Do flautista

flautaAntes mesmo de chegar em casa, já posso escutá-lo. Enquanto me desvio apressada dos pedestres no fim de tarde, ele começa a se roçar em meus ouvidos. Não sei reconhecer as notas, mas noto que a melodia se assemelha a uma canção antiga que saía da caixa de som do meu pai nas manhãs de domingo. Ao virar a esquina, ele se materializa: trajes simples cobrindo a sua altura, pés entreabertos na faixa de pedestres, rosto decorado com tinta branca e nariz de palhaço. Seus dedos se movimentam com graciosidade, numa tentativa de trocar música por alguns trocados. Tento deixá-lo no portão, mas ele me persegue pelos calcanhares por todo o lance de escadas.

Dia desses, eu abriguei o flautista do sinal. Tive o cuidado de manter a porta bem trancada, mas ele escalou minha janela numa dessas noites quentes. Invadiu meus olhos e ouvidos. Parasitou meus pensamentos. Descansou em minha dúvida. Tentei evitar, mas o seu assovio me perseguiu por cada cômodo da casa, em um sopro que fez brotar o frio e arrepiar a alma. A cada vez que o seu dedo pousava na flauta, era como um toque que eu havia sentido. E então eu percebi há quanto tempo a vida caminhava sem fazer sentido. Havia pele sem esse toque. Havia som sem esse ritmo. Havia planos sem essa música de fundo. O coração batendo na mesma melodia, ansioso pelo desfecho. No fim, não soube reconhecer as notas, mas notei que havia lágrimas.

Dia desses, eu descobri que me pareço com o flautista do sinal. Faço do coração o meu instrumento, carregando-o pelas esquinas afora, indo em frente quando o sinal manda parar. E quando o seu peso traz dor e desconforto, eu toco os dedos nos pequenos buracos escavados em sua superfície, e dali faço nascer poesia. O flautista toca uma música no meio da rua, eu desenho algumas palavras no meio do dia – porque ambos sabemos que sempre há alguma beleza escondida no vazio. Basta um sopro pra mandar a alma passear em liberdade, e evitar que alguns sentimentos nos levem à loucura em seu cárcere. E quando chegar o silêncio, flauta e coração conhecerão o segredo de se tecer ternura com a dor.

Honestamente, a cada novo dia em que escuto o flautista, penso de uma forma diferente sobre o significado de ser maestro de si mesmo. A gente constantemente vê quem nos ouve, mas dificilmente sabe quem nos escuta. Escolhemos em qual esquina vamos arriscar colocar um nariz de palhaço, mas nunca teremos certeza sobre quem realmente levará aquilo a sério. Podemos selecionar o repertório, mas é preciso ter rigor em cada nota. É que na maioria do tempo a gente não nota, mas na música e no amor, liberdade é pura abstração. A gente pensa que mantém seguros as partituras e os destinos, porque leva certo tempo pra entender que não basta a nossa vontade pra eles nos levarem onde a gente quer. É que somos feitos pra outros ouvidos. Pra outros corações. E eles constantemente ouvem e falam por si só. Muitas vezes, não sabem interpretar a canção. Ou cuidar o sentimento. E então quando a dor de se doar é muito grande, pensamos por uma fração de segundo como seria abrir a mão que segura a flauta. Fechar a mão que entrega o amor…

Mas, espera um pouco! Está tocando a nossa música outra vez.

                                                                                                                                                                   Imagem: reprodução.

Leia também:
Do malabares

Comments

comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *