As normalidades de Ana

ateismoAna é o tipo de garota que adora sapatilhas de pano, Led Zeppelin e comida mexicana. Nunca conseguiu ter sucesso com tutoriais de automaquiagem na internet, mas não pode dispensar um bom corretivo de olheiras no dia a dia. Ana é estudante de engenharia, estagiária, aluna de espanhol, amante de boxe, dona de casa e professora de reforço de física aos sábados. Ela é filha, irmã, neta, namorada e amiga. No tempo vago, sonha em ser grande, em ver seu nome assinando uma carreira de sucesso, em viajar o mundo, em construir uma família, em ter uma estante onde caibam todos os livros que deseja ter, de Drummond a Bukowski. Mas, antes de tudo, ela sonha que o ônibus esteja vazio para que possa se sentar durante o trajeto de volta para casa, toda noite.

Com um nome simples e uma vida comum, Ana é muito parecida com muita gente, afinal. Mas nesse turbilhão de deveres e planos, há um pequeno detalhe que quase passou despercebido: Ana não tem religião.

– Não tem religião? Mas acredita em Deus pelo menos, né? – adiantou-se seu colega de trabalho.

Na verdade há um detalhe do pequeno detalhe: não, Ana não acredita em Deus.

– Não acredita em Deus? Mas é uma menina tão boa… – indignou-se sua avó.
– Com tanta inteligência e não crê em Deus? – argumentou o tio.
– Bonita demais, pena que é ateia… – lamentou-se o cara na mesa ao lado no boteco.
– Culpa daquele livro, “O Código da Vinci”! Falei pra não ler… – apontou a mãe.
– Foi o professor de História que falava mal da Igreja na escola e virou a cabeça dela – discordou a irmã.
– Acabei de achar o seu pior defeito… Minha família não pode saber disso – pediu o namorado.
– Como é que pode não ter Deus no coração? Isso é coisa de bandido – lembrou o amigo da faculdade.
– É uma “à toa” mesmo! – zoou o colega de espanhol.
– Quero ver se, quando der de cara com a morte, não vai chamar por Deus – desdenhou um leitor deste texto.

De repente, Ana, aquela garota de vida comum, virou alvo de diagnósticos, olhares tortos e decepções. Todos queriam encontrar um fato para culpar a descrença da moça, uma explicação para sua anomalia. Uns diziam que ela só queria causar polêmica, outros garantiam que era apenas uma fase e logo ela iria encontrar Deus em seu coração, e havia ainda quem nunca deixava de orar pela sua salvação. Ao mesmo tempo, também evitavam tocar no assunto porque – por mais que não admitissem em voz alta – todos também sentiam um pouco de vergonha dela.

Mas, Ana, aquela garota de nome simples, aprendeu a se esquivar das pequenas pedras de preconceito que atiravam nela todos os dias. Ela sabia que, por mais que se tentasse argumentar e contra-argumentar sobre a existência divina, crença não cabe em linhas racionais – ela pertence unicamente ao território da fé. E a verdadeira fé não se impõe, apenas se sente (ou não). Mais que isso: acreditar em Deus não é o que realmente faz as pessoas serem boas e fazerem o melhor. Mas caráter, integridade, amor e respeito – essas sim são as divindades que toda pessoa deve cultuar diariamente.

Há muitas Anas espalhadas por aí. Há muito de Ana dentro de mim. Gente que recebe todo o tipo de julgamento pejorativo simplesmente porque não encontra em si um lugar para acolher uma representação divina. Gente que é vista como diferente, como inferior e – não raro – como “do mal”. Ateus já chegaram a ser apontados como o grupo de pessoas mais odiadas no Brasil, ficando à frente de usuários de drogas e garotos de programa. É quando eu me pergunto: o que adianta venerar um Deus, se ele vai lhe levar à margem oposta do amor ao próximo? E então, me pego descobrindo que o problema não está no ateu, no agnóstico, no cristão, no budista, no muçulmano ou no umbandista. O problema está na ignorância e intolerância, nessa mania detestável de achar que o nosso caminho é o único. Porque no fim das contas, a despeito das pequenas diferenças, somos todos feitos da mesma matéria: razão, coração, livre-arbítrio. Todos temos a capacidade de fazer o bem ou o mal, ser íntegro ou desonesto, optar pelas mãos dadas ou pelo ódio. Não é a nossa crença que define ou responde pelo que somos; as nossas escolhas, sim.

Sobre Ana? Bom, depois de um tempo, dizem que não se sabe ao certo se ela foi se acostumando com os olhares exclamativos, ou se as pessoas foram se acomodando à anormalidade da garota. Pode demorar, mas um dia quem sabe elas entendam que ateísmo não é escolha, a roupa que você vai usar para trabalhar amanhã é. Ateísmo não é defeito, egoísmo é. Ateísmo não é motivo para culpa, magoar outra pessoa gratuitamente é. Ateísmo não é algo que precisa ser tratado, câncer é. Ateísmo não é errado, abusar de uma criança é. Ateísmo não é razão para vergonha, ser um cidadão corrupto é. Ateísmo não é feio, estacionar o carro em vaga de deficiente é.

Ana sabia de tudo isso, e optou por não se deixar abater. Continuou acompanhando a avó na fisioterapia, tentando conciliar o divórcio dos pais e até mesmo deu umas aulas gratuitas ao tio, quando ele decidiu que não era tarde pra começar a faculdade. Falava horas no telefone com a irmã sempre que ela brigava com o marido e finalmente convenceu o namorado a começar o tratamento do TOC. Talvez eles estivessem começando a perceber que a gente é o que é, independente do credo, anjo da guarda, signo ou orixá. E que Ana não é uma garota anormal, apenas alguém de nome simples e vida comum que, depois de tudo isso, ainda vai preparar sua própria refeição, sonhar em ter a sombra de um pé de manga em seu quintal onde lerá histórias para os seus filhos, respirar fundo e correr para o treino de boxe.

 

Este texto foi especialmente escrito como colaboração para a coluna Papo de Menina do Portal Todavia.

 

12 de fevereiro é celebrado como o Dia do Orgulho de ser Ateu. A data é uma homenagem ao aniversário do pai do evolucionismo, Charles Darwin

 

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