Veja, meu bem

O jornal anuncia um novo aumento no preço da gasolina. O vizinho sussurra algo sobre uma nova manifestação pelas ruas. O motorista do táxi espera minha aprovação pro seu comentário sobre uma nova denúncia de corrupção. Meus olhos já aprenderam a fingir interesse, mas no fundo estão vazios. É que o mundo lá fora continua girando em sua rotação, mas, aqui dentro, alguma coisa saiu de órbita.

Veja, você. Ninguém na rua está comentando sobre o arco-íris desbotado no céu – e nenhuma notícia tem me preocupado mais do que esse fato. Eu permaneço com minha caixa de lápis de cor debaixo do braço, tentando devolver as cores que a dureza do tempo levou. Você me prometeu pincel e aquarela, mas o dia está tão cinza que eu não te vejo cruzar a neblina. Sobre as dores – nos músculos e no peito – tento ignorá-las como as vozes do telejornal, enquanto ainda te espero.

Veja, meu bem. Debaixo do arco-íris, o jardim permanece dormente. Talvez a gente tenha jogado de qualquer jeito as sementes e virado as costas cedo demais. É que o cultivo exige paciência e cuidado. É preciso regar os brotos e aprender a lidar com os espinhos. É preciso coragem pra podar um ramo e deixar outro mais bonito nascer. Eu te falei que amor é feito rosa nascida no quintal, lembra? Mas, por aqui, nenhuma flor nunca mais desabrochou. O que ficou foram promessas murchas destoando do bem-querer e pétalas secas combinando com a terra escura.

Hoje não vou terminar a jardinagem. Estou de saída. Não, dessa vez não vou dar o teu endereço ao taxista. Eu vou partir pra onde eu possa reorganizar as minhas órbitas. Talvez você não tenha visto, meu bem, as feridas que eu precisei manter abertas pra você gostar de mim. Não insista em me ter por perto, porque eu não me reconheço mais nessa pessoa que anda se moldando ao teu querer. A verdade é que eu sou mesmo uma coleção de cacos quebrados, e talvez esteja na hora de desenhar tua cicatriz.

Veja, meu bem. Gasolina vai mesmo subir de preço. Presta atenção ao noticiário, porque eu sei que te interessam as mudanças que estão por começar. Quanto a nós dois, ou é o começo do fim, ou é o fim.

[Este texto faz parte do projeto Cinco Lados e é inspirado na música “Veja Margarida”. Somos 5 escritores com o desafio de escrever sobre 15 temas diferentes. Acompanhe esta saga lendo as outras quatro faces desse projeto: Acenda Essa Luz, A Gangorra, Casa de Seu Frô e Parede de Sonhos.]

Continua, menina

Não te desespera, menina. E nem tenha pressa, que a vida é caminho de imensidão e escolha em encruzilhada, é horizonte a se perder de vista e desencontro de estrada. No meio de tanto chão, até a dor tem o seu trecho. Se a sola do sapato não aguentar, caminha descalça mesmo. Desenha teus passos com sangue se preciso for – te garanto que lá na frente as cores impressas na terra farão sentido. Coleciona teus calos e teus choros calados, teus gritos de angústia e teu silêncio engasgado. Só não para de andar, menina. Você é completa demais pra se permitir desistir.

Não perca a fé, menina. Principalmente a fé em você mesma. Não deixe que ninguém te faça duvidar de que você é capaz. Sempre que mergulhar na escuridão, e o peito começar a doer, lembre-se de todas as vezes em que você acreditou que iria sufocar e, em vez disso, superou. Não deixe a maldade te confundir. Quando o egoísmo e o desamor te abrirem feridas, carrega elas como a certeza de que o caminho oposto que você escolheu é mesmo o caminho certo. Não te envergonha das tuas cicatrizes. Elas são provas de que as tempestades passam e, no fim, a gente sobrevive.

