Diálogos com Seu Moço XVI

Essa canção é sobre tudo o que não foi, Seu Moço. Sobre o que teria sido se ela não se fosse e sobre o presente agora passado sem piedade jogado ao fundo do fosso. Nota que essa canção traz nota desafinada desafiando o bom tom. Não me culpe: desde que ela partiu, Seu Moço, dei falta de parte da minha partitura. Pés titubeiam em falta de direção, mãos tecem dedilhadas ao vão, cordas adormecem quando se acorda o violão, e rimas se esquecem de rimar. Desconfio que meu ritmo se foi retido em suas retinas. O vazio virou poesia, a poesia virou cifra, mas ela não se virou jamais nem pra uma última olhadela pra trás. Não há quem decifra a razão de ir e a vazão de ficar. Seu Moço, se o senhor ainda hoje escutar ao longe um choro – talvez seja somente um corpo em falta de cantar em coro – apenas escuta. Não tenta adivinhar se ele vem do meu violão ou do meu coração.

Essa canção é sobre tudo o que passou a ser, Seu Moço. Sobre as faces que ganharam seu rosto, lugares que de suas curvas imitaram o fino contorno e brisa de fim da tarde com o cheiro do seu cabelo grosso. Tem pedaços dela espalhados em toda esquina, e eu sigo tropeçando a cada tentativa de esquiva. Nas ondas daquela respiração ainda mora a minha frequência. Pelas ondas daquele suor ainda me afogo em abstinência. Minha letra tenta cantar sobre ponto final, mas meu peito só compõe reticência. O tempo não me acode, eu não consigo tocar novo acorde e permaneço inerte até que o som do seu passo fazendo outro par me acorde. Não me entenda mal, Seu Moço: eu bem sei que meus dedos andavam calejados por embalar aquela antiga cantiga. Eu e ela fomos dueto que desafinou e no fim ninguém mais encontrou a saída. Essa canção é sobre saudade do que jamais poderia ter sido. Seu Moço, se o senhor ainda hoje escutar ao longe um lamento polido – talvez seja somente a acústica de um peito em busca de abrigo – apenas escuta. Não há mais nada que se possa ser feito, meu amigo.

Mudança

O mais fácil veio primeiro. Havia mais de um mês que os grossos casacos de inverno repousavam tranquilos em seus cabides, hibernando sem preocupação. Embora o tempo da cidade gostasse de contrariar o prenúncio das estações, até então nem uma fina garoa ou dia cinzento trouxera consigo a necessidade de interromper aquele descanso. Por ora, pois, as vestes pesadas não tinham serventia. O alarme soou cedo numa manhã de feriado, iniciando o trabalho e atordoando-os. O primeiro cabide foi despido, e a caixa aberta no antigo chão de taco, ao lado de um par de chinelos compridos, engoliu o primeiro – um branco felpudo. As dobras desconheceram qualquer tentativa de capricho – um a um, desajeitadamente eles foram preenchendo o interior da caixa. E então os casacos voltaram a cochilar, agradecidos. E os cabides ficaram todos vazios.

O guarda-roupa foi aos poucos se acomodando dentro das caixas de papelão. Assim como a estante de livros, o armário da cozinha e o raque da sala. Dentro da casa, os móveis ficaram inteiramente nus. Eu passava por eles sempre de cabeça baixa – não queria admitir, mas o embaraço perante aquela indecência me deixava as faces rubras. Era uma nudez tão natural e escancarada, revelando prateleiras vazias, que foi preciso encarar o inevitável. À beira da minha mudança, eu estava como todos aqueles móveis – nua. Não despida em frente ao espelho após o último banho do dia, enquanto refazia mentalmente a promessa de que a próxima semana traria a sonhada dedicação com a dieta. Eu estava nua diante de mim mesma, do meu real eu, daquilo que minhas largas portas espelhadas nunca foram capazes de refletir. Eu era meu avesso, e o que eu via pelo lado de fora me constrangia. Experimentei um pudor que nunca antes conhecera, nem mesmo diante do primeiro olhar masculino. Por alguns instantes, eu estava fora do meu corpo encarando cruel e assustadoramente cada aresta do meu próprio eu. O que ali era meu eu já não mais sabia. Eu, que sempre fui minha, entendi que acabara de me descobrir.

Autoconhecimento dói. Encarar um a um cada pequeno traço que me fez ser o que sou foi como uma sucessão de socos no estômago. Em vez de empacotar as certezas, joguei-as no grande saco azul de lixo, enquanto segurava a náusea. O livro que acreditei estar na coleção – a quem emprestei que nunca devolveu?, a blusa que jurava estar dobrada na gaveta – onde a perdi?, as taças de cristal ganhadas de presente – será que as quebrei?, os lençóis que de tão gastos mostravam-se inúteis – como nunca antes havia reparado nestes rasgos?, as pilhas de papeis antigos cuidadosamente guardadas – por que ainda as quero?, as luvas de lã caídas detrás da escrivaninha – nem lembrava que as havia comprado. Conhecer a si mesmo exige coragem, e eu fui pega de surpresa. Precisei rever todos os meus pertences – entender o espaço do que havia de novo, desfazer do que não servia, entrever o que faltava, alimentar o que era desejo e lamentar pelo que só então me dera conta de que havia perdido. O vislumbre foi certeiro e doloroso. Empurrei-o pela garganta abaixo, feito grosso comprimido de remédio engolido a seco. Eu estava inteiramente abarrotada dentro daquelas caixas de papelão, e o cárcere das suas paredes me sufocava. Tentei respirar fundo e senti algo entalado na garganta