O que tu não sabe, morena

O que tu não sabe, morena


Sabe, morena, confesso que fiquei surpreso com a tua reaparição. (Confesso também que o meu coração disparou quando vi os teus cabelos longos sacudindo ao longe, naquele gingado que é só teu…) Andei pensando, não tem muito sentido você admitir agora que fez besteira. Você faz isso desde o dia em que eu te conheci, cortando sol o apressada com tua saia florida e postura ousada de algoz. (Não sei se eu já tive oportunidade de te dizer, mas desde a primeira vez eu tive fome desse teu corpo bem feito e cheiro de rosa no pé…) Mas você faz tudo errado. E eu, o que eu faço com tantos pedidos de desculpas? Eles não levam a nada, se você quer saber. Essa coisa de ferida e cicatriz é tudo verdade. Como é mesmo que dizem? A ferida uma hora se fecha, mas a cicatriz é a lembrança eterna da dor. Erros podem até ter perdão, morena, mas eles nunca têm realmente conserto. Além disso, é tarde, sabe?

Vê, morena, essa caixa de ferramentas? Foi do meu pai. Quando eu era criança, costumava brincar com elas, dizendo-me um cientista inteligente que iria fazer robôs com latas de leite ninho. Olha só essas chaves e pregos e martelos e coisas que até hoje não aprendi o nome… Se eu pudesse, morena, te deitaria naquela mesa e passaria um dia inteiro com essas ferramentas nas mãos, consertando os teus defeitos. Desenroscaria teus vícios, acertaria tuas manias, bateria um prego em teus medos e poliria o teu coração… tudo ficaria em seu devido lugar. Seria um dia árduo de trabalho, talvez até dois. Depois, me dedicaria a escavar os teus erros, saboreando a lentidão em que eles seriam transformados em pó, totalmente inofensivos. Então eu abriria a janela do meu quarto e os sopraria para bem longe, com um alívio que eu nunca conseguiria descrever nem na minha melhor inspiração. Mas tudo ainda faz parte da minha ficção infantil. Além disso, é tarde, vê?

Escuta, morena, eu sempre te amei acima de todas as tuas falhas. A culpa não é minha e, no fundo, sei que você entende. Eu tive esperança de um dia poder ajustar esse teu jeito desarrumado à minha vida. Mas eu devia saber que você não é uma lata de alumínio pronta pra ser moldada ao meu querer. (Ainda que eu só tenha desejado o melhor …) Essa conversa de sentir falta, morena, tudo isso ainda mexe comigo. Eu não gosto de confessar, mas por aqui tem se passado a mesma coisa. Só que agora não adianta insistir. Eu te falei tantas vezes, lembra? Que só brincar de amor não sustenta o tempo. Que é preciso levar a sério quando se quer durar. Chega uma hora que a gente precisa aprender a ser pro outro, compreende agora? Mas não, agora não adianta. Escuta, é tarde.

Por isso vai, morena. Volta a tocar tua vida com tua saia florida e todas as tuas besteiras. Um dia se eu vir teus cabelos longos sacudindo ao longe, em um gingado diferente, é sinal que tu achou o teu próprio conserto. Aí quem sabe, morena, se a gente se encontrar num desses becos sem saída… a gente descubra que só há uma saída pra nós dois.

 

Outros-líricos

16 de maio de 2012 2 comments
Por favor, feche o túmulo de Clarice

Por favor, feche o túmulo de Clarice

E deixe-a em paz. Por favor, pare de transformar sua literatura em pop. Pare de transformar todo e qualquer besteirol em sua literatura. Isso mesmo, eu estou falando com você. Que não se contenta em espalhar mensagens de autoafirmação achadas em qualquer lugar da internet, mas precisa também colocar parênteses com as palavrinhas mágicas: Clarice Lispector. E também você, que não sabe a diferença entre Clarice, Tati e Martha, mas está lá postando, curtindo, compartilhando, retuitando e encaminhando tudo o que surge com o seu nome. Você que gosta de confundir moda e literatura… por favor, dá um tempo.

