Diálogos com Seu Moço VII

Acordei de ressaca. Boca seca de amores engolidos a esmo. Roupa abarrotada depois de passos em tropeço. Trapaça repassada em frente ao espelho. Ah, sim, paguei o preço. O trocado sujo pendendo do bolso, as olheiras escuras trazidas no rosto e um hálito estranho se roçando no pescoço.

Seu Moço, acordei me perguntando por que a vida é essa reunião de sucatas e sucessão de ressacas. Pedaços de sonhos enferrujados espalhados pelo chão. Abraços a doses de euforia escorridas pelos dedos da mão. Pés bambeiam em lugar nenhum, coração se machuca em jejum e a cabeça lateja.

Veja: o nosso intento é um infortúnio. Por que destinos e bebidas sempre fogem ao nosso intuito? A gente se embriaga de planos e poemas e, no fim, nenhum sorriso é gratuito. Eu só pretendia colocar para fora o desejo que me preenche o peito e engolir uma garrafa cheia de mundo. É pedir muito?

Eu queria só por uma vez pagar a conta e chegar em casa com a certeza de que a felicidade realmente exige pouco. Mas se tiver somente moedas de dor, Seu Moço, dessa vez não precisa trazer o troco.

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