Pelo direito de ser a mulher que eu quiser

O-FEMINISMO-E-A-LUTA-DOS-SEXOSEu cresci ouvindo que mulher tem que se valorizar. Por todos os lados, dedos apontavam para a minha roupa, o meu batom, o meu comportamento. Você não quer ser como essas mulheres que os homens só querem “pra pegar”, né? Não, você tem que ser uma mulher “pra namorar”. Por isso, não beije muitos. Não seja fácil. Só faça sexo com alguém muito especial – de preferência, o seu futuro marido. Não vá virar uma puta, que transa com vários. Quem quer ter algo sério com uma puta? Ninguém, né? Foi quando eu aprendi que tudo o que eu deveria almejar de mais importante era receber o visto de aprovação da Convenção Masculina de Decisões Universais. Só assim eu teria chances de, com o aval da maioria qualificada dos homens do mundo inteiro, alcançar o grande propósito da minha existência: casar e procriar.

Eu não levei a lição ao pé da letra, mas ela me atormentou durante muito e muito tempo. E era algo que não apenas direcionava as minhas atitudes, mas também a minha visão sobre outras mulheres. Longe daquelas “pra pegar”, eu me sentia um ser de luz especial, protegida sob a égide da CMDU, a quem eu era arduamente temente. Porém, chegou o dia em que eu não vi mais sentido em ficar esperando um cavalo branco estacionar na minha porta, com o príncipe encantado de joelhos me estendendo um pergaminho com selo real, onde letras douradas escritas a pena e tinteiro desenhariam um singelo pedido para me levar ao motel. Eu poderia ir se essa fosse simplesmente a minha vontade. Foi quando eu entendi que eu ser mulher “pra pegar”, “pra namorar” ou “pra casar” depende unicamente do meu julgamento e da minha escolha. E de ninguém mais.

Quando estive em relacionamentos sérios, achei que estaria livre de toda essa bobagem. Mas aí teve aquele cara que, certa vez, num espasmo de romantismo, afirmou que gostaria de saber quantos parceiros eu já tive antes dele, mas não iria perguntar, pois temia que a resposta lhe decepcionasse. Também teve aquele que, um dia, discretamente, e claramente envergonhado, pediu para que eu me calasse numa conversa entre os seus amigos, quando eu defendia que é perfeitamente normal mulheres transarem no primeiro encontro. E ainda teve aquele que, numa noite qualquer, me culpou pela sua falta de desempenho sexual, alegando que o motivo foi, repentinamente, no meio das preliminares, nítido como a cor do meu sutiã, ele ter me imaginado na cama com meu último paquera (poderia ser história de 1º de abril, mas infelizmente é de 8 de março mesmo). Foi quando eu vi que o slutshaming também dorme ao lado.

E aí – dentre outros tantos motivos – eu fui perdendo o interesse por homens com qualquer traço de conservadorismo. Legal mesmo é estar com aquele cara onde a gente encontra conteúdo em afinidade. Aquele, ligado aos movimentos sociais, militante, pró-feminista. Legal mesmo é trocar ideia com alguém que vai dizer o quanto admira mulheres livres, independentes, donas de si – exatamente iguais a você, ele fará questão de frisar. Aí, em um belo dia, conheci um desses caras bem legais. Porém, quando eu avisei que minha noite havia acabado e eu iria embora, ele não foi tão legal. Como assim, eu, tão independente, dona do meu corpo e das minhas regras, não iria transar com ele? Como assim liberdade sexual não é sinônimo de estar disponível pra transar com todo mundo? Como assim o feminismo não foi feito pra lhe dar parceiras sexuais ao seu bel-prazer? Quando a máscara da desconstrução caiu, não sei quem ficou mais desapontado, eu ou Galilei. De um lado, eu tentava me recordar das aulas de Educação Artística da 5ª série, pra desenhar pro cara que liberdade sexual também – e sobretudo – implica em ser livre pra dizer “não”. Do outro, o pai do heliocentrismo certamente se revirava em seu túmulo, na Basílica de Santa Cruz – tanto tempo pra provar que é a Terra quem gira em torno do Sol, e mais um homem achando que é em torno dele. Foi quando eu concordei que realmente não dá pra defender o tal do homem hétero.

Mas ainda existem algumas coisas que eu não consigo ver, entender, aprender e muito menos concordar. É de onde surgiu essa Convenção Universal na qual os homens têm plenos poderes de decidir quem somos e o que merecemos. É quem teve a ideia de chamar uma mulher de “puta” quando ela apresenta os mesmos comportamentos que são moralmente aceitos quando vêm de um homem (e aplaudidos). É como surgiu o hábito de tentar envergonhar, constranger ou humilhar uma mulher por conta de sua vida sexual. É como se confunde a liberdade de ela ser o que ela quiser com a liberdade de ela ser o que eu quero que ela seja. Não consigo imaginar porque, com tanta informação acessível, com tanta gente disposta a conversar e esclarecer, ainda tem homem que prefere se resguardar nos discursos de “mas nem todo homem” e “você está exagerando”, e fazer de conta que o problema não é com ele. E fazer de conta que não existe problema.

Amigo homem, há poucos dias a Nasa anunciou a descoberta de um novo sistema solar. Três dos seus planetas estão em área habitável. Especula-se a existência de vida por lá. Para de acreditar que você é o centro do universo. Para que tá feio.

(Este texto foi escrito especialmente para o Ele e Ele. Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o projeto virou “Elas por Elas” e abriu espaço para mulheres falarem sobre sexualidade, feminismo e preconceitos. Eu fui convidada para falar sobre esse cenário na realidade de uma mulher cis hétero. O Ele e Ele é um projeto lindo de dois amigos queridos, onde eles contam os desafios de uma vida a dois, cheia de liberdade e amor. Vale a pena conhecer!)

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