É fato que a circulação de conteúdos nessa ‘terra sem lei’ que é a www acaba trazendo este infortúnio a diversos outros escritores. Nomes e trechos espalhados entre páginas de twitter, facebook, tumblr, blogs e afins, sem qualquer preocupação com a veracidade de autoria, sem qualquer interesse que ultrapasse os limites do supérfluo. Invariavelmente, isso me incomoda. Mas com Clarice, dói. Admiro e devoro grandes literatos brasileiros, mas ela é a que toca a minha alma. É ela quem me entorpece e me inspira. Recordo os detalhes de sua primeira obra que chegou às minhas mãos: foi dada por uma tia de quem herdei o gosto pela leitura, a profissão e muitos outros livros.  Eu devia ter uns 12 anos, e A Legião Estrangeira, dentre tantas paixões de páginas amareladas que já haviam passado por minha vida, foi o meu primeiro amor. Eu tropecei em suas palavras e adormeci naquele aroma de linhas frescas. Reli e li de novo durante os próximos anos, sempre com um sentimento novo.

Clarice é magia. A judia que nasceu na Ucrânia e cresceu em solo brasileiro trouxe um estilo novo de narrativa, introspectivo, sedutor. Ela despertou críticas, dúvidas e admiração. Não, ela não disse: “Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer”. Ela nunca escreveu: “Vai doer, vai demorar, vai te destruir, mas algum dia vai passar.” Provavelmente, essas frases foram rabiscadas por suas coleguinhas no fundo do caderno da 7ª série. É indescritível o quão ridículo é atribuir palavras como essas à escritora. Por mais que pareça, não se trata de tietagem ou fanatismo. É apenas um conselho amigo: pare de assinar o nome de Clarice ao fim de qualquer frase de efeito (leia-se: de merda). É que essa prática não vai lhe fazer mais descolado ou popular. Mais ignorante, com certeza.

Clarice é inspiração. A mulher de olhos rudes e traços felinos que soube nos levar para o mais íntimo dos pensamentos de seus personagens e, ali, fazer brotar o encanto. Eu estive no bonde ao lado de Ana quando despencou o seu saco de tricô. Vi de perto as travessuras de Sofia motivadas pela paixão obstinada por seu professor. Imaginei metáforas e senti epifanias, como se eu fosse uma personagem intrusa e invisível no canto de cada conto. “Liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome”. Profundo, não é? Não. Profundo mesmo é navegar pelos sentimentos da pequena Joana, protagonista do primeiro livro da autora, de onde saiu esse trecho. “Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam.” Bonito pra uma descrição de perfil, não é? Bom, o que eu acho bonito de verdade é acompanhar os sonhos inocentes da história doce e trágica de Macabéa. Pois é, Clarice é muito mais do que um punhado de frases feitas. Você que vive citando ela, antes de me xingar, por favor, abra um livro e veja que eu tenho razão.

Abra um livro e, por favor, feche o túmulo de Clarice. Aproveite e feche também o de Caio Fernando Abreu, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Millôr Fernandes e companhia. Respeite a memória deles. As suas almas não devem descansar em paz enquanto virem o trabalho de uma vida toda, que ajudou a revolucionar épocas, transformado em modinha de internet. Eles devem vagar inconsolados por outros mundos enquanto as frases do “caderno de confidências” do colegial continuarem sendo assinadas com os seus nomes. Por favor, deem uma trela a Martha Medeiros, Luís Fernando Veríssimo e Rubem Alves. Por tudo o que é mais sagrado, poupe-nos de Paulo Coelho e Augusto Cury! E lembra daquele texto maravilhoso em seu e-mail que continha um agradecimento a Deus, e você encaminhou para os seus amigos? Sério, pode confiar, ele não é do Arnaldo Jabor.

Eu gosto muito de muitos escritores, inclusive dos que estão na moda. Adoro afundar na cama com um livro, de preferência velho. Cheirar páginas amarelas e inventar mil posições quando o pescoço começa a doer. Saboreio cada palavra e às vezes volto do início, para saborear de novo. Os escritores que não param de ter seus nomes circulando pela web com certeza viraram moda porque são muito bons. Muito bons de serem lidos, antes de serem simploriamente citados.

