Sobre danças e relacionamentos

dancarDança boa é aquela em que há entrega, sabe? Teu par pode não ser um exímio coreógrafo, errar o passo que você tenta ensinar desde o início da noite e sair do ritmo com frequência. Mas, se depois de tudo isso, ele sorrir e continuar segurando tua mão, é porque há entrega. Teu par pode nunca ter dançado antes, carregar traumas de um baile passado ou morrer de medo de pisar na pista. Mas, se ainda assim ele aceitar tua mão estendida, é porque há entrega. Se você vale o risco da queda e todos os seus temores, essa dança tem tudo pra ser boa.

Relacionamentos são como dança, percebe? Não vamos topar por aí com o par perfeito das comédias românticas que arrancaram suspiros na adolescência. A pessoa que nos tira pra dançar é tão normal e imperfeita quanto qualquer nota desafinada. É o coração quem transforma tudo em melodia. Acontece que, dia após dia, canção atrás de canção, o tempo às vezes mostra o quanto dançar pode ser cansativo. Os músculos doem, os sapatos se desgastam, o desafino irrita e os olhos lacrimejam escondidos. Mas, se ainda assim o teu par aguentar a câimbra e puxar teu corpo pra mais perto, é porque há entrega. E isso te fará esquecer o calo no dedinho do pé pra sentir a vontade mais ardente de se esforçar pra ser melhor na próxima canção. É quando descobrirá, pela milésima vez, que todo o cansaço se dilui quando você sente o calor daquela pele e o seu cheiro. E a alma se renova quando o seu hálito quente sussurra uma piada infantil em teu pescoço, no intervalo do refrão. E então você sente que não poderia haver melodia mais bonita.

Porém, nem toda dança é sinônimo de entrega, entende? Há quem saia pra dançar puramente por curtição. Não que exista algo de errado nisso – desde que a brincadeira fique clara antes de o show começar. O problema é quando a brincadeira reside em fazer malabarismo com as notas musicais sob a promessa de que essa é a “nossa música”. O coração demora a perceber o engano. É difícil pra ele enxergar quando alguém só quer brincar de entrega. Porque tem gente que aceita nosso convite, aprende a coreografia, elogia o nosso cheiro e ri das piadas durante o refrão. Mas eles só doam aquilo que querem que a gente receba, e normalmente isso é pouco demais. Não raro, eles fogem do ritmo por vontade própria, e nunca, jamais, se desculpam por terem pisado em nosso pé. É que pra eles, só interessa a sua própria diversão. Por isso, não há motivos pra pensar a dois ou construir a dois. Quem tem ego ímpar nunca será um par. Além disso, entrega até a superfície não sacia um coração que vive a melodia a fundo. E nem adianta pedir pro teu par mergulhar mais um pouquinho na canção. Cedo ou tarde, ele estará com a coluna está doendo, irá ali pegar uma bebida, precisará ir ao banheiro… Qualquer desculpa tosca que lhe faça sentir melhor quando quiser soltar sua mão. E não se engane: ele não irá volta.

A boa notícia é que a vida é uma imensa pista de dança onde há espaço pra todos os passos que a gente inventar – inclusive o passo pra trás. Se a trilha sonora não está legal, dá pra mudar o disco. Se o cansaço falar mais alto, dá pra sentar e tirar os sapatos. Se a dança está machucando ao ponto de fazer o coração sangrar, dá pra pedir licença e dizer que a melodia acabou. E sempre – sempre – dá pra gente ir pra pista sem par e dançar até amanhecer. Algumas músicas foram feitas pra se dançar sozinho, afinal.

Todas as vezes que uma dança chega ao fim, a gente descobre que, apesar do cansaço, se houve entrega, valeu a pena. Por outro lado, a gente sempre se arrepende do tempo que perdeu tentando ouvir melodia onde só havia brincadeira com notas aleatórias. Sabe como é, a pista de dança é enorme, mas as melhores canções muitas vezes são curtas. Não vá desperdiçar a música certa com a pessoa errada.

Imagem: divulgação.

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