Não te diminui, menina. Não deixe que o tempo que você passou se envergando pra caber em algumas convivências te faça esquecer o teu real tamanho. Se alguém te fez acreditar que você era um pouco menor que isso, eu vou fazer questão de te lembrar, todos os dias, das virtudes incríveis que você possui. E dizer com a maior pureza de sinceridade que a beleza que te habita o peito é tão fascinante que torna a tua imagem apenas um detalhe pra fazer os olhos sorrirem. Te ergue, menina. Eu sei que que nem você mesma tem noção da tua altura. Mas, para quem está ao teu lado, tua sombra é caminho de inspiração.

Não te acomoda, menina. Não aceita nada que seja menor do que o tamanho dos teus sonhos. Eu te conheço o bastante pra saber que metades não te preenchem. Por isso, onde o melhor que puderem te oferecer ainda for pequeno demais pra você, não te demora – seja num emprego, num manequim ou num amor. Não perde teu tempo com o que não te serve. Em vez disso, canaliza tua energia onde ela nunca será em vão: em você mesma. Não tenha culpa por se colocar em primeiro lugar ao menos uma vez. Não tenha vergonha de se amar como você é. Você deve ser a sua melhor casa e melhor companhia, menina. E mesmo assim, se algo aí dentro não tiver te fazendo feliz, saiba que nunca é tarde pra mudar os móveis de lugar.

Não tenha medo de levantar e ir embora quando o preço pra ficar for alto demais. Recomeços são difíceis, a gente bem sabe. Mas é que no meio de tanto chão, até a dor tem seu trecho. E assim como a paisagem virando borrão na estrada, uma hora ela também passa. O que não pode passar é a tua vontade de seguir em frente. Só mais um passo. Só mais um dia. A vida é grande e tem o teu tamanho, menina. Continua.

[Este texto faz parte do projeto Cinco Lados e é baseado no tema “Conselhos que você daria a alguém”. Somos 5 escritores com o desafio de escrever sobre 15 temas diferentes. Acompanhe esta saga lendo as outras quatro faces desse projeto: Acenda Essa Luz, A Gangorra, Casa de Seu Frô e Parede de Sonhos.]

Eu te esperei

Eu esperei te ver pelo olho mágico da porta do meu apartamento. Olhar firme e gravata frouxa. A cada fim de tarde, ao coar o café, te esperei chegar de surpresa e tocar a campainha com o mesmo frio na barriga que eu tocaria em teu rosto com as costas das mãos. Se desculpar por estar vindo direto do trabalho, culpar o metrô cheio pelo paletó amassado e justificar que não aguentaria mais um dia sem ter a certeza de que desatar não combina com nós. Então não seria necessária mais uma única palavra – a gente se amarraria num abraço e colocaria fim nas pontas soltas. Quem sabe então o peito cedesse à agonia, e o único aperto que ainda nos acompanharia fosse o do entrelaço dos nossos braços.

Eu esperei te ver no laço mais bonito a que eu já me atei. Te esperei trazer em teus olhos, quase embalada em papel de presente, a certeza de nós. Sussurrar em meu ouvido que nenhum terreno movediço iria engolir os nossos passos – e me fazer reconhecer na tua voz a minha melodia preferida. Segurar em minha mão para só então eu encontrar o equilíbrio que não mais conhecia. Me guiar até o porto que fizemos seguro, aonde, perdida, eu já não sabia chegar sozinha. Aí quem sabe a minha âncora voltasse a beijar o teu mar, e o barulho do vento lambendo as ondas me fizesse lembrar que não há mistura mais gostosa do que a minha gargalhada na tua. E quando a gente voltasse à superfície depois de um mergulho sob a lua, essa seria a única água salgada que voltaria a escorrer pelo rosto outra vez.

