O colecionador de sonhos

semente– Ferrugem – disse sem pestanejar.

Demorei-me ainda alguns segundos naqueles olhos verdes feito a paisagem dos arredores da vila durante a primavera. Eles ganhavam vida ao contrastar com a pele castanha, lembrando-me as folhas coloridas caídas no campo arado, quando os primeiros raios de sol do dia vinham denunciar sua presença e despertar os resmungos do meu pai. Ela era mato e era terra, quiçá toda a natureza, e por um momento eu senti até que poderia chamá-la de mãe, não fossem seus treze anos recém completados e o meu coração dançando num ritmo longe de algo maternal.

– O quê? – perguntei, enfim, desnorteado.

– Ferrugem – repetiu. – Eu conheço.

Caminhou com pés descalços à minha volta, e eu senti o incômodo dos seus olhos mirando a minha nuca. Por fim, apareceu novamente à minha frente, com seus trajes sujos de brincadeira e roupa lavada à beira do rio. Ela não tinha noção do quanto era bonita. Ou talvez nem fosse, mas ali, naquele lugar isolado do mundo, ela era a coisa mais bonita que eu já vira. Por um minuto, perguntei-me se tudo aquilo não passava de uma desculpa indecente forjada meu pelo inconsciente, só para ter o prazer de estar em sua presença.

– Já falei: é febre. Sinto-me indisposto demais para ir fazer os trabalhos com o meu pai, e ele está irado. Minha mãe anda me empurrando uma porção de ervas horrível. Não aguento mais. Podes me ajudar?

– Já falei, é ferrugem – insistiu. – Eu conheço.

– Prego enferrujado? Não senti dor alguma…

– Não, seu tolo. Está nos teus olhos a ferrugem. Posso ver.

– Nos meus olhos? – ergui as mãos e comecei a esfregá-los em desespero.

– Não adianta. Isso é coisa que vem de dentro – explicou. – É sonho enferrujado. Eu conheço.

Demorei-me algum tempo tentando traçar algum sentido naquelas palavras, até que me dei por vencido. O vento bagunçava o seu cabelo ondulado, com fios clareados pelo sol, e essa visão dificultava ainda mais a minha compreensão.

– Não sabes que os sonhos também enferrujam? – insistiu, com ar de desdém.

Não, eu não sabia. Como também não sabia o que aquela menina de roupa abarrotada e unhas sujas conhecia sobre sonhos. E eu, afinal, o que conhecia? Pra falar a verdade, nunca houve muito tempo para pensar sobre isso.

– Já ouvi falar a respeito certa vez – cuspi, sem querer parecer estúpido em sua frente.

– Ouviu, é? – ela havia percebido o vacilo da insegurança em minha voz. – Não sejas tolo.

Calei-me. O vento soprou mais uma vez e assanhou as árvores ao redor da clareira onde estávamos. Ela sentou-se em uma raiz torcida e enfiou a mão dentro da gola desbotada do seu vestido. Quando tirou, revelou um apetrecho estranho em volta de seu pescoço. Enquanto tentava desemaranhar a parte que ficara atarracada ao tecido da roupa, notei que se tratava de um cordão atravessado por pequenos objetos, que sacudiam por sua extensão.

– Sabes o que é isto?

Sacudi a cabeça em negativa.

Com um gesto habilidoso, desatou o cordão e fez um sinal para que me aproximasse. Sentei-me ao seu lado, e ela o estendeu para que eu visse de perto. Então reconheci uma semente de girassol, outra de pinhão, e mais outra de cabreúva. E havia ainda outras, que por um momento não consegui distinguir. Podiam ser de barbatimão ou casca d’anta, talvez. Muitos formatos e tamanhos e cores, todas elas unidas por um orifício central por onde passava o cordão, deixando-as chacoalhar.

– É um colecionador de sonhos – explicou, enfim.

– Ah, é? Não me parece bem sonhos o que tu andas colecionando – retruquei zombeteiro.

– És um tolo mesmo – adjetivou-me pela terceira vez. – Cada semente dessa representa um sonho diferente. Mantenho-as junto de mim o dia inteiro, todos os dias, pra que eu não possa jamais esquecê-los. Seja enquanto trabalho, na escola, em casa ou no campo. Em qualquer ação que eu faça, posso escutá-los e sentir os seus movimentos perto do meu peito. Eu escuto meus sonhos todos os dias, para jamais poder ignorá-los. Converso com eles vez ou outra, e peço para terem calma e esperarem por mim. Um dia, hei de plantar todas essas sementes. E então, meus sonhos serão verdade, e me darão flores e frutos.

Continuei calado, consumido por um nó se formando lentamente na minha garganta. Estaria certa aquela pobre menina, ou seria ela a grande tola da história? Ela me interrompeu:

– Teus sonhos estão enferrujados porque deixaste de acreditar neles. A cor da ferrugem já chegou até à tua retina. Aposto que tuas lágrimas também cairão encardidas, se ainda conseguires derramá-las. E sonho enferrujado é uma enfermidade terrível! Devasta  o corpo, e se não cuidar, logo começa a destruir a alma – suspirou. – Olha só para tudo ao nosso redor: o céu, as árvores, os vales, o campo, os homens… Acreditas mesmo que não podemos ir tão longe o quanto quisermos?

Eu não respondi. Abaixei a cabeça por entre as pernas para esconder uma lágrima torta. Eu não lembrava mais quais eram os meus sonhos – aliás, agora que falava nisso, eu percebia que não sabia sequer se havia realmente sonhado algum dia na vida. Em um instante, invejei a menina magricela e forte sentada ao meu lado. Logo depois, amei-a com toda a intensidade que jamais conhecera antes – ninguém teria feito por mim o que ela acabara de fazer.

Então percebi que ela estava desatando uma fita que pendia meio descosturada do seu vestido. Sem uma palavra, atou-a em volta do meu pescoço.

– Começa também a colecionar os teus sonhos.

Algo aflorou dentro de mim, e eu não sabia se vinha da força das suas palavras ou do toque de sua mão em minha nuca. Mas eu só pude me preocupar em esconder minhas lágrimas, para ela não perceber que estavam realmente sujas de ferrugem. Mas, naquele momento, eu sabia: ela me fizera acreditar. Em mim, nela, nos sonhos, na vida? Não sabia, apenas acreditava.

Ela levantou-se silenciosa e começou a traçar o caminho de volta. Eu continuei ali, sentado, sentindo o novo contato da fita em torno do meu pescoço. Olhei na direção da raiz onde ela estivera sentada e notei uma pequena semente caída na terra. Será que ela havia deixado ali de propósito? Não importava. Guardei-a na palma na minha mão e apertei com força – aquele era o meu primeiro sonho.

Ela, que me fizera voltar a ter esperanças, seria justamente quem habitaria a minha primeira semente. E entre sonhos e amores, haveria diferença? Tampouco importava.  Agora, eu tinha a sensação estranha de que, assim como a pequena semente, também o mundo inteiro e desconhecido poderia caber na minha mão. Agora, eu estava me despindo de toda a ferrugem que me endurecera até então. E ali, carregando a leveza de uma semente e o peso de um amor, no meio do mato e da terra, nascia um sonhador.

Imagem: reprodução.

 

 

 

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