Diálogos com Seu Moço XIV

Cai a chuva, sopra o vento, canta a nuvem em trovoada. Cai a ficha, sopra o choro, canta a oração há tanto guardada. Esse cântico pede calma e calidez – é reza ensaiada. Essa tempestade traz alago e alívio – é água salgada. Os pingos desenharam o vidro ou é minha vista que está embaçada? Seu Moço, não sei se te peço uma prece ou um lenço. Se preciso de fé ou de barco a remo. Meu peito é marujo perdido no temporal – cansado de nadar em viagem, mas temente às parábolas sobre demônios que habitam na margem. Não sei mais o que dizem a bússola e os versículos, não sei se estou indo em frente ou andando em círculos, se a dor vem dos músculos a nado ou dos olhos ao nada.

Eis que se silencia a oração e vai embora a trovoada.

Me conta, Seu Moço: onde acaba a metáfora e começa a vida? Onde se fecha a imaginação e se abre a ferida? Depois que a água entra pelo ralo, depois que as velas se apagam, depois que se rasgam os salmos, depois que o céu está calmo, depois que se esgota o dilúvio pagão e o divino conselho, depois que a gente fica nu em frente ao espelho… Ah, como eu pude duvidar? Minha terra firme também é minha crendice: palavras, são elas minha única salvação. Depois de despida, palavras são o meu reflexo. Eu estava enganada, Seu Moço. Hoje, é só lápis e papel que te peço.

Ainda bem que você não ficou

estAinda bem que você não ficou, menino. Eu devia ter te agradecido por sair de mansinho no meio da madrugada. Seria loucura acordar com tua respiração alta dançando sobre o piso escorregadio dos meus ouvidos outra vez. Se eu olhasse de novo teu rosto sereno amassado pelo encontro com o travesseiro, tua barba desalinhada com o decalque dos meus dedos, teu perfume brincando de se esconder em meu lençol… Quem iria me impedir de continuar sonhando depois de acordar? Quando você me desse um sorriso sonolento, me afagasse os cabelos e me afogasse em teu mar de pelos negros, como eu colocaria os pés de novo no chão? Quem iria me dizer que eu era só mais um barco passageiro na tua praia, quando minhas velas quisessem descansar?

Ainda bem que você não voltou mais, menino. Algo na tua presença já começava a me amedrontar – e não houve tempo de entender se era o ruído dos teus passos na chegada ou o barulho estridente da tua ausência. Me amedrontava aquele olhar me esperando do outro lado do portão, que me despia antes mesmo de eu recuperar o fôlego após os lances de escada. Eu desviava os olhos fingindo procurar a chave certa, mas nunca consegui evitar a nudez. Esse teu olhar me assustou desde a primeira vez, menino. Acho que sussurrei isso num sonho certa vez. O que eu nunca te contei é que medo é o alimento das borboletas que voam pelo meu estômago. E como eu temi esse dom que teu olhar carrega de me encurralar contra a parede de mim mesma! Enquanto abria o cadeado, eu encarava por trás das lentes de grau o meu próprio medo de querer pousar. Quem iria me alertar que eu era só mais uma onda na tua superfície, quando meu peito chamasse pro fundo do mar?

Ainda bem que você não ligou mais, menino. Quando eu ouvisse tua voz mansa, talvez eu não lembrasse que era tolice fazer mais um convite. Quem sabe o que aconteceria se você parasse em meu portão outra vez… Na verdade, eu já começava a decorar o nosso roteiro: a gente passearia de mãos dadas pelas notícias do dia. Entraria pela curva dos causos de infância. Faria parada no silêncio das bocas, onde os corpos conversam entre si. E terminaria a noite com a aspereza dos teus dedos pelas minhas costas nuas e a leveza de piadas ruins. Quem iria me convencer de que aquilo era só mais uma aventura de marinheiro, quando meu desejo pedisse pra ancorar? Em vez disso, eu aprenderia mais alguns dos teus apelidos. Saberia o que dizem os autores dos teus livros preferidos. Desenharia carinho com as unhas no volume da tua barba. Respiraria o teu cheiro no meu lençol. E te pediria pra ficar.