Eu gosto muitos de muitos escritores, inclusive daqueles que não têm grandes holofotes. Eu sou fã de Mariana. Não perco uma atualização de Patrick. Adoro Lays, Igor, Emi, Cacá, Helder. Acompanho Bruno, Maria, Luana e tanta, tanta gente que, como eu, ama consumir e fazer literatura. Gente que escreve pra internet e faz essa loucura de informações valer a pena. Que eu cito vez ou outra, quando eles me descrevem ou escrevem como se feito pra mim. Gente que não está na moda, mas, tenho certeza, você adoraria ler. E, se me permitir só mais um conselho, sai um pouco do senso comum. Navega de cabeça e vai descobrir quanta coisa boa tem escondida por aí.

Ah, e no caminho, não for muito incômodo, feche o túmulo de Clarice, por favor.

 

Falo mesmo.

7 de maio de 2012 0 comments
A menina que roubava céu

A menina que roubava céu

A janela era grande, e ficava aberta, e o sofá encostava no parapeito, e havia o céu. E no meio de tudo isso vivia uma menina com olhos de jabuticaba. Durante tardes ensolaradas, escalava o sofá para debruçar-se sobre o céu. E havia as nuvens, e formatos, e movimentos. E ela sentia os ramos das jabuticabas crescendo até alcançarem o azul, e lá em cima ficavam desenhando sonhos e desanuviando ares. Ficava naquele devaneio, até não saber mais o que era desejo e o que era céu.  O que era universo e o que era seu?

- Desce daí, menina!

Por essa mania de liberdade culpo minha mãe. Era por ordens suas que a janela ficava aberta cortando as cortinas, e o sofá mais estreito posicionado logo abaixo, encostando-se ao parapeito. Era mais que um casamento, era uma união de cumplicidade. Eu observava tudo, de jabuticabas atentas, sentindo-me parte daquele diário plano silencioso. Eu não deveria subir para não estragar o sofá, mas quebrava as regras porque tinha fome de nuvens. Então, sempre que minha mãe estava ausente ou ocupada demais para notar aquela cena, lá estava eu, roubando pedaços do céu.

Eu queria mais que aquilo – eu queria ser céu. Frequentemente, recorria a uma caixa de perfumes onde guardava fitinhas coloridas, dessas que manda a lenda amarrar três vezes e fazer três pedidos. Então cultivava uma coleção de fitas nos meus punhos e tornozelos, cada qual carregando uma nova esperança e o nó de um pedido em comum: um par de asas. Esperava por muitos meses o momento em que as fitas já desgastadas e sem vida se romperiam, para que o meu desejo fosse enfim atendido. Enquanto isso, eu também escrevia pedidos a Papai Noel. E orava, toda noite, silenciosa.

Eu ganhei uma Barbie, um urso de pelúcia gigante, um teclado cheio de músicas ao qual apelidei de “conitário”. Ganhei roupas, ganhei um mago que ascendia as bochechas, ganhei casinhas de montar. Ganhei coisas que crianças ganham durante a criancice. Mas, ano após ano, nunca chegou o meu par de asas. E então um dia, de tanto plantar minhas jabuticabas no céu, elas amadureceram e despencaram. Foi quando eu me dei conta de que já não me debruçava mais na janela. Crescida que estava, a posição começava a ficar desconfortável.

Eu nunca ganhei o meu par de asas. Não desses que tinham as borboletas que fiz minhas amigas. Não desses que usavam os meus super-heróis favoritos. Mas só depois de deixar meus devaneios nas nuvens, descobri que há uma janela aberta dentro de mim. Então eu entendi que havia parado de roubar pedaços do céu porque já possuía um depósito imenso deles. Vi a minha janela interior me mostrar que não há limites para olhos de jabuticabas e para sonhos alados. Que eu não preciso de fitas ou orações: o céu é meu, em tudo o que está ao meu redor. É meu e vive à minha espera. Eu mastigo uma porção de nuvem em cada café da manhã para não esquecer o sabor do que é ser livre, do que é flutuar pelos caminhos que sopram o vento com as raízes guardadas carinhosamente numa caixinha de música. Eu cravei em minha pele um desenho daquilo que mora dentro de mim, colorindo as minhas cortinas e fazendo casulos no meu (para)peito.

Da minha janela, eu vejo que a vida é um imenso céu. Eu não tenho um par de asas, mas descobri que posso voar.

 

Autorretrato

9 de abril de 2012 1 comment
De volta!

De volta!

O Estórias pra Contar passou por um probleminha no servidor, e por isso ficou fora do ar durante algum tempo. Nesse processo, o backup não foi recuperado e acabei perdendo tudo o que tinha no blog: textos, layout, comentários… Com um pouco de paciência e algumas mãozinhas amigas, comecei novamente do zero. Felizmente, tinha cópia de todos os textos postados. Assim, tudo o que foi ao ar de junho de 2011, quando nasceu o blog, até janeiro de 2012, quando ele saiu do ar, está anterior a este post, datado de forma fictícia como  1º de janeiro de 2012. Daqui pra frente, começo as novas postagens. Confesso que para mim a maior perda foram os comentários de todos que passaram por aqui, elogiando, criticando, registrando suas ideias… Sou muito apegada a essas coisas, e deu uma dorzinha no peito ver isso evaporando de uma hora pra outra.

Com a volta do blog, preciso agradecer ao amigo André, pelo cuidado e preocupação; e à linda da Emi, por vir me aturando e deixando tudo com a cara bonita por aqui (o layout anterior foi feito por Ellen, outra linda). Agradeço imensamente também a todos que durante esse tempo de ausência me abordaram para questionar sobre o que havia acontecido e falar que estavam sentindo falta do blog. Fico muito feliz com isso! 

Em breve, começaremos a ter coisa nova por aqui. E agora, sintam-se em casa. O Estórias pra Contar está de volta! \º/

 

Beijos,
Sâmia

4 de abril de 2012 1 comment
Imperativos

Imperativos

Inspire. Expire. Respire. Puxe todo o ar que conseguir e saboreie: viver é uma delícia. O calor, o frio, o arrepio: viva tudo o que puder.  Do inverno à primavera, os dias estão a sua espera, sedentos.  Doe-se às experiências. Doa-se o resto. Um beijo, um abraço, um riso, uma viagem, um plano, uma vodka, um frio na barriga… entregue-se às sensações! E, com um pouco de magia humana, construa com elas histórias que mereçam sobreviver a vida inteira. Por favor, não se deixe cair no mesmo. Não perca a capacidade de admirar-se. Mantenha sempre aquecida a sua sensibilidade, que ela se encarregará de não deixar morrer o encanto.

Seja. Sinta. Permita. Morda o fruto proibido: o mundo é seu. Aceite ao menos descobrir o que ele tem para oferecer. Não tenha medo, não tenha fé; tenha amigos. E que alguns sejam serpentes e soprem ao seu ouvido que há vida além das videiras. E que você decida o que é bom e o que é mau. Vá ao outro lado. Vá aonde quiser. Há tanta gente, tanto lugar, tanta eternidade esperando para serem descobertos! Extravase os limites do Éden. Crie os seus próprios limites. Pecados e paraísos: quem disse que devem ser paradoxos? Não esqueça: a vida não é eterna, mas pode ser intensa.

