O dia em que eu matei a metáfora

borboletas_pesE se um dia as borboletas que fazem cócegas em meu estômago resolverem voar em busca de outro abrigo? E não deixarem pra trás nenhum casulo. E se um dia as borboletas que moram sob a minha pele desbotarem até a morte? E o seu sentido silenciar junto com as cores. E se as borboletas dos meus contos se esconderem num canto e nunca mais conseguirem bater asas? E se voltarem a ser lagartas? E se um dia não houver mais dia pra gente decorar com tantos planos? E precisemos vestir negro em luto e velar cada um dos nossos “se”.

Desculpa o infortúnio, não é a intenção. É que noite passada eu sonhei que estava dormindo sossegada, quando o tempo passou feito tempestade e carregou os sonhos que jaziam na cama ao lado. Antes de ir embora, ele pareceu sussurrar que essa história de inseto virar pássaro é pura bobagem, pois gente grande tem que ter é coragem pra andar com os próprios pés. Tentei contar aos amigos, mas perdi a voz. Tentei o consolo do Seu Moço, mas não encontrei as rimas. Era como se em apenas um sopro a vida houvesse paralisado e só me restasse ficar ali, aguardando inerte o passar de mais um dia. O tempo passou frio e carregou todas as sementes de possibilidades, deixando apenas fatos congelados. E então era a janela que estava aberta e o vento ríspido havia arrastado o meu cobertor. Mas quando abri os olhos não estava em meu quarto, e sim numa gaiola. E eu não pude mais discernir o que era real e o que era o tempo ainda soprando em rajadas. E pra admitir, não sei se continua o sonho ou se já estou acordada.

Me traz uma bebida, por favor. Toda essa conversa me deixou engasgada. E chega daquela garrafa cheia de planos que faz os olhos brilharem a cada gole. Eu gosto, não vou negar. Mas lá pelo fim da noite eu já começo a acreditar que transformar asas em metáfora realmente vai me fazer levantar voo. Já posso sentir a ressaca só de imaginar – e, sabe, acho que estou ficando velha pra perder madrugadas vomitando sonhos. Por isso hoje eu vou querer algo diferente. Taí, me traz uma dose de sobriedade! Hoje eu to afim de encher a cara. Quero sair daqui falando coisas sem sentido, tropeçar pelos lances de degraus até o meu apartamento e chorar baixinho sem entender por quê. Totalmente sóbria. E não se engane, esse porre vai ser pra lembrar. Das contas. Da agenda. Dos medos. Da ferrugem consumindo os desejos. De tudo o que ficou pro amanhã, e do amanhã que não chega.  Lembrar o suor. Lembrar quem eu sou. Lembrar (que não há) pra onde vou. Traz mais uma dose, por favor!

E se eu não conseguir levantar ao fim da noite, apenas me deixa aqui conversando com a verdade. Ainda que ela falar uma língua estranha, ainda que eu suplicar por piedade. É que quando a consciência se nega a ponderar as escolhas, alguns mergulhos em sono profundo nos fazem dar de cara o real – cru e cruel. Noite passada eu sonhei com uma gaiola e acordei me perguntando se ela não é a própria vida. Eu tenho vivido numa história sobre cores e metamorfoses, e hoje acordei me perguntando se tudo não passa de um sonho. Me diz, onde está a realidade? Aliás, esquece essa besteira. Eu não preciso de respostas, apenas de um pouco mais de bebida. Me traz outra dose de sobriedade! Acho que já está fazendo efeito, minha vista começou a ficar embaçada. E se eu disser que olhei para o meu copo e vi uma borboleta afogada?

Foto: Iemai

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Uma Resposta

  1. Quase não consigo concluir a leitura. As lágrimas inundaram meus olhos.
    “Taí, me traz uma dose de sobriedade!”
    “Me traz outra dose de sobriedade! Acho que já está fazendo efeito, minha vista começou a ficar embaçada. E se eu disser que olhei para o meu copo e vi uma borboleta afogada?”
    Parabéns! Você, além de brincar com as palavras, mergulha nelas e expõe toda tua emoção. Beijos.

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