Mas ainda bem que você não ficou, menino. Deus me livre de voltar a acreditar em portos seguros outra vez.

Imagem: divulgação.

Alma de passarinho

passarinhoEu te falei, moça, que os olhos não alcançam onde dobra a estrada. Que não faz sentido sofrer pelo caminho desconhecido, pois da lama nasce a grama e cresce a flor. Que o longe fica mais perto quando descobrimos que o que nos basta nunca deixou a morada em nosso peito. Eu te aconselhei a confiar em tuas asas mais que em teus passos, lembra? É que pernas fraquejam e pés compõem tropeços. Mas alma de passarinho sempre volta a cantar quando dança com o vento. E eu sei, moça, que cê foi feita pra voar.

Eu entendo, moça, que a gente guarda sinas difíceis de evitar. Dentre vícios viscerais; santos, signos e ancestrais; pressa pra ir e preço a pagar. Guarda comida no congelador e roupa que não serve mais. Mas eu sei, moça, que cê não consegue guardar sentimento pra depois. É essa tua mania de intensidade, de não caber em nenhuma metade, de viver a sensação até ela se esgotar. Por vezes, isso te prende num conta-gotas; em outras tantas, te faz transbordar. Não adianta tentar disfarces, teus olhos são transparentes. Do medo, ao amor, à dor, à indiferença – em tudo eu te vejo intensa.

Mas é verdade que essa tua sina já deixou sinais difíceis de apagar. Eu sei que por trás desse vestido de algodão há duras cicatrizes do tempo passado. Vazios dos cacos em que te partiram e jamais puderam ser remendados. Moça, o que somos senão flores nascidas do pior que tentaram fazer de nós? Rega teu jardim. Carrega teus espinhos. Na tua bagagem segura a coragem que te fez ser a mulher que cê se tornou. Dia se põe, dia nasce, e a gente põe pra fora o que nos destruiu e renasce – quantas vezes preciso for.

E o amanhã realmente se tornou outro dia, e esse dia então é hoje. Agora é o tempo que se vive, daqui a pouco já é tempo novo. As palavras ditas, as promessas feitas, os pensamentos esculpidos – se nada mais faz sentido, se reinventa. A mudança é um dos privilégios de quem vive. E coração com medo também é coração com vida. Ora, então encara esse temor pelo que vem em seguida. Logo, o caminho vai voltar a dobrar a estrada. Teus olhos não podem ver o que está além, mas teus ombros sabem o que são capazes de suportar. Correr pro raso ou correr o risco só dependem de você.

Moça, me escuta mais uma vez: confia em tuas asas. O mundo lá fora é grande demais pra cê ficar presa a esse mesmo ninho. Deixa o vento te carregar. Voa, passarinho!

Imagem: divulgação

Me toca, rapaz

musicaMe toca de novo aquela música. Deixa a tua voz ser o som ambiente da minha rua. Não precisa afinar as cordas, dedilha na minha cintura as tuas notas. Nota que eu vou te sorrir com os olhos a cada vez que perceber essa harmonia. Te demora mais um pouco. Em meu olhar desenhei tua partitura. Esquece a partida, apenas me aceita como guia. Deixa eu traçar o percurso por entre as batidas da tua percussão. Ainda que o caminho seja breve. É que o coração já havia esquecido como é bater tão leve. E ainda que o nascer do dia me leve pra longe… Me toca – só mais uma música, rapaz.

Me toca de novo o corpo. Deixa a tua língua coreografar sobre minha pele nua. Desvenda o ritmo da minha respiração a cada vez que tua boca procurar a minha nuca. Domina as ondas do meu arrepio e faz elas vibrarem na tua frequência. Deixa teu timbre escorregar pela barba escura e roça aquela canção em meu ouvido – bem baixinho, quase um gemido. Troca a posição, muda o disco, modula a tonalidade. Me faz ter fome da tua intensidade e sede do teu suor. Deixa eu dançar em teus braços, me dividir em teu compasso e me encontrar inteira em teu tom. Junta teu sussurro ao meu e vamos compor um novo acorde. Ainda que a luz da manhã alta nos acorde, e o relógio tenha pressa, talvez haja tempo para ensaiar outra vez. Me toca – só mais uma noite, rapaz.