Eu esperei te ver no terreno em que escolhi pra fazer morada. Te esperei chegar com todos os teus móveis e manias. Trazer os tijolos e iniciar uma briga sobre quem prepararia o cimento e as vigas. Mas não haveria muito trabalho – era só o teu cheiro se roçar em meu nariz por alguns segundos pra eu saber que o meu lar sempre esteve alicerçado no teu peito. Quando meu arrepio abraçasse teu toque, quando teu beijo lembrasse meu norte, quando o teu suor desenhasse em meu corpo a minha tatuagem mais bonita… Ah, rapaz, então eu faria do nosso amor o meu chão. De paredes seguras, bagagens velhas não ameaçariam entrar. A gente passaria o trinco na porta e se aconchegaria num sofá pequeno – talvez defronte a uma lareira, talvez no meio da sujeira de embalagens de salgadinhos que espalhamos por lá. Você cantaria em meu ouvido. Eu te retribuiria com o meu mais terno riso. E voltaria a acreditar que não há lugar mais feliz para morar do que na confiança da tua promessa.

Os lençóis limpos que estendi pela cama ainda estão aqui, como testemunhas. O café coado para dois também. Assim como o teu chocolate preferido no meu carrinho de supermercado, as folgas agendadas no trabalho, os compromissos engavetados e a engenharia dos planos. Em cada pequeno detalhe dos meus dias habitou um pedaço de espera silenciosa pelos teus mínimos sinais. Qualquer pessoa que cruzasse por mim na rua podia ler o vazio dos meus olhos – eu nunca fui boa com teatro, é bem verdade. Mas a campainha permaneceu em silêncio durante todo esse tempo. Assim como tuas canções de aconchego, alarmes de desejo, palavras de sossego e ruídos de carinho. O teu bem-querer ficou mudo. E as únicas coisas que se espalharam pelo chão foram a correspondência diária e as tuas desculpas tortas.

Talvez a tua completa ausência seja apenas a soma das pequenas faltas que você vinha aos poucos me entregando, e esse quociente seja o resultado daquilo que não tem mais conserto. Mas eu também não sou boa com matemática, você bem sabe. Talvez por isso, nem na tua melhor explicação, eu nunca tenha conseguido entender a ordem dos fatores que nos transformou em subtração. O porquê das coisas continua sendo incógnita. Minha cabeça se partiu em interrogações; e meu peito, em reticências. Mas a vida quis assim e ponto. Então, finalmente desisti de esperar clareza de todos esses sinais – os de equação, os de pontuação e os do teu bem-querer. É que agora fiz as pazes com os ponteiros do relógio – eles me apontaram que é hora de trocar novamente os lençóis e o xis da questão. E que não vale a pena forçar o que deve ser natural, nem pedir o que precisa ser espontâneo – não há tempo perdido que dói mais do que aquele em que esperamos o outro se tornar grande o bastante pra caber no tamanho do nosso afeto.

Faz alguns dias que já não espio pelo olho mágico. De tanto dar de cara com o corredor vazio, percebi que é hora de olhar para dentro. É preciso tirar a poeira de tudo que ficou adormecido enquanto, inerte, eu me aninhava sozinha no sofá pequeno segurando um café frio. Desliguei a campainha, só pra garantir que nada vai atrapalhar a faxina. Depois de lavar a roupa de cama, vou me desfazer da correspondência acumulada e de tudo mais o que estiver pela bagunça do chão. Mas antes disso, vou coar um café novo. Somente uma caneca, dessa vez. E bem passado, como tudo agora deve ser.

Diálogos com Seu Moço XV

Olha, Seu Moço, aqui em meus pés costumava habitar um chão. Não sei por onde eu andava quando a vida me puxou o tapete e desnudou o vão. Paredes se transformaram em abismo. Céu me acenou em cinismo. Velocidade me dilacerou o pulmão. Em queda livre eu permaneço aprisionada – o ar aqui fora chicoteia meu corpo sem perdão. Paraquedas não funciona, analgésico também não. Nada me alivia a dor de quem cai em incerteza no meio da escuridão.

