Entre a rosa e a espada

E quando à noite me escapa o sono, mil pensamentos vêm a galope sobre minha mente embriagada. De elmos postos e espadas empunhadas, uma guerra travam entre si.

Acompanho a habilidade dos seus golpes, e vejo o sangue que escorre pelo chão. Não há lutas sem perdas, e é na perda que reside a dor.

Isso traz ao meu paladar o sabor que tem os tempos de paz. Todos sentados em torno de uma fogueira, cantando cantigas de grandes feitos heroicos. Em dias de festa, enfeitavam os cabelos com fitas, tomavam cálices de vinhos e oravam a Deusa. Transitava-se sossegadamente entre Consciência e Coração.

Mas eis que desperto do meu devaneio, e caio bruscamente no campo de batalha. A luta continua – cada qual buscando chegar ao posto de vencedor. (Deixará de ser então um mero pensamento?).

Ergo-me ao horizonte. Uma tímida luz revela-se ao longe. Seduz-me a tentação de decifrá-la. Será o brilho de uma fogueira chamando os guerreiros para um novo tempo de paz? Será o reflexo de uma espada em um conflito futuro? Será o brilho dos olhos de quem não mais sou capaz de afirmar a existência, mas que ainda assim olha por mim?
E a resposta para tal indagação jamais irei saber, assim como o último sobrevivente da desgastante guerra. Minhas pálpebras latejam, meu corpo cede ao cansaço. Adormeço em meio às brumas.

 

Texto originalmente publicado no site Revertério.

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