Eu prometo que terei o poema certo pra tua melodia. Confia na minha prosódia, e vou encaixar meus versos no teu som na mesma medida em que encaixo meu corpo ao teu. Talvez eles narrem como tuas gírias fazem cócegas em meus lábios. E eu consiga fazer rima do teu sotaque com o meu. Talvez eu até mesmo te conte que os risos intervalando os beijos nunca foram à toa – era a inspiração soprando em meu ouvido um pedaço de realidade que iria virar métrica. Então faz a canção, rapaz, que eu tenho a poesia. Traz o violão, eu canto a estória. Te dou minha letra, você traduz a cifra. Quem sabe, no fim, a gente decifra de onde vem essa sintonia. Vem, antes que amanheça o dia. Só mais uma música, só mais uma noite. Me toca, rapaz.

Crônica a uma flor

11750682_959927437382288_753343428708024257_nMinha mãe nasceu junto com a chegada da primavera. Sua presença foi sentida como um anúncio. Ela tem o hábito de sorrir largo e colorido. Tem cheirinho de lavanda, feito pétala. Ela é MPB, vestido longo de tecido e pingente de Nossa Senhora. É brisa e ventania. De cabeça erguida e tronco firme, sustenta o peso de muitos galhos e a leveza de suas folhas. É unha feita em frente à televisão. É conversa pelos cotovelos, todas carregadas de encenações. Ela é norte, bússola e âncora. Carrega uma coragem bonita de ser quem ela é. Fala o que pensa, cospe as mágoas, deixa tudo em pratos limpos. Eu sempre desejei ter um pouco dessa sua fluidez. Da sua transparência e obstinação. Da calmaria da sua sombra. Ela é sabor de lar.

Minha mãe é virginiana nata. Basta que um dentre a centena de anjos de porcelana que decoram a sala esteja posicionado em ângulo diferente do habitual para o seu radar apitar. Tudo deve estar arrumado e organizado com louvor. Se alguma visita está prestes a chegar em casa, então, é montada uma operação de guerra. E ela é uma excelente comandante, assumo. Quando está um pouco nervosa, ela troca os nomes das três filhas. Mas, misteriosamente, nós sempre sabemos com quem ela está realmente falando. Aos 14 anos, quando pedi para escrever com giz de cera nas paredes do meu quarto, achei que a tinha condenado ao desgosto eterno. Mas, com muito esforço, ela cedeu. E, por sorte, aprovou o resultado. Doze anos após eu ter saído de casa, quando vou visitá-la em alguns fins de semana, no máximo ela fecha a porta do meu quarto pelo menos umas cinco vezes, “pra ninguém ver a bagunça”. E durante todo esse tempo, ela ainda me ensina a fazer molho branco por telefone e passa receita de chá para tosse por whatsapp. Tudo minimamente detalhado. Ela é força motriz.

Minha mãe é professora por vocação. Ela se doa tão lindamente ao que faz que nem percebe o quanto dela é transmitido naquelas lições. Seus alunos e ex-alunos estão por toda a parte. Não há uma única vez em que eu saia à rua com ela e não escute um “Oi, pró!”. São chuvas de sorrisos e acenos.Todos a amam. É porque ela nunca se contentou apenas com a luz do conhecimento – ela quer ser a doçura do incentivo, o braço amigo, afago e dureza sempre na dosagem exata. Minha mãe também foi aluna. Depois dos 40, decidiu que ia entrar para a faculdade, na mesma época em que eu iria fazer vestibular. Estudamos juntas. Depois veio a pós-graduação, os cursos de extensão e madrugadas perdidas em frente ao computador. Ela é orgulho que transborda o peito.

Minha mãe sempre foi minha inspiração. Com ela, aprendi sobre persistência, integridade, humanidade e respeito. Entendi sobre escolhas e consequências. Conheci a importância da confiança. Dela, herdei o hábito de balançar a perna antes de dormir. A cabeça de vento que me faz ser campeã na arte de queimar panelas é a mesma que já fez ela deixar dezenas de panos de prato pegarem fogo. De sua estante, herdei também muitos dos livros que li durante a adolescência. Se eu fechar bem os olhos, ainda posso sentir o cheiro das páginas amarelas dos Machados de Assis e Josés de Alencar. Assim como ela, comecei a dar aulas de reforço escolar ainda cedo, para ganhar um trocado. Quando finalmente comprei o meu primeiro livro (um Paulo Coelho, confesso), rabisquei na contracapa o mesmo que eu via escrito em todos os seus exemplares: “Este livro pertence à minha coleção. Devolva-me!” Obviamente eu não tinha uma coleção de livros. Mas tinha uma coleção de passos que eu que desejava seguir. Ela é exemplo.

Foi minha mãe, aliás, quem me ensinou a ler. Ainda guardo a recordação do dia em a cartilha branca estampando ABC entrou lá em casa, em seus braços. Ainda faltavam alguns meses para eu entrar na escola, mas a mistura de ansiedade e curiosidade não contiveram a espera – folheei-a, muitas e muitas vezes, tentando decifrar o que estava além dos desenhos. Então, em uma tarde ensolarada, ela se sentou comigo no sofá debaixo da janela e me ensinou o que eram as vogais. Em seguida, vieram as consoantes. Logo depois, as primeiras sílabas. Tarde após tarde, vencemos aquela cartilha. Depois, antes que ano letivo realmente começasse, ela pacientemente apagou todos os exercícios que eu havia respondido a lápis. Eu nem me importei em ter que fazer tudo de novo – minha fome pelas letras havia apenas começado. Minha mãe me presenteou com um dos maiores prazeres que eu pude conhecer. Ela é a doação mais generosa.

Minha mãe também foi a minha primeira leitora. Alguns anos após me alfabetizar ali, na nossa pequena sala, ela adentrou com um caderno de arame nu. Os “101 Dálmatas” sorriam na capa. Foi ali que, escondido, eu rabisquei minhas primeiras poesias. As rimas infantis soavam cômicas, mas eu mantinha o peito inflado de orgulho do meu trabalho. Uma noite, enquanto ela tomava banho, eu invadi o banheiro esbaforida, perguntando se ela queria ouvir meus poemas. Do outro lado do boxe, pacientemente, ela me incentivou a lê-los. Eu recitei um por um, impondo minha voz ao barulho d’água, triunfante. Ela não riu em momento algum. Elogiou com maestria aqueles versos bobos e me motivou a continuar escrevendo. Mal sabia ela que estava abrindo as portas para a maior paixão que eu carregaria pela vida. E eu continuei. Pelos poemas tolos, pelos diários, pelas cartas, pelas crônicas, pelas aulas de Redação, pela faculdade de Jornalismo, pelo Revertério, pelo Estórias pra Contar… Sem saber por que ou para que escrevo. Eu ainda continuo, mãe. E, hoje, eu escrevo para você.

É porque – devido à minha coleção de silêncios – você talvez não saiba que, mesmo depois de tanto tempo sem bater à porta do seu quarto em madrugadas de pesadelo, sua voz continua sendo o meu maior refúgio. Você é a melhor representação daquela velha e boa metáfora do porto seguro (e eu sou completamente apaixonada por metáforas). Quando não é o bastante, você é colete de salva-vidas e bote de resgate também. Suas palavras têm o poder de me atravessar feito água fria em queimadura. É seu o alívio onde minha alma repousa com mais tranquilidade. E, até hoje, ainda posso te ver com aquela mesma paciência e borracha na mão, pronta para me ajudar a abrir as portas, corrigir os erros e apagar as linhas que precisam de recomeço. Você sempre acreditou em mim, mais do que eu mesma. E eu, que acredito em tão pouca coisa, tenho a certeza de que não é possível existir um ser humano mais fantástico. Se eu pudesse, embrulharia numa caixinha com fitas de seda todo o bem que existe nesse mundo e entregaria em tuas mãos. Porque você é a flor mais linda da primavera. E o maior amor que eu já conheci.

Feliz aniversário, mãe!

“Eu tenho muitos amigos. Eu tenho discos e livros. Mas, quando eu mais preciso, eu só tenho você.”

“Eu tenho muitos amigos. Eu tenho discos e livros. Mas, quando eu mais preciso, eu só tenho você.”