Iara

Reza a lenda que ela nasceu no fim de uma tarde de solstício de verão, quando os deuses ainda dançavam com suas túnicas claras e cabelos trançados com fitas de seda, abençoados pelo sol. Ela veio do mar. Pele salgada, cabeça de vento, olhos cor de céu e língua arenosa. Não é à toa que foi preciso um dia mais longo que o normal para que ficasse pronta. Do seu sorriso, costuma soprar uma maresia com aroma de hortelã. Nos seus olhos, desenhada como em lentes de contato, é possível ver a linha horizonte. Pelo seu corpo costuram-se pequenas pintas negras, como as gaivotas que percorrem o céu quando vistas ao longe.

Sua mãe é desconhecida, mas os antigos contam que ela veio ao mundo depois de uma das muitas noites de amor do mar. Talvez por isso o seu humor oscile feito a maré, e ela fique ainda mais bonita em noites de lua cheia. E assim como as ondas que vêm e vão, ela já foi a vários lugares e mudou seu destino toda vez em que se perdia do caminho das conchas. Já houve dias em que era um mulherão de salto alto que queria uma bebida quente, e dias em que o vermelho do seu batom se transformava numa cabeleira ruiva de onde só queria ouvir as canções mais bonitas, dentro de um pijama do seu tempo de menina. Já quis mudar o mundo, com sua saia longa esvoaçante e chinelo rasteiro; e já quis simplesmente pagar suas contas, segurando uma lágrima no percurso do ônibus, ao fim de um dia de trabalho. Mas eis o seu segredo: ela nunca deixou de querer. É essa a sua energia que lhe põe de pé depois de cada tempestade. Por vezes, ela insiste em carregar uma amargura que não combina com as suas canetas coloridas. Pois, a cada vez que sorri, é possível ver a luz de um sonho doce flamejando entre os seus dentes alvos. É aí que todo mundo sussurra no meio do silêncio: ela nasceu para brilhar.

Respirou fundo por um minuto. Aquilo tudo era real ou não passou da sua imaginação? Apalpou lentamente ao seu redor, para ter certeza se o macio gelado em que estava deitada eram os seus lençóis ou a água do mar. Sentindo-se mais segura, abriu os olhos e percebeu que dormira sobre um caderno velho e havia uma página escrita. Olhou ao redor: ainda eram os seus discos, livros e porta-retratos. Esse era o seu quarto e a sua vida, oras. Leu um pedaço da estória desenhada em sua caligrafia e sorriu. Ao fazê-lo, sentiu algo salgado em sua boca. Era o gosto do mar ou das palavras que acabara de ler? De repente, os olhos arregalaram-se em espanto. A filha adotiva de Seu Cláudio e Dona Anamara vislumbrou então a verdade. Aquilo não fora tão somente um sonho. Agora, ela sabia. Com um rasgo quente tomando-lhe o peito, Iara descobriu: era filha legítima do mar com a poesia.

 

Esse texto faz parte da série escrita exclusivamente para Esquinas. Vem agora  conhecer o Bento!

Imagem: reprodução.

 

 

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