Sobre histórias com H

Vez por outra fico me indagando sobre como começam as histórias. Parece tolice, mas isso me fascina. Deuses, destinos, acasos, coincidências, escolhas, propósitos, providências divinas, um esbarrão na rua – respostas não faltam. Eu sempre prefiro o mistério de não me decidir ao certo em qual delas assinalo, apenas as que elimino. Os amores que amei, os risos que ri, os braços que abracei, os laços que me entrelaçaram… as pessoas que a vida me presenteou. De onde elas vêm? Como foi primeiro riso que nos aproximou? Em qual abraço já havíamos nos entrelaçado? Em qual desses laços já era amor?

Só sei que, de alguma forma, as histórias começam. Talvez ninguém lembre ao certo de quem foi a primeira palavra, mas a essa altura muitas delas  já riscaram em demasia o papel. Às vezes rasuramos, às vezes escrevemos algo por cima, às vezes manchamos a folha com uma lágrima teimosa. Destacamos um negrito o que foi especial. Colocamos um entretítulo e mudamos o rumo. Escrevemos nas entrelinhas e esperamos que fique entendido. Em momentos de raiva, distorcemos a caligrafia, e depois sentimos vergonha do quão feia e destoante ficou a sua aparência.

E, diferente das estórias que criamos, nas histórias da vida os personagens têm vida própria. E decidem por si. Não somos apenas nós que conduzimos o enredo. Nem assinamos sozinhos ao final. Qualquer que seja a emoção da tinta com a qual rabiscamos cada atitude, as mensagens que ela deixa não podem ser apagadas. Diferente do que acontece apenas no papel, o que marca a vida fere a eternidade.

E sobre as histórias com H, dessas que dizem ser de verdade, podemos nunca saber realmente o motivo que permitiu que elas começassem. Sabemos apenas que, se existem, é preciso ter responsabilidade sobre tudo o que deixaremos marcados nos outros. Assim como é preciso estar preparado para o que pode ficar marcado em nós mesmos. Os laços do amor trazem risos e abraços, mas também podem trazer embaraços.

Mas, não nos precipitemos. Se não sabemos como as histórias começam, o que se dirá então de como elas terminam? Basta saber que elas terminam. Não importa quem foram os personagens e o que disse o enredo. Não importa o que ficou marcado. A única certeza que temos das histórias é que todas elas têm o seu ponto final.

 

Foto: arquivo pessoal.

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