Os cisnes de porcelana

cacosO vidro da superfície plana era escuro, porém translúcido, o suficiente para revelar os largos azulejos marrons estendidos abaixo. Em cima da mesa estreita, um grande abajur de postura majestosa destoava de um simples cinzeiro branco. Nadando no vidro escuro, erguiam-se ainda três cisnes de porcelana. Eram mais negros que a água, cobertos por uma camada de tinta brilhosa feito ametista. Os cisnes de porcelana eram alguns dos meus brinquedos preferidos da casa – mesmo contradizendo minha mãe, que insistia em lembrar que eles não eram brinquedos. Na sua ausência, eu tomava os três objetos cor de ametista em minhas mãos. O sofá virava uma floresta, a porcelana ganhava voz, os cisnes pulsavam vida. Juntos, vivíamos histórias eternas que tinham a duração de uma tarde inteira.

Um dia, eu não consegui posicionar as aves de volta em seus lugares antes de minha mãe chegar do trabalho. No meio da brincadeira, uma delas escorregou da minha mão e se partiu no chão. Cacos brancos de casca negra se espalharam pelos azulejos marrons da sala. Um nó apertado cortou minha garganta. A mão trêmula limpou a lágrima no canto do olho. Eu não tive coragem de enfrentar a situação – nem a dor entalada na minha garganta, nem a fúria que veria estampada nos olhos da minha mãe. Resolvi então embalar os cacos em um casaco de tricô, que estava jogado pelo sofá. Foi um funeral simples, porém com a desculpa perfeita que eu precisava para chorar mais um pouco. Depois, abandonei o embrulho de tricô e caco, ali mesmo sobre o assento, e vesti o melhor disfarce que consegui encontrar para fazer de conta que nada aconteceu.

Não sei se minha mãe olhou através do embrulho de tricô ou da minha máscara – ambos mal forjados demais. Poucos minutos após ter entrado pela sala, puxou o casaco de cima do sofá, e os cacos se espalharam novamente pelo chão. Em vez de fúria, ela me lançou um olhar diferente: piedade.

Eu gostaria de ter entendido naquele momento o que os seus olhos queriam me dizer: a vida também é feita de cacos. E a gente não precisa ser forte o tempo todo, porque coração também é vulnerável feito porcelana e, inevitavelmente, vai se quebrar vez ou outra. A gente erra mesmo, porque felicidade é escorregadia, e qualquer escolha mal calculada pode resultar numa perda sem volta. Pessoas intensas costumam pagar um preço mais caro por isso, pois nelas não sobra muito espaço para cálculos – tudo se resume a sentir. E, por mais que a gente queira muito, não é possível ajudar todas pessoas à nossa volta sempre – e viver a dor do outro é apenas um dos espinhos que o amor usa pra nos ferir. Eu queria ter compreendido desde cedo que criar disfarces para nos esconder de pessoas próximas pode até funcionar por um tempo. Mas, de tanto engolir as tempestades, uma hora vai bastar apenas uma gota d’água para as comportas do nosso peito cederem, e tudo aquilo que a gente tentava preservar se afogar em lágrima e virar lama. Porque não dá pra se manter escondido de si mesmo.

Às vezes, eu só gostaria que minha mãe me olhasse através dos disfarces no fim do dia, colocasse meus cacos no lugar e dissesse que vai ficar tudo bem. É que tantos outros cisnes de porcelana têm se partido em minha vida… E eu nunca consegui abandonar aquele casaco de tricô.

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