Eu e os outros

Eu sou tão eu, que na grande maioria das vezes acabo esquecendo os outros. Minto: não os esqueço, apenas não me importo. Com essa amargura de quarentona solitária. Explico: tem outros que são parte de mim, e tem outros que são apenas os outros. E eu, que já carreguei todos comigo de uma forma tão minha, hoje não me surpreendo mais com as perdas.

Os outros que um dia foram meus, e agora não passam de outros, desprenderam-se de mim e escorregaram, ora de forma abrupta, ora de forma tão suave, que quase não me dei conta. Sei que eles ficaram pelo caminho. E então, eu andei com as minhas próprias pernas. E o que um dia foi dor, hoje é um cortês ‘bom dia’, e quem sabe uma conversa trivial sobre um assunto qualquer.

Esse meu jeito de ser eu nem sempre foi tão meu assim. Emprestado, aprendido, improvisado. Hoje tudo é assinado com a minha rubrica, eu me assumo prontamente porque me sinto por completo – como uma menina que ganha o seu primeiro sutiã. E se os outros que são tão somente outros tiveram o seu motivo para escorregar, sejamos francos, talvez eu também tenha tido para abrir mão. Agora que me sou, sei: não há juras de eternidade que um dia não possam ser quebradas. Ainda que por um momento isso soe tão profano.

E por ser eu de forma tão escancarada e repetitiva, não consigo mentir, fingir ou trapacear. E por isso mais uma vez revelo: não me surpreendo com as perdas, mas nunca perdi o medo de perder. Porque os outros que fazem parte de mim completam o meu eu, e só assim sou. E como de quarentona solitária não tenho nada, não me nego: vivo por amor. E a não ser se um dia a mudança for tamanha a ponto de alterar a pulsação deste coração, garanto que há aqueles outros que, na primeira ameaça de escorregar de mim, eu tentaria agarrar de volta, segurando até as pontas dos meus dedos.

E eu sou tão eu, que não sei responder outra coisa: sou amor e sou indiferença, a depender de quem perguntar. Pelo meu caminho vou preparada para os gozos e para as meias-palavras, separando aos poucos o que ainda é futuro e o que são lembranças desbotadas esquecidas em algum lugar no sótão. Porque amor pode ser eterno, já sobre as promessas, não me arrisco. Os outros podem ser outros de tantos jeitos, vai saber de mim, deles, da vida. Carrego as incertezas de tantos outros de outrora e tantos outros de agora. E o peso da bagagem não me deixa esquecer: se escorregar, não é amor.

 

 

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