taciana Gaideski, Sâmela Faria, Joany Talon, Nathalia Cunha, Juliane Rodrigues, Leca Lichacovski, Fernanda Probst, Tamyhe Engler, Cristina Souza, Pâmela Marques, Fábio Chap, Valter Junior, Tayane Sanschrí, Layna Dias, Fernando Suhet, Cíntia Gomes, Allison Christian, Denise Carvalho e Mariah Alcântara.

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3 respostas

  1. Que liiiiiiindo! Me fez lembrar de tanta coisa, desejar que tivesse sido tão diferente, que não tivesse virado saudade mas que escolhesse ser tudo o que eu sonhei sozinha.
    Difícil escolher minha parte preferida até, mas acho que fico com o finalzinho, que diz tudo: ” A gente poderia ter ido mais fundo. Ancorado em qualquer mundo onde nunca fosse preciso levantar velas outra vez. A gente poderia ter sido afago. Ter sido verdade. Mas você… De tudo o que a gente poderia ter sido, você preferiu me afogar em saudade.”

  2. Perdi a conta de quantas vezes li esse texto e sempre que volto nele, toda vez, é como assistir as palavras virando peças de quebra-cabeça e se encaixando. De uma beleza doída, mas que não deixa de ser beleza =)

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