Irradie. Inove. Renove. Conjugue todos os verbos que quiser: a escolha é sua. Não importa o que dizem a sintaxe ou a morfologia, mas sim o sentido que dá o coração. Não espere o tempo engolir o prazo de validade. Deixe cicatrizar. Diga que ama. Ou que não ama mais. Perdoe. Peça perdão. Ria alto. Olhe nos olhos. Liberte-se. Veja no espelho os reflexos de sua história, sentimentos e situações, e então diga o que é certo e o que é errado – ninguém mais poderá fazê-lo. Não se preocupe, o que se faz pra ser feliz dispensa explicações. A felicidade é primordial, e por isso, por si só justifica-se.  Então, pronuncie em voz alta o que você quer o que você pode. Sim, querer é poder. Pois o bom da vida é mesmo essa coisa de gostar e desgostar; planejar, destruir e reconstituir; tentar e tentar de novo. O bom da vida, meu amigo, é que ela é sua.

 

Mesmo estando bastante atrasada, gostaria de desejar você, querido leitor do blog, um feliz ano novo. Que você possa inspirar, expirar, sentir, permitir, irradiar e renovar, não apenas em 2012, mas em toda a sua existência.

Feliz ano novo! Feliz vida! 

 

Outros-líricos

1 de janeiro de 2012 0 comments
As mentiras que eu te contei

As mentiras que eu te contei

Eu menti quando disse que gosto de Machado, Beethoven, Tarantino, Dostoiévski e colunas sociais e de tecnologia. Todo esse cult me cansa. Nunca tive coragem de te contar, mas em muitos dias o que eu gostava mesmo era de me aconchegar em um sofá pequeno debaixo de um cobertor, ligar a TV em um programa de auditório qualquer, rir por qualquer bobagem, ouvir a sua respiração e simplesmente não pensar. Tentei parecer inteligente algumas vezes pra te impressionar, mas no fundo, eu não sei se posso passar muitos dias sem ser um pouco besta.

Eu menti quando disse que me basto. Não conte pra ninguém, mas às vezes – só às vezes – eu queria conseguir acreditar em algo que nunca me deixasse sentir só. Eu juro que são apenas naqueles momentos em que o real não pode me abraçar com o conforto que pede a alma. Mas você me conhece o bastante pra saber que, no fundo, eu sou uma cética teimosa. Tem razão, também nunca consegui conviver com certas amarras, e sei ainda que isso sempre te incomodou. Mas eu falava a verdade quando dizia pra você não criar esperanças de conseguir mudar esse meu lado torto.

Eu menti quando disse que não me importava. Te confesso, se você pudesse ver por um breve momento como eu ficava a tua espera, não iria acreditar. Se algo parecesse dar errado, eu me devorava por dentro. Até que ouvia os ruídos dos seus passos, e o mar revoltado em que derramei a minha tempestade virava um simples copo d’água. Muitas vezes fingi indiferença, mas na verdade, até as pequenas coisas mexeram comigo. Eu trabalhei cada detalhe, inclusive todos aqueles que você nunca percebeu.

Eu menti quando disse que pensava no futuro.  Pra ser sincera, as minhas raízes são fracas, e eu sinto que elas não conseguem se fixar por muito tempo em um só lugar. Logo me vêm um incômodo inexplicável e uma vontade louca de retirar âncora e seguir viagem. Eu não fazia planos de te levar comigo, e acho até que você já andava desconfiando. Sempre achei muito arriscado. Além disso, quebraria o ritual, entende?

Eu menti quando disse que adorava o seu filé com fritas. Sejamos francos, você sabia que aquilo não era filé. O açougueiro te enganava ou você tentava me enganar? E as batatas ficavam muito oleosas. Isso faz mal pro colesterol, pro coração e pras localizadas. O gostoso mesmo era ver o jeito com que você levantava os olhos disfarçadamente, só para ver minha reação ao levar o garfo à boca. E depois, a forma com a qual nos jogávamos na cama com as barrigas e pálpebras pesadas e, atrapalhados, embalávamos no mesmo sono.

Eu menti quando disse que você podia confiar em mim. Desculpe-me, mas eu nunca fui lá essa flor que se cheire, e a cada dia me torno pior. Meus olhos são assim lentos para poder despistar os que estão do outro lado dos planos malignos que rondam a minha cabeça. Eu sou invejosa, egocêntrica, vingativa e às vezes até um pouco cruel, no mais íntimo dos meus pensamentos. Mas eu tive o cuidado para que, nas tantas vezes que você me despiu, não conseguisse enxergar nada disso.

