Dessa vez

dessa vez3Você não voltou, como das outras vezes. Atirei todas aquelas palavras duras feito pedras e encarei ousada  os seus olhos de vidro estilhaçado. Alguns cacos rebateram direto em meu peito, mas contive a dor e aguardei a porta se fechar para chorar silenciosa. Prendi a respiração até o som dos seus passos virar a esquina. Então foi só eu e o vazio.

Eu te esperei, como das outras vezes. Mesmo sem saber ao certo se ainda queria me prender em teu abraço e me sufocar em teu perfume. Mas eu te esperei, porque você sempre vinha. Chequei meu e-mail várias vezes ao dia, tive arrepios sempre que o celular vibrava e sofri leves embrulhos no estômago ao soar da campainha. Não foi você. Hora nenhuma. Dia nenhum.

Por onde você andou que não veio me falar da sua mágoa? Contar com pequenos erros de concordância o quanto a minha injustiça te enfureceu? Que os seus planos eram outros? Você deveria ter entrado pela porta dos fundos enquanto eu fingia ler um livro qualquer, a mochila colocada lentamente no chão para não atrapalhar os sentidos ligados na minha reação. Eu fecharia o livro, e só então me daria conta de que era o mesmo Carlos Drummond da outra vez. Será que você teria notado? Mas já te vejo sentado na cama, bem na beirada, quase em uma ameaça de partir novamente a qualquer momento – provavelmente já teria se dado conta de que o porta-retrato com a nossa foto não estava mais no criado-mudo. E então a gente começaria uma guerra de palavras e vozes e gestos e ironias. Você gritaria e eu te mandaria falar baixo. Eu soluçaria e você diria para cessar o choro. A discussão só seria interrompida quando finalmente chegasse o silêncio constrangedor da descoberta do quão ridícula era aquela situação. Então seus gritos já eram apenas um sussurro, quase uma respiração. Do meu choro só restou a face vermelha. Era o momento em que eu te olhava desconfiada, e você me entregava com doçura aquele sorriso tímido no canto dos lábios. Eu já conhecia esse ritual: era um chamado irrecusável para eu me atirar em seus braços.

Por onde você andou que não veio me fazer acreditar com um simples abraço que poderia dar certo? Que tudo perdia o sentido quando estávamos separados? Eu já sabia exatamente a combinação de palavras que você usaria entre um beijo e um afago. Antes de dormir, costumava ouvi-las em meio ao silêncio da escuridão, e nunca soube ao certo se eram pronunciadas por minha memória ou meu desejo. Elas diriam que eu sou boba e orgulhosa e impiedosa e cabeça-dura – mas que você me ama mesmo assim. Descreveria a fúria com a qual percorreu ruas aleatórias ao fim da nossa última conversa – mas que não consegue sentir raiva de mim por muito tempo. Que esteve perturbado e não fez nada direito por esses dias. Sua louça estava suja, a cama por fazer e pedira no trabalho as folgas pendentes que estávamos planejando usar para a nossa viagem ao litoral. Me aconchegaria em cima do seu corpo, uma mão atravessada em minha cintura e a outra trançando cafunés tortos em meus cabelos negros. Me chamaria de sua pequena, beijaria minha pele morena e diria o quanto teve saudade.

Por onde você andou que não veio ouvir minhas confissões mais secretas? Receber a certeza da minha lealdade? Você sabe que eu te narraria com olhos envergonhados todas vezes em que busquei os teus sinais. Usaria uma expressão dura para dizer que dessa vez eu estive certa de que não haveria volta, ignorando o seu olhar risonho de quem não acredita no que ouve. E que, mesmo me desfazendo das cartas e fotografias, eu assumia derrotada que meu coração não aprendera a te dar um não. Era só você sorrir torto no canto dos lábios para a desconfiança sumir do meu olhar. E então eu te contaria dos novos planos para os estudos, que saí para beber com as amigas e as vezes em que meus olhos a contragosto encheram-se de lágrimas dentro do metrô, ao voltar do trabalho. Diria tudo isso com os olhos bem fechados, para saborear por inteiro o doce vaivém do seu cafuné. Quando o meu corpo ficasse completamente sobre o seu, eu pensaria mais uma vez se era possível que eles não tivessem sido desenhados um para o outro. Embaraçaria minhas pernas nas suas e brincaríamos de fazer cócegas com os dedos dos pés. Após um curto silêncio, eu tomaria coragem de revelar que em algumas madrugadas o meu abraço te procurou, me fazendo acordar desnorteada ao encontrar o vazio do outro lado da cama. E então era só eu e o nascer-do-sol.

Por onde você andou que não veio me ouvir dizer que daria outra chance? Mesmo com toda a sua relutância em dizer que não houve erros, apenas mal entendidos. E me culpar por grande parte deles. E dizer que sentiu falta até dessas minhas pirraças. Aliás, a essa altura as palavras já deveriam ter cessado. Agora, era só o calor da tua pele inflamando os meus sentidos – teus sussurros em meu ouvido, meu hálito em teu pescoço. E era apenas com o cheiro da mistura do nosso suor que construíamos aquela casa com quintal grande onde criaríamos nossos filhos. Era apenas na exatidão desses minutos onde só o amor falava, e dizia coisas que talvez não confiássemos em juízo natural. Não importava mais se eu queria fazer mestrado no exterior, e você, abrir um negócio próprio em sua cidade natal. Não importava se eu me enfurecia com a sua insistência em ver filmes dublados e o creme dental sempre aberto. Se você reclamava da minha roupa justa ou de quando não te escutava por estar em frente ao computador. Não havia diferenças, não havia empecilhos, o mundo todo era o meu corpo sobre o teu unidos pela certeza de que apenas aquilo bastava. Nós dois misturados como uma coisa só, inconscientes pelo rápido prazer do eterno. Era só ali que qualquer plano se tornava possível. Dessa vez, sim.

Mas dessa vez você não veio. Os e-mails que chegaram foram de promoções de hotéis pelas quais nunca me interessei, alguns amigos fizeram o celular tocar, e a campainha soou pelo carteiro, pelo entregador de pizza, pela faxineira e por engano. Você não veio e meu coração não precisou te dar um não – e nem ser derrotado pelo convite dos teus abraços. Em que lugar dos teus lábios se perdeu aquele riso torto que deveria ser meu? Você não veio e aos poucos a espera perdeu o sentido. Saí para beber em muitos outros dias, passei a conversar com algumas pessoas no percurso do metrô, terminei de ler aquele livro do Drummond e levei a sério o projeto do mestrado.   Finalmente, rasguei a nossa fotografia – na verdade, ela sempre esteve apenas escondida no fundo da gaveta. Juro que não fiz isso com ódio. Não houve mágoa ao ver o meu sorriso se separar do teu e voar sozinho num pedaço de papel rasgado. Nem rancor. Talvez, nem mesmo saudade. E se eu tiver direito a um último pedido, não será para me deitar novamente sobre o teu corpo. Nem para saborear o teu cafuné. Talvez, nem mesmo para sentir uma última vez os teus lábios brincando com os meus, como crianças que se conhecem desde que chegaram ao mundo. Se eu tiver direito a um último pedido, desses que a gente dá por clemência aos que estão partindo, quero apenas a peça final desse quebra-cabeça para poder guardá-lo inteiro em meu baú de memórias. Então, peço apenas que, por favor, me diga:

Por onde você andou que não veio dessa vez?

 

 

 

 

Comments

comments

1 Comentário

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *