Quando eu mergulhei em você

mergulhEu estava descalça quando você chegou. Ainda lembro a música que tocava – era uma melodia doce orquestrada pelo mar com letra cantada pelo vento. Eu dançava na areia. Me desfiz dos chinelos pra não reconhecer as pegadas deixadas pra trás. Joguei fora o relógio pra não lembrar a hora de voltar. Era manhã de solstício de verão, e por isso eu tinha mais que um dia inteiro sob o sol. Eu tinha só a vida inteira. Era tanta luz preenchendo o precipício do meu peito, que por um momento esqueci o medo do escuro. Era um dia de solstício, e eu apenas ria sob o sol. Eu tinha só que dançar na areia.

Eu estava deserta quando você se aproximou. Sussurrou outra canção em meu ouvido. Eu devolvi um sorriso. De repente a dança já tinha par, e eu não sabia mais se o sopro a me inflamar vinha dum raio de sol ou dum riso seu. As horas ficaram mais longas, e a luz parecia nunca acabar. Quantos solstícios você me deu? Tua pele era alva como o sal, e em teu corpo eu repousei feito maresia. Naquele instante, o mar já sabia: você me entregou uma flor e me convidou pra um mergulho.

Sob o sol, eu congelei. Meu corpo ainda era campo minado de cicatrizes abertas por ondas violentas do passado. Te contei que eu não sabia nadar. Tentei ainda falar que o fundo do mar é escuro, e eu carrego um medo algoz de tudo aquilo que não consigo ver o fundo. Onde isso vai acabar? Não há que ter fim, eu ouvi. Você me afagou o cabelo. Me disse que eu sempre teria terra firme em teu peito. Que teu amor seria porto a qualquer momento em que eu precisasse me segurar. Então não foi preciso muito esforço: eu mergulhei em você.

Eu era tua quando o mar me tomou. De tão absorta, entrei de cabeça sem nem sentir o corpo molhar. De mãos dadas, descobri os tesouros escondidos no fundo do oceano. Por quantas milhas a gente viajou junto? Talvez nem tenhamos saído do lugar. Mas o mundo – ah, o mundo! – eu desejei te dar. Mar e terra, céu e ar – quis transformar em entrega tudo o que tivesse o tamanho do meu amor. E o mar – ah, o mar! – ele foi o melhor lar onde o meu querer já repousou.

Mas uma corrente fria atropelou o descanso, varreu pra longe o remanso e o caos deixou. Abri os olhos no meio do escuro em busca daquele pra sempre que um dia a gente plantou. Procurei pelo infinito que fizemos de lar. Mas, de repente, você não estava mais lá. Eu mergulhava sozinha. Ao meu lado ainda sacolejavam as conchinhas que você fez de souvenir. Mas o teu porto inseguro se deixou engolir. Sem a terra firme do teu peito, não encontrei meu chão. Por quantos dias eu me afoguei sem encontrar direção?

Eu estava nua quando você se foi. Completamente despida de norte, virada pelo avesso à própria sorte, sem nenhum pudor ou proteção. É que tudo o que eu já tive de valor foi entregue em tuas mãos. Água com sal foi só o que me restou. Não houve nem mesmo vergonha quando meu corpo inerte foi puxado de volta à superfície. Quando os olhos se acostumaram com a claridade, reconheci tua silhueta ao longe. Você estava lá, de pés firmes. Completamente seguro na praia.

Eu ainda me encontro aqui, no meio do mar. A tempestade oscila, mas minha alma está calma. Os pulmões doem cheios d’água, e em meu paladar mora o gosto de sal. Todas as manhãs, quando acordo, preciso de alguns minutos pra respirar bem fundo e não me deixar inundar.

Eu não te culpo pelo naufrágio. Já haviam me avisado pra não mergulhar fundo em planos rasos. Pra não entregar o mundo a braços esparsos. E que, para muitos, amor é só porto passageiro – quando o tempo fica nublado, poucos estão dispostos a ser âncora quando se pode simplesmente puxar o barco.

Eu não te culpo pelo cansaço. Meus músculos também estavam doloridos pelo nado. Em meu peito havia câimbra e choro engasgado. Mas é que eu fui transparente feito água nascente quando jurei que o meu lugar sempre seria ao teu lado. Quantas tempestade ainda caberiam em meus ombros, se você continuasse segurando a minha mão?

Lembro que, num dia de profundezas, eu te falei que esse era o amor mais bonito que já navegou por aqui. Foi sincero. Mas os dias na superfície me fizeram descobrir que a beleza do amor mora na reciprocidade. Reconsidero. Decerto ainda existem águas mais bonitas por vir.

Enquanto isso eu estou aqui, flutuando. Talvez as ondas me arremessem de volta à praia, talvez eu pegue carona em alguma canoa. Talvez, enquanto olhe o sol, eu veja que lidar com o vazio é realmente melhor do que conviver com metades. Quem nasceu com o dom da intensidade carrega a sina de transbordar. Vou te cuspir até a última gota aqui no mar. Quando descer na praia, meus pés já estarão descalços. O sol anda no meu encalço e de leve já incendeia. Não é manhã de solstício, tampouco verão. Mas olho pra frente: é hora de dançar na areia.

(A metáfora é do amigo querido Rone Eduardo, cujas palavras têm sido inspiração pra poesia e pra vida.)

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