Cortes e curas

Lembro com precisa exatidão das últimas vezes em que fui ao salão cortar o cabelo. Ombros rígidos, mãos frias e quatro palavras que movimentavam meus lábios com insistência: só três dedinhos, moça.  Olhos que tentavam ver por entre as mexas jogadas para frente e teimavam em querer acompanhar movimentos que o pescoço não podia fazer. Só três dedinhos, moça. Três dedinhos. Era uma súplica, um cilício encravado em silêncio. Era uma oração: só três dedinhos. Três. Por favor, moça.

Em certa ocasião, os três dedinhos viraram uma infinidade de cabelo caindo no meu colo. Quando fecho os olhos ainda posso recordar a náusea de me ver novamente vestida com aquela capa, de uma brancura propositalmente alva para contrastar com minhas madeixas negras. Eu vi aquele branco ser tomado por cada fio, como um campo de neve engolido pelas trevas dos livros de ficção que li durante a infância. Ao final, olhei para o espelho e encarei com olhos lacrimejados aquela pessoa estranha. Tive raiva… de mim, da tesoura, da moça, das pontas que insistem em se duplicar. Tive raiva da vida que por vezes nos obriga a cometer pequenos suicídios.

Alguns meses se passaram até que eu me desse conta de que meu cabelo já havia voltado ao comprimento antigo. E eu, descrente por natureza, me vi descobrindo que não há pequenas mortes das quais não possamos ressuscitar. As flores que o cachorro destruiu brincando no jardim cresceram de novo. O dente de leite caiu e nasceu um mais forte em seu lugar. Lembro-me da colega que pensei ser minha melhor amiga, mas depois que mudou de cidade nunca mais fez contato. Do namoradinho do colegial que eu acreditava ser o meu grande amor, mas que nunca lia minhas poesias rabiscadas no fundo do caderno de 12 matérias. E já pensou se eu nunca tivesse pedido demissão daquele emprego quando apareceu uma nova oportunidade?

É mais certo que dois e dois são quatro: a gente precisa mesmo mudar. Os planos, o penteado e o endereço. Cortar aquilo que está apodrecendo e deixar renascer o que pulsa. Que contestem os matemáticos, mas não vejo ciência mais exata do que esta: há poucas perdas na vida das quais não conseguimos regenerar. Quando a ferida abre, o nosso corpo obriga o tecido a se recompor. Não é preciso nem mesmo a gente querer: a própria natureza trabalha silenciosa para tudo ficar bem.

Pra ser bem sincera, não me considero otimista. Odeio autoajuda barata, não me fio em crenças e não confio em destinos. Mas há uma verdade que carrego acesa como uma vela que se recusa a apagar: a vida é boa e sempre guarda o melhor. É preciso apenas ceder espaço. Por isso, aprendi a ter menos medo de tesoura e mais paladar para saborear o frio na barriga que vem de tudo o que é novo e desafia.  Provações são necessárias. E, quando pensamos que o tempo está se fechando para uma nova tempestade, somos surpreendidos com chuva de sorrisos.

A vida às vezes nos encara na forma de uma moça com uma tesoura na mão. A gente teme e chora pelo que nos é tirado. Mas, por mais que demore, no final percebemos que algo dentro de nós ficou mais bonito e saudável. Porque há cortes que são mesmo necessários. E ainda que possamos achar que eles vêm para ferir – acredite – uma hora descobrimos que sua missão é curar.

 

 

Comments

comments

3 respostas

  1. Que bom! Encontrei seus textos novamente… andava procurando desde o ‘antigo revertério’.

    Parabéns pelo blog, já está salvo nos meus favoritos!

  2. Olha, você escreve muito e muito não é suficiente pra o que eu quis dizer. Sou fascinado por essas análises das coisas casuais, retirando delas os aprendizados necessários. Encontrei mais uma míope por aqui.

    Ótimo texto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *