Chamas e retratos

Desde criança, uma das coisas a que mais se apegara ali era uma enorme estante onde repousavam dezenas de porta-retratos. Deles saltavam sorrisos vários, uns bastantes longínquos, bem faceiros; outros desbotados, que nem sorriam mais. A cada vez que a família aumentava, um novo porta-retratos passava a sorrir da estante. Apesar de já conhecê-los de cor, gostava de olhá-los toda vez como se fosse a primeira. Ria-se das mudanças do tempo, recontava algumas histórias sobre aquelas cenas, ouvia muitas outras.

Daquela vez, havia algo estranho. Para chegar até lá, não fez o seu percurso habitual. A cada passo, tinha que desvencilhar-se de uma multidão sem face aglomerada ao seu redor. Ao entrar, viu que estavam quase todos ali presentes, como se cada um tivesse ganhado vida da sua própria fotografia. Porém, não sorriam. Por um momento, foi como se ainda não entendesse o que estava acontecendo. O som de soluços, gemidos e murmurinhos sem sentido confundiam-se o tempo inteiro.  A sua boca cada vez mais salgada parecia querer exclamar algo em que relutava a acreditar – um instante beirando a insanidade. Subitamente, voltou em si. Foi quando descobriu o que viera fazer ali: era hora de dar adeus. O último adeus.

E então o tempo parou. A caneta estaca sobre o papel. Não há poesia que consiga descrever o quanto dói dar um adeus fatal. Sem ‘até logo’. Sem ‘até amanhã’. Sem ‘volto em breve’. Sem planos, pedidos ou promessas. Dessa vez era apenas adeus. Assim: cruel, com direito apenas a um ponto final. De todas as dores que já havia conhecido, a dor da perda era incomparavelmente a mais violenta. Sádica e sedenta, parecia vibrar em cada pulsação do seu corpo.

Engraçado pensar na lógica de perder alguém, simplesmente porque não há.  É como abraçar o desamparo (com força, a mesma força que tanto lhes desejam). Feito pedra fria e dura, nunca se está preparado para dar de cara com ele. Mais: é como carregar uma chama que por todo o tempo esteve acesa, e de repente, ela se apaga. E então os calafrios diários percorrendo a espinha vêm lembrar que agora só há cinzas… e saudade. O quão tênue será a linha que separa o existir do não existir? O suficiente talvez para bastar apenas um sopro. Um sopro que apaga a chama. Um sopro que varre o mundo.

Agora, não saberia como lidar com a mistura de sentimentos que fervilharia dentro de si toda vez que visse aquela porta e janela, que outrora tornaram conversas tão ensolaradas, sempre fechadas. Quando, ao aproximar-se do pequeno portão, descobrisse que do outro lado não havia mais um assento de onde lhe esperava o mais terno sorriso. Assim como não haveria mais tardes de caminhadas, bobagens jogadas ao vento, histórias de um tempo que não conheceu, risadas tantas, nenhum por quê. A casa ficou vazia. Cada um levou para si, além do seu próprio porta-retratos e objetos que traziam boas lembranças, também um pouco do vazio que lá ficou.

Como as linhas que não param de desenhar o papel, os dias também continuam seguindo o calendário. E assim como nos dias, em alguns trechos a caligrafia ameaça chegar ao ilegível por conta de olhos marejados. Mas a vida tem que seguir o seu curso natural, é o que dizem. Também dizem que hoje, outras estantes em outros lares ganharam um novo porta-retratos. E dali, sorridente, a lembrança daquela chama continuará mantendo aceso o brilho nos olhos de todos aqueles que ela pode iluminar. E quando a dor começar a ceder nos corações que até então estavam a se sentir desamparados, eles descobrirão que não irão perder jamais o seu calor. Porque chamas e retratos estão todos vulneráveis à efemeridade da vida. Mas a luz e os sorrisos que um dia eles sustentaram são antes os significados do verdadeiro amor. E sendo amor, são eternos. E sendo eternos, vão além.

 

Texto originalmente no site Revertério, em 2010.

 

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