Diálogos com Seu Moço XIII

Seu Moço, onde a gente perdeu a fé na vida? Foi no tropeço naquela alma caída? No recomeço com esperança esvaída? Ou no preço por carregar tanta ferida? Estou tonta, acho que é a bebida. Apaga a tinta das palavras que rabisquei sobre a mesa e esse cansaço a latejar na minha cabeça. E não esqueça: minha teia de palavras já não tem sentido, mas foi sentida. Lá fora as ruas estão vazias e aqui dentro meu copo continua cheio. Mas, volta aqui! Me traz mais uma dose de epifania e esvazia essa garrafa ao meio. Tanto rodeio só pra lhe perguntar se ainda há chance de voltar a acreditar – que há beleza na morte, que quem tem vida tem sorte, que não importa se faltar norte desde que continuemos a caminhar. Que o tempo é nosso aliado e não nosso fardo. Que a bondade foi corrompida mas ainda respira. Que a fé no que vier está somente dormente. Não mente: eu sei que minha voz está embolando, mas o senhor pode me escutar além do que sou capaz de dizer. (Sei também que já deveria ter ido embora há uma hora, junto com o último cliente). Ainda assim, vou virar um gole no gargalo, pegar outro guardanapo e continuar a escrever. Não me leve a mal, não me sobra escolha. Eu fui feita de poesia, Seu Moço. E só o senhor sabe me ler.

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