Apenas mais um conto barato

Era um hábito no mínimo curioso esse seu de, no exato instante em que está vivendo uma cena, sentir a certeza de que escreverá sobre ela. Desde o momento em que se acomodou no banco estreito do pequeno shopping, deixou-se absorver pelo devaneio típico dessas horas: as palavras ansiosas demais para conformar-se com a espera para serem escritas. Mas hoje elas seriam obrigadas a conter-se. Hoje, havia uma espera maior. Sozinha em seu banco, ela percorreu com seus olhos a lonjura do teto, assistiu aos reflexos de luzes no azulejo branco do piso, sentiu as cores ferverem nas vitrines e, principalmente, compreendeu o chamado gritante dos anúncios de promoção. Respirava devagar, mas tinha pressa. Olhou para a entrada pela qual ele deveria chegar, mais uma vez em vão. Ele estava atrasado. Ela, amargurada demais para conformar-se com a espera por um abraço.

Naquele dia, ele não veio. Ela sabia disso, mesmo tendo deixado o shopping algum tempo depois. Perguntou-se quantas outras vezes ele se ausentaria. Ela precisava dele, como um bebê do seio da mãe. Todos os dias, cada vez mais sedenta. E por isso, em silêncio, perdoava-o em cada falta. Como também em silêncio fervilhava de alegria com o anúncio diário da sua chegada. E o som do telefone trazia invariavelmente a silenciosa torcida para que se ouvisse o som da sua voz em seguida. Sempre assim, com o silêncio alerta das crianças que levantam à surdina da noite e, em ponta de pés, vão até a geladeira roubar um doce, o ar ainda retido nos pulmões. Ela não carecia de amor barulhento. Apenas amá-lo já era o bastante. Ele, o seu primeiro amor.

Podia lembrar-se em cores nítidas do dia em que se conheceram. Este, aliás, será sempre um assunto alvo de risos e controvérsias, visto que nenhum braço era dado a torcer gratuitamente. Mas ela sabia que ele lhe olhara desde a primeira vez. Ela apenas indagou-se sobre aquela presença estranha no cômodo já habitual. Um dia, em um corredor qualquer, eles trocaram as primeiras palavras. E então, o convite.

Naquele instante, seria imperdoável que ela admitisse ainda que para si mesma, mas na exatidão daquele instante ela sentiu que já lhe pertencia. Com o passar dos dias, a profecia se cumpriu quase imperceptivelmente. Ela foi dele, como jamais ousara ser de ninguém. Em risos, lágrimas, suor e gemidos. E lhe entregou tudo o que tinha: corpo, coração, sorrisos, medos, confiança, malícias e segredos. Ele saboreou nos mínimos detalhes, com o mesmo fascínio de um explorador em mata virgem. Em troca, ela queria apenas uma mão quente para adormecer sobre a sua, quando precisasse afastar os pesadelos.

Foram dias felizes, não há que se negar. Tão felizes que ela não pôde se conformar tão facilmente que chegara o fim. Foi preciso que o peso das semanas lhe ascendesse as luzes da razão, para só assim ela se convencer da traição. Não se tratava apenas de mulheres, é bem verdade. Mas de toda a entrega, a renúncia, a certeza de proteção, as promessas de eternidade… O amor. Jogados ao vento com a mesma indiferença de um lenço usado que, já sem utilidade, carregará a imundície para cumprirem o destino de lixo. A precisão das coisas agora se fazia tão clara que chegava a doer-lhe as vistas. Surpreendeu-se com o tempo que passou sem dar-lhe atenção.  Ela foi golpeada dura e friamente quando, ao vê-lo entrar em casa com o mesmo olhar passivo e sorriso encorajador, abraçou-lhe com a certeza de que ele lhe trazia escondida uma rosa. Em meio ao abraço, ao sentir a dor que começou em suas costas e percorreu o corpo até o peito, ela descobriu que eram apenas espinhos.

