Adeus, morena

Não precisa desviar os olhos como quem de repente criou um interesse incomum pela pintura desbotada da parede da sala, morena. Eu consigo ler o vaivém do teu olhar mesmo de esguelha, enquanto fito meu livro. Há tempos que as letras deixadas pelo rastro de fuga das tuas pupilas têm me entregado o aviso prévio. Você evita me encarar porque sabe que, de todas as obras que eu já li, teu avesso é a única que posso recitar de cor por completo. Eu conheço tuas entrelinhas. Decifro tua caligrafia no excesso de tinta e compreendo tua alma na falta de coesão. Agora, teus olhos me narram uma página que eu nunca antes tive acesso – são olhos de epílogo.

Não adianta repetir que nada está acontecendo numa tentativa tosca de adiar o inevitável, morena. Eu posso ouvir as batidas teu coração mesmo quando teu peito tenta se esconder debaixo do chuveiro. Eu finjo que aceito tua negativa e me demoro um pouco mais guardando a escova de dentes. Por entre os pingos d’água, acompanho a melancolia que escorre em desespero da música que compõem os teus batimentos cardíacos. Tuas notas e teus acordes, tuas cordas e teus foles, teu timbre eu também sei de cor. Decorei o teu ritmo e teu tom, sei sussurrar tuas rimas e teu som. Agora, eles sopram uma melodia que não reconheço – dessas que não cabem bis.

Não há por que levar teus pertences aos poucos como se eu não fosse perceber a ausência, morena. Eu sou capaz de enumerar os teus pedaços no meu apartamento com a mesma precisão que os quadros daquela exposição do Portinari. A posição das tuas camisetas estampadas colorindo os meus cabides eu também sei de cor. Sei como teu shampoo pincela aroma de orquídeas em meu banheiro, e os objetos de decoração da sala posam na mais perfeita sintonia sempre que teu transtorno obsessivo compulsivo passa por lá. Mas eu tenho sentido que em teu sorriso não mora mais aquarela, e teus braços sutilmente têm deixado de ser meu cavalete. Agora, não consigo ver beleza na obra que você tem deixado pra trás – uma tela vazia.

Ah, morena, se você soubesse que a arte da despedida eu também sei de cor… Já vi tantas chegadas e partidas, por tantos portos já carreguei minha mochila, tantas âncoras sob meus olhos já se dissolveram em pó. Por isso vai, morena. Faz de uma vez uma mala com tuas camisetas e teu bom humor no café da manhã. Sobre os teus que fizemos nossos, há livros na prateleira e cheiro de hidratante na roupa de cama. Não esquece os quadros da varanda; o violão e a concertina. Se por acaso vir uma lágrima escapulir dos meus olhos antes de fechar a porta, não se preocupe. É só o meu peito transbordando a ausência que você tem me afogado em doses pequenas a cada dia. É só minh’alma sussurrando pro meu corpo que é hora de respirar outra vez.

Adeus, morena.

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