Eu menti quando disse que só restou indiferença. Na verdade, às vezes – só às vezes – eu também sinto um pouco de saudade. São as horas em que pareço escutar o seu riso, desafinado e desengonçado, um riso gostoso, chamando pro aconchego. Mas então percebo que na verdade ele ecoa lá do fundo da minha memória. E então eu vejo – não sem antes relutar – as cenas em que rimos juntos. O nosso plano era mais que a eternidade, lembra? Mas a gente se perdeu no meio da estrada… o caminho do sempre é muito longo, nós já devíamos saber.

Assim como eu também já devia saber que essa conversa de ser forte era pura balela para enganar a mim mesma. E olha como eu estou: cansada de carregar tanto de mim que você não conhecia. Meus ombros cederam à fadiga, e hoje estou aqui, pela primeira vez me entregando por completo. Mas não se exalte – isso não significa ceder ou perdoar. É que quero tocar a vida sem levar nada teu, nem mesmo as farsas. É vontade de seguir em frente. É a minha vontade.

E, se é pra falar mesmo a verdade, essa foi a minha última mentira.

 

Outros-líricos

1 de janeiro de 2012 2 comments
Eu e os outros

Eu e os outros

Eu sou tão eu, que na grande maioria das vezes acabo esquecendo os outros. Minto: não os esqueço, apenas não me importo. Com essa amargura de quarentona solitária. Explico: tem outros que são parte de mim, e tem outros que são apenas os outros. E eu, que já carreguei todos comigo de uma forma tão minha, hoje não me surpreendo mais com as perdas.

Os outros que um dia foram meus, e agora não passam de outros, desprenderam-se de mim e escorregaram, ora de forma abrupta, ora de forma tão suave, que quase não me dei conta. Sei que eles ficaram pelo caminho. E então, eu andei com as minhas próprias pernas. E o que um dia foi dor, hoje é um cortês ‘bom dia’, e quem sabe uma conversa trivial sobre um assunto qualquer.

Esse meu jeito de ser eu nem sempre foi tão meu assim. Emprestado, aprendido, improvisado. Hoje tudo é assinado com a minha rubrica, eu me assumo prontamente porque me sinto por completo – como uma menina que ganha o seu primeiro sutiã. E se os outros que são tão somente outros tiveram o seu motivo para escorregar, sejamos francos, talvez eu também tenha tido para abrir mão. Agora que me sou, sei: não há juras de eternidade que um dia não possam ser quebradas. Ainda que por um momento isso soe tão profano.

E por ser eu de forma tão escancarada e repetitiva, não consigo mentir, fingir ou trapacear. E por isso mais uma vez revelo: não me surpreendo com as perdas, mas nunca perdi o medo de perder. Porque os outros que fazem parte de mim completam o meu eu, e só assim sou. E como de quarentona solitária não tenho nada, não me nego: vivo por amor. E a não ser se um dia a mudança for tamanha a ponto de alterar a pulsação deste coração, garanto que há aqueles outros que, na primeira ameaça de escorregar de mim, eu tentaria agarrar de volta, segurando até as pontas dos meus dedos.

E eu sou tão eu, que não sei responder outra coisa: sou amor e sou indiferença, a depender de quem perguntar. Pelo meu caminho vou preparada para os gozos e para as meias-palavras, separando aos poucos o que ainda é futuro e o que são lembranças desbotadas esquecidas em algum lugar no sótão. Porque amor pode ser eterno, já sobre as promessas, não me arrisco. Os outros podem ser outros de tantos jeitos, vai saber de mim, deles, da vida. Carrego as incertezas de tantos outros de outrora e tantos outros de agora. E o peso da bagagem não me deixa esquecer: se escorregar, não é amor.