Sabe, Seu Moço, naquele chão eu costumava desenhar meus passos. Faço de conta que esqueci os planos do próximo encalço, pra ver se alivia essa agonia da falta de direção. Caço jeito de fingir que desfiz o laço antes de desatar o que era nós. Perdida no escuro, tateio na tentativa de erguer muro em volta do coração. Tijolos não funcionam, promessas também não. Nada me alivia a dor de quem cai com a certeza dos cacos que ficam pelo chão.

Escuta, Seu Moço, naqueles passos costumava existir sentido. Havia norte, bússola e razão. Onde o caminho era desconhecido, flor nascia no horizonte e o medo saltava pela curva veloz. Havia sorte, girassóis e paixão. Agora, só o que tenho sentido é uma câimbra forte rompendo o peito. Sem jeito, me entrego à gravidade que me engole sem pudor. Fugir não adianta, gritar também não. Seu Moço, me diga a verdade, por favor: será que algum dia eu vou encontrar algo que me alivie essa dor?

Adeus, morena

Não precisa desviar os olhos como quem de repente criou um interesse incomum pela pintura desbotada da parede da sala, morena. Eu consigo ler o vaivém do teu olhar mesmo de esguelha, enquanto fito meu livro. Há tempos que as letras deixadas pelo rastro de fuga das tuas pupilas têm me entregado o aviso prévio. Você evita me encarar porque sabe que, de todas as obras que eu já li, teu avesso é a única que posso recitar de cor por completo. Eu conheço tuas entrelinhas. Decifro tua caligrafia no excesso de tinta e compreendo tua alma na falta de coesão. Agora, teus olhos me narram uma página que eu nunca antes tive acesso – são olhos de epílogo.

Não adianta repetir que nada está acontecendo numa tentativa tosca de adiar o inevitável, morena. Eu posso ouvir as batidas teu coração mesmo quando teu peito tenta se esconder debaixo do chuveiro. Eu finjo que aceito tua negativa e me demoro um pouco mais guardando a escova de dentes. Por entre os pingos d’água, acompanho a melancolia que escorre em desespero da música que compõem os teus batimentos cardíacos. Tuas notas e teus acordes, tuas cordas e teus foles, teu timbre eu também sei de cor. Decorei o teu ritmo e teu tom, sei sussurrar tuas rimas e teu som. Agora, eles sopram uma melodia que não reconheço – dessas que não cabem bis.

Não há por que levar teus pertences aos poucos como se eu não fosse perceber a ausência, morena. Eu sou capaz de enumerar os teus pedaços no meu apartamento com a mesma precisão que os quadros daquela exposição do Portinari. A posição das tuas camisetas estampadas colorindo os meus cabides eu também sei de cor. Sei como teu shampoo pincela aroma de orquídeas em meu banheiro, e os objetos de decoração da sala posam na mais perfeita sintonia sempre que teu transtorno obsessivo compulsivo passa por lá. Mas eu tenho sentido que em teu sorriso não mora mais aquarela, e teus braços sutilmente têm deixado de ser meu cavalete. Agora, não consigo ver beleza na obra que você tem deixado pra trás – uma tela vazia.

Ah, morena, se você soubesse que a arte da despedida eu também sei de cor… Já vi tantas chegadas e partidas, por tantos portos já carreguei minha mochila, tantas âncoras sob meus olhos já se dissolveram em pó. Por isso vai, morena. Faz de uma vez uma mala com tuas camisetas e teu bom humor no café da manhã. Sobre os teus que fizemos nossos, há livros na prateleira e cheiro de hidratante na roupa de cama. Não esquece os quadros da varanda; o violão e a concertina. Se por acaso vir uma lágrima escapulir dos meus olhos antes de fechar a porta, não se preocupe. É só o meu peito transbordando a ausência que você tem me afogado em doses pequenas a cada dia. É só minh’alma sussurrando pro meu corpo que é hora de respirar outra vez.

Adeus, morena.

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