O que eu não posso dizer hoje, menina

Foto: Emilãine VieiraEu queria te dizer que o mundo é justo, menina. Que a lei do retorno está oficialmente em vigência, e nenhuma maldade ficará impune. Dizer que há uma garantia inabalável de que teu esforço vai ser recompensado. Que as sementes que tu andaste plantando não serão em vão, pois a gente realmente colhe tudo o que planta. Mas tu precisas conhecer os furacões, menina. Saber que às vezes eles destroem a plantação sem deixar nenhum norte e nenhum porquê. E só resta o vazio, o cansaço e a necessidade de recomeçar. Eu queria te assegurar que recomeços são fáceis. Mas hoje só tenho para ti essa câimbra no coração.

Eu queria te garantir que há ouvidos para tuas preces. E te fazer acreditar que, em silêncio, existe alguém tomando nota dos teus desejos e angústias mais ardentes. Que tu podes dispensar essa preocupação tola, pois tudo acabará bem. Mas hoje tu estás só, menina. Hoje, apenas as paredes sujas escutarão os teus soluços. Porque, na verdade, a única maneira de sarar uma ferida é vivendo a sua agonia. Todo o resto é cápsula de farinha para tentar trazer algum conforto passageiro. Mas não há mais escapatória. Hoje, é preciso duelar com os monstros que estão escondidos debaixo da cama. É preciso respirar o cheiro de ferrugem dos teus sonhos. É hora de sofrer as tuas perdas, menina. E ninguém mais pode fazer isso por ti. A dor é solitária.

Eu queria afirmar que o amor basta, menina. Que ele é rocha firme, e nunca será desgastado pelas ondas da convivência. Atestar que ele é exatamente o que contam nas poesias – colete de salva-vidas no meio da tempestade. Eu queria garantir que o amor nunca se afoga no orgulho. Que ele sabe nadar nos mais difíceis mares da diferença e nunca mergulha de cabeça em planos rasos demais. E que, independente das aventuras do alto mar, ele sempre vai acordar na praia. Eu queria te dizer que o amor sobrevive, menina. Mas hoje, eu só tenho para ti falta de ar e excesso de adeus.

Eu queria te contar que os cacos em que transformaram teu coração serão colados um a um em seu lugar. Que eles não vão mais te arrancar uma gota de sangue ou deixar cicatriz. E nunca mais teu peito voltará a doer. Eu queria gritar, menina, que nenhuma deslealdade vai te destruir outra vez. Que as pessoas são boas, e devolvem o amor que lhe damos unicamente com amor. Mas hoje todas as mentiras estão nuas, menina. E tu precisas encará-las por completo. Eu queria lembrar-te de que tu és forte, e capaz e inteira, grande demais para que qualquer abismo em teu coração ouse tentar te engolir. Mas hoje tu estás em pedaços, menina. E nem o teu travesseiro, nem minhas palavras bonitas vão varrer as tuas decepções.

Eu queria te dizer que a vida se dissolve na boca com facilidade. Que o sabor é doce e a consistência é leve. Te garantir que ela vai saciar todas as tuas fomes – do corpo, da mente e do peito. Que nada fica entalado na garganta e não há riscos de má digestão. Que, naturalmente, ela vai preencher teus vazios e nutrir tua força. E tu poderás se permitir um descanso sempre que a barriga estiver pesada demais para continuar. Mas não, menina. Hoje a vida tem gosto de náusea. Não tentes afastar o prato alegando fraqueza. É justamente para superá-la que tu deves mastigar porção por porção. Tu precisas sentí-la na essência: sem tempero, sem vapor. Hoje a vida está crua, menina. Engole.

Foto: Emilãine Vieira ( http://www.misturista.com.br/ )

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