A guardiã de estrelas

estrelasNão foi preciso ouvir as três batidas intervaladas na madeira oca da janela, confome o combinado, para saber que ela chegara. O som abafado de passos na terra macia e o cheiro de âmbar trazido pela brisa noturna lhe denunciou aos meus sentidos atentos. Levantei tateando a lamparina na cabeceira na cama. Ao primeiro fio de luz, encontrei o chinelo de dedo descansando no lado oposto do chão de terra vermelha. Escorreguei até ele. No prego batido com cuidado atrás da porta, descansava a camisa de lã. Empurrei meu corpo magro por dentro dela enquanto passava as pernas pela janela.

Ao fim da escalada, ela me esperava lá embaixo. Franzina demais mesmo para a sua pouca idade, parecia ainda menor dentro da capa que usava para se proteger da noite fria. Um pequeno fio de suor fazia um desenho torto pela testa morena, sinal de que viera correndo do casebre lá de cima. As esmeraldas nos olhos reluziam de forma felina.

– Tu vais adoecer – censurei, ao olhar os pés descalços.

Diante do silêncio, compreendi que seus lábios finos estavam guerreando contra dezenas de palavras ansiosas pelo destino de se materializar em voz. Diante de qualquer erro, elas se derramariam ali mesmo, no terreiro da horta, e nos denunciariam ao entrar em casa. Eu não saberia explicar a um pai nervoso, com cinto empunhado em mãos, o que eu fazia fugindo por algumas horas durante a madrugada com aquela garota pequena de olhos grandes. Contive meus impulsos e segui os seus passos nus pela escuridão em torno da vila.

Ao fim das casas da última rua, ela continuou marchando em direção à pequena mata que rodeava o lado leste. Para nós dois, cujo nascimento e criação foram fincados naquela terra, o percurso já era habitual. Entre folhas se roçando no rosto e graveto estalando aos pés, ela estacou diante de uma conhecida clareira.

– Vês? – apontou para cima.

Ergui o pescoço. Os galhos das ávores coreogravafam de acordo com a melodia do vento. Acenei com a cabeça, concordando, e ela sabia que se tratava de mais uma das mentiras que eu contava quando estava constrangido.

– Estou falando das estrelas, seu tolo. Consegues ler a poesia que elas escrevem no céu?

Não, eu não conseguia. Se ainda estava aprendendo a decifrar as sílabas das palavras, como poderia ler estrelas?

– Oh, sim. – menti novamente. Ela não fez esforço para fingir que lhe convencera.

– Estrelas compõem poesias no céu, todas as noites. Algumas falam sobre amores perdidos, outras narram saudades, outras ensinam lições, e há ainda aquelas que guardam sonhos.

– Os poetas mortos viram estrelas? – deixei escapolir.

– Não só os poetas, e nem apenas os mortos. Vejas bem: no mundo inteiro, é entregue uma estrela a cada bebê assim que ele nasce. A maioria não sabe disso, mas é lá aonde nossa alma passeia enquanto nós dormimos, e para onde elas se mudam depois que morremos. Tu consegues te lembrar de todas as pessoas que já passaram em tua vida? Os amigos de infância, a primeira professora, o parente de poucas visitas, o irmão que se casou e agora tem pouco tempo para ti, a vozinha vencida pela pneumonia no passado ano… Tu nunca perdeste nenhuma delas. Nem para a distância, nem para o tempo, nem mesmo para o fim. Estão todas aí em cima, olhando para ti.

Ergui-me novamente, ainda duvidoso.

– Estrelas são pessoas que nós nunca perdemos – ela continuou. – Todas as noites, elas contam poesias para que não possamos esquecê-las. Se prestares atenção, verás que nem sempre elas obedecem à métrica ou trazem rimas bonitas. O importante é a mensagem. Algumas te recordarão como se conheceram ou por que se perderam. Poderão te sussurrar que foi necessário o afastamento, ou confessar saudade. Mas, sempre, elas tentam te lembrar o que vós aprendestes juntos. Porque nenhuma pessoa passa em nossa vida em vão. Seja qual for o sentimento que elas nos despertem – amor, ódio, afeição, admiração, inveja, desprezo – no fim, todos eles se convertem em aprendizado. E são essas lições que ficam eternizadas no céu.

– Eu… Eu sou uma estrela?

– Claro que sim. Por isso te trouxe aqui – para que tu possas encontrar a ti mesmo aí em cima e murmurrar poesias para as pessoas de quem se perdeste. Todas as noites, há quem olha para o céu à espera de teus sinais. Não as decepcione.

A essa altura, as estrelas já haviam sido borradas em meus olhos pelas lágrimas que eu tentava conter. Como nunca soubera disso antes? Era possível estar próximo daqueles que perdi para a vida, e também para além da vida. Lembrar o que vivi de mais bonito com eles era o segredo para torná-los presentes e eternos.

– Sabes – ela interrompeu meu pensamento -, gosto de vir aqui em algumas noites estreladas para guardar o melhor das pessoas que já deixei. E aí, durante o dia, eu sei que elas continuam comigo, por trás da cortina azul do céu. Estrelas não nos abandonam. Não importa se nós mudarmos de vila, formos para a cidade ou cruzarmos o oceano. O tempo corre, a gente cresce, as coisas mudam. Mas as estrelas nunca deixam o céu. E por isso, nunca nos deixarão. O mesmo pode acontecer com as pessoas que amamos, basta que a gente queira.

– Posso acompanhar-te nas próximas vezes que tu voltares aqui? Também quero aprender a ler estrelas e a escrever poesias.

– A cada noite estrelada, sob o mesmo ritual de hoje.

Coloquei-me a traçar o caminho de volta, enquanto sacudia as folhas secas que ficaram grudadas em minha calça e pensava no tanto que eu tinha a dizer a quem estava longe.

– Só mais uma coisa – ela chamou, e eu olhei para trás para encarar os seus olhos de gato. – Se em uma noite de céu limpo tu não ouvires as três batidas à tua janela… Lembra-te que haverá um lugar onde eu sempre brilharei para ti.

 

Imagem: divulgação

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