Quando chorou as suas piores lágrimas, algo lhe lembrou aquele dia no shopping. Sabia o que era: a certeza de que ele não viria. Em uma noite de pouco sono e músicas invadindo a sua janela, recordou-se do conto que nasceu em seu coração, sentada sozinha naquele banco. E como nada em sua vida é desperdício, ela permitiu que despertassem as palavras de outrora que agora saboreavam em paz o descanso dos justos. Mas nada disso aconteceu ao acaso, vale dizer. Foi preciso ouvir um grandalhão desengonçado de um filme antigo que, não raro, nunca antes havia dado atenção. Só assim ela convenceu-se de que não podia negar (justamente para si mesma) que noites de melancolia e insônia são sempre noites de versos.

“Elas morreram por amor. Todos morrem por amor. Todos os dias, no mundo inteiro.” Através das palavras do homenzarrão que ecoaram pela TV, subitamente descobriu: ela também morreu por amor. Por ele, caminhou passo a passo rumo ao próprio abismo, suicídio inconsciente. Deu-se à própria morte, e sobretudo amou-a. Mesmo tão acostumada com a crueldade diária nos telejornais, jamais imaginaria que pudessem andar juntas na mesma calçada. Disfarçada, educada, bem-vestida: não pôde reconhecê-la. Não bastou assisti-la em personagens anônimos numa tela fria, faces sem nenhum rosto. Não importava tê-la no sofrimento desabafado em seu colo, ouvidos sem nenhuma escuta. Era preciso dar a cara a bater, consumir a dor de um peito arrebentado, ferver com o calor do sangue que escorre seu corpo sem pudores.

Sim, pessoas morrem por amor o tempo inteiro. Mas ninguém mata por amor. Embora muitos assassinos – todos os dias, no mundo inteiro – insistam em afirmar o contrário, numa tentativa hábil de reduzir a sua pena, quem já amou de verdade sabe que este sentimento nada é capaz de destruir. Amor puro como a água nascente: claro, doce, pronto para saciar sem nada pedir em troca. Matar por amor não soa heróico, mas amortece a incredulidade de quem vê. E, muitas vezes, faz a incredulidade ceder espaço ao perdão. Mas só quem realmente ama e cumpre o ritual de entrega, renúncia e proteção, sabe que em hipótese alguma há de ser capaz de matar: é preferível, pois, dar a própria vida.

Quando ela entendeu isso, soube que era possível se fortalecer com a sua descoberta. Só assim, ela, que morreu por amor, por amor também renasceu. Agora, via quem sempre esteve realmente catando os cacos ao invés de apenas empurrá-los para debaixo do tapete. Ou, pior ainda, quem jogava pedras nas vidraças. E também foi amparada por amores que por ela não seriam assassinados, mas se preciso, por ela morreriam. Por isso ela não deixou um só instante de amar: seria imperdoável fazê-lo, quando se descobre que esse é um dom para poucos. A dor do sentimento de perda morreu pouco antes, com a ajuda do velho clichê que diz que não se perde o que nunca se teve. Ela renasceu com coragem para a nova vida. Dele, não mais se sabe.

Engraçado ao fim de tudo pensar como um dia ele e ela já puderam ser uma coisa só: eles. A combinação mais harmônica, como filme e dia chuvoso, brigadeiro e panela, peso e balança. Hoje são como dois pedaços de ímãs que alguém mudou de posição. Mas o passado passa, e talvez por isso tenha esse nome. Eles também passaram e novamente são assim: ele e ela.

Para ele, ela virou mais uma de suas perdas. Apenas mais uma.

Para ela, em uma noite de insônia, filme antigo e músicas invadindo a sua janela, ele virou mais um dos seus contos baratos. Apenas porque noites de melancolia e insônia são sempre noites de versos.

 

Texto originalmente publicado no Revertério, em 2009.

Comments

comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *