Depois que ela foi embora

emboraDepois que ela foi embora, soube que a primeira sensação que preencheu o teu peito foi alívio. Finalmente, chegava ao fim aquela guerra cansativa de vozes alteradas e lágrimas, tirando um peso dos teus ombros. Mas você não é esse cara de todo frio, eu sei. Conservou por algum tempo o hábito de olhar para a tela do celular toda noite, à espera da sua ligação. E quando se lembrava de que ele não tocaria, você se permitiu algumas lembranças da vida a dois. A foto dela também permaneceu por muito tempo em tua carteira, ouvi falar. Mas te conheço o bastante pra saber que foi apenas uma obra da tua memória falha, e não desejo de colecionar recordações.

Depois que ela foi embora, você teceu várias desculpas clichês sempre que algum desavisado tocava em seu nome. Falou em diferenças de personalidades e distância entre os planos. Contou tantas vezes como ela era temperamental e possessiva, que por alguns momentos realmente acreditou que foram esses adjetivos os autores do fim. Mas ninguém, além dela, ouviu você narrar tantas vezes com olhos apaixonados o quanto amava as suas pequenas manias, e como os seus defeitos eram pequenos perante o desejo. Ninguém mais ouviu a tua promessa de eternidade. E, quando o esforço de se modelar aos teus caprichos doeu demais, apenas ela sentiu a tua frieza quando deixou claro que não cederia, nem por uma vez. Ela te pediu tão pouco, cara. Mas você não deu – nem um terreno maior no teu peito, nem mesmo a explicação que ela merecia. Ninguém, jamais, te ouviria confessar que foi você quem abriu mão.

Depois que ela foi embora, você não olhou pra trás por um minuto sequer. A sensação do vento de liberdade se aninhando em teus poros exigiu toda a concentração. Além disso, não havia tempo a perder. Dizem que você mal desligou o telefone para embarcar na primeira balada. Começou a beber muito mais do que o normal, é bem verdade, e entregou-se aos prazeres que o teu moralismo sempre condenou. Não houve discrição nem mesmo com as aventuras amorosas – ela ouviu sobre cada uma delas, cara. Mas a leveza dos planos com teus amigos foi mais confortável. E, afinal, ela já não era mais problema teu.

Não sei ao certo quando tempo demorou para que o alívio se tornasse vazio. Talvez tenha sido no meio da troca do mesmo repertório de palavras com a quinta ou sexta garota. Quem sabe ainda logo na primeira vez em que teu olfato mergulhou em outro cheiro, e tuas mãos se viram tateando um calor diferente da temperatura habitual. Ou, quem sabe ainda, numa noite fria de uma terça-feira qualquer, quando você imaginou o corpo dela debaixo do cobertor. A saudade comprimiu teu peito, eu sei. Foi uma saudade distinta de qualquer outra, dessas que vagam sem horizonte. O desejo ardeu feito fogueira alta, porque entre vocês nunca houve espaço para faíscas. Você então descobriu que ainda lembrava de cor os caminhos do corpo dela, desde as curvas que te deixavam faminto aos sinais de vacina herdados da infância. E que bastava fechar os olhos por alguns segundos para ouvir nitidamente o timbre do seu riso.

Eu te avisei pra não deixar ela ir embora, cara. Porque ela é dessas que, quando decide partir, não olha pra trás. Não adiantou deixar vestígios teus por onde ela passou, na tentativa de entregá-la uma coleção de recordações sobre vocês. Nem tentar atraí-la de volta com uma conversa boba em tom de quem não quer nada. Sim, o trabalho vai bem, obrigada. Sim, ela está estudando. Sim, cerveja continua sendo um item indispensável na sua lista de compras. Ela continua sendo exatamente aquilo que você abandonou. E por conhecê-la tão bem, você já deveria saber que ela nunca deixaria de ser tua mulher para se tornar tua brincadeira de noites frias. Não, ela não é do tipo que aceita esmolas de amor, e já havia algum tempo que andava engasgada com o pouco que você se doava. Ela gosta de sentimentos inteiros. Ela é uma mulher inteira, cara. Na profissão, na família, na cama, nos planos pro futuro. E ela era inteiramente tua. Até você deixar ela ir embora.

Depois que ela foi embora, ouvi dizer que chorou um pouquinho antes de partir, escondeu mais um tanto de dor na bagagem, mas não estancou nem por um momento. Vamos lá, você sabe que não merecia nem mesmo um tropeço desajeitado. Hoje, dizem que ela ainda fica estupidamente linda quando pinta os lábios de vermelho, mas a sedução exala mesmo é dos seus olhos vidrados, quando fala sobre mitologia grega. Contam também que ela saboreou outras camas, comprou novos livros e continua cantando letras erradas entre os afazeres de casa.

Partidas são sempre difíceis. Principalmente para quem é obrigado a dar um passo para frente quando o coração pede pra ficar. Mas, para ela, até mesmo a dor tem que ser vivida por completo. Somente depois disso a ferida fica pronta pra virar cicatriz. Ouvi dizer que, quando ela olha para a cicatriz que você deixou, deseja lá no fundo que você um dia venha a descobrir verdadeiramente o significado do amor. Pode ser no meio das páginas daquele livro de ficção estrangeira que ela já teve a intenção de te presentar. Pode ser no meio do sorriso de outra garota. Mas que seja amor, cara. Porque amor de verdade não suporta partidas. Amor abraça e sempre pede um pouco mais, porque conhece o vazio que a vida fica sozinha. Falta de amor não alivia, entristece. Amor entorpece. Não abre mão, abre passagem pelo amanhã afora. Amor segura, sobrevive, cura. E nunca deixa ir embora.

 

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Imagem: divulgação

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