 

Autorretrato

1 de janeiro de 2012 0 comments
Sobre histórias com H

Sobre histórias com H

Vez por outra fico me indagando sobre como começam as histórias. Parece tolice, mas isso me fascina. Deuses, destinos, acasos, coincidências, escolhas, propósitos, providências divinas, um esbarrão na rua – respostas não faltam. Eu sempre prefiro o mistério de não me decidir ao certo em qual delas assinalo, apenas as que elimino. Os amores que amei, os risos que ri, os braços que abracei, os laços que me entrelaçaram… as pessoas que a vida me presenteou. De onde elas vêm? Como foi primeiro riso que nos aproximou? Em qual abraço já havíamos nos entrelaçado? Em qual desses laços já era amor?

Só sei que, de alguma forma, as histórias começam. Talvez ninguém lembre ao certo de quem foi a primeira palavra, mas a essa altura muitas delas  já riscaram em demasia o papel. Às vezes rasuramos, às vezes escrevemos algo por cima, às vezes manchamos a folha com uma lágrima teimosa. Destacamos um negrito o que foi especial. Colocamos um entretítulo e mudamos o rumo. Escrevemos nas entrelinhas e esperamos que fique entendido. Em momentos de raiva, distorcemos a caligrafia, e depois sentimos vergonha do quão feia e destoante ficou a sua aparência.

E, diferente das estórias que criamos, nas histórias da vida os personagens têm vida própria. E decidem por si. Não somos apenas nós que conduzimos o enredo. Nem assinamos sozinhos ao final. Qualquer que seja a emoção da tinta com a qual rabiscamos cada atitude, as mensagens que ela deixa não podem ser apagadas. Diferente do que acontece apenas no papel, o que marca a vida fere a eternidade.

E sobre as histórias com H, dessas que dizem ser de verdade, podemos nunca saber realmente o motivo que permitiu que elas começassem. Sabemos apenas que, se existem, é preciso ter responsabilidade sobre tudo o que deixaremos marcados nos outros. Assim como é preciso estar preparado para o que pode ficar marcado em nós mesmos. Os laços do amor trazem risos e abraços, mas também podem trazer embaraços.

Mas, não nos precipitemos. Se não sabemos como as histórias começam, o que se dirá então de como elas terminam? Basta saber que elas terminam. Não importa quem foram os personagens e o que disse o enredo. Não importa o que ficou marcado. A única certeza que temos das histórias é que todas elas têm o seu ponto final.

 

Autorretrato

1 de janeiro de 2012 0 comments
Vermelho Intenso

Vermelho Intenso

Andava com os mesmos passos descompassados da meninice, na mesma calçada, voltando do mesmo local de trabalho desde que era estudante. O horário era o mesmo, com os últimos raios do mesmo sol alaranjando o horizonte, num anúncio de despedida. Eu era a mesma, sempre. A mesma casa, os mesmos amigos, o mesmo cardápio e penteado. Os mesmos livros, as mesmas músicas, os mesmos hábitos e planos.

E lá estava eu descendo do mesmo ônibus e seguindo pela mesma calçada com o mesmo descompasso, quando olhei de relance a mesma loja de cosméticos que ficava do outro lado da rua. Estaquei, como nunca havia feito. Olhei para os dois lados, com medo de que alguém estivesse a flagrar aquela cena. Alguns minutos se passaram, algumas pessoas se esbarraram em mim, até que eu conseguisse domar o meu conflito interior. Coloquei o primeiro pé na faixa de pedestres. Avancei.

Cheguei ao outro lado da rua pela primeira vez, quebrando sigilosamente aquele mesmo ritual diário. Respirei fundo, temendo que alguém ouvisse as batidas violentas do meu coração – seria um erro fatal que ele me denunciasse nesta hora. Entrei na loja de cosméticos, assustada com tanta coisa diferente do mesmo. Prateleiras com diversas cores, tamanhos, nomes, aromas e formatos. Eu, com olhos incertos, mãos levemente trêmulas e palavras atropelando-se em minha cabeça, mas que eu não conseguia balbuciar. Boba, atônita, apenas admirando o objeto do meu desejo. Eu ainda não sabia, mas aquilo eram sintomas de uma paixão.

Agarrei-o. Atravessei as pessoas, as prateleiras, o caixa, e corri num compasso diferente até em casa. Bati a porta, passei a chave e larguei-me no chão, o ar ainda cortando os pulmões pela sede para recuperar o fôlego. Não havia tempo a perder. Em poucos minutos, já estava rasgando a embalagem e deixando à mostra o responsável pelo crime passional que acabara de cometer: um estojo de tinta de cabelo, cor vermelho intenso. Meus olhos brilharam novamente. Havia um descolorante. Havia luvas de aplicação. Havia um manual de como encarar a mudança.

E lá estava eu, quase possessiva, devorando com os olhos aquele passo-a-passo. No fundo, mesmo nunca tendo deixado de ser a mesma, eu sabia que não há essa coisa de fórmula pronta para a gente aprender a mudar. É algo que nascemos sabendo, e só descobrimos esta habilidade quando nos vemos encurralados por ruas intermináveis a céu aberto. É algo como, no exercício da mais plena liberdade, sentir que não há escolha. E então escolhemos pelo diferente, e libertamo-nos. Mas, não sem dor ou medo.  Pois a convivência com o mesmo de nós é tão cômoda, que nos ludibria a ponto de passarmos tanto tempo ali, achando que estamos felizes por cultivar amor. Mas só quando a libido pelo novo toma nosso corpo, e inconscientemente segura as rédeas das nossas ações, percebemos o quanto há de espaço em nosso coração. Vemos o quanto de vida há a nossa volta, esperando apenas uma troca de olhares para nos apaixonar.

Sim, eu me apaixonei pela vida. Andando pela mesma calçada, no mesmo horário, eu olhei acidentalmente em seus olhos – um caminho sem volta. No dia seguinte, até o meu espelho saltou de espanto quando me viu reluzir aos raios de um novo sol que entravam pela janela. Saí de casa dando novos passos e criando outro descompasso. Agora, eu carregava um vermelho que não me deixaria esquecer o sabor do inflamável. Agora, eu era intensa em tudo fazia. Afinal, apaixonar-se pela vida era um caminho sem volta, e por ele eu seguia.

 

Outros-líricos

1 de janeiro de 2012 0 comments
Últimas palavras

Últimas palavras

A manhã nasceu sussurrando tristemente o anúncio do seu presságio.  O vento frio entrou pelas brechas da janela e gelou seu coração. Titubeou por um momento, mas se conteve e fez de conta que ainda dormia. Naquele dia, seria preciso escolher cuidadosamente todas as palavras que daria vida em seus lábios. Com a mesma certeza que o tato dos cegos, sentia que seriam as últimas.

Ainda assim, falou de sentimentos, sorrisos e futuro. E mesmo sem conseguir dar uma atribuição lógica para isso, sabia que tudo era feito carinhosamente com as pinceladas mais doces da sua sinceridade. Desenterrou os sonhos de outrora e os entregou ali. Foi minuciosa nas palavras, pois aprendera a presentear com flores aqueles que se vão.

Por isso, falava tudo num futuro do pretérito bem claro, mas que ele nunca entenderia, pois sempre fizera questão de viver apenas entre os números. Mas ela foi verdadeira. Ele achou que entendeu. Ela sempre estivera ali. Ele sempre soube que ela estaria ali – mesmo sem saber ao certo o que significava essa conjugação. Foi quando amanheceu aquele céu cinza em um dia frio. Então, algo mais forte separou, ali, o futuro e o pretérito.

A noite caiu e trouxe consigo a hora de maior angústia – aquela em que não se pode mais prolongar o fim. Se houve um último beijo, nem lembra mais. Talvez o cansaço tivesse falado mais alto, e ela continuasse optando por evitar despedidas. As últimas palavras foram ficando trôpegas, embriagadas pelo sono. Então, assim como a sua história , foram perdendo a força, sussurraram alguma coisa qualquer e perderam a importância. Sem consciência de si, calaram-se.

 

Outros-líricos

1 de janeiro de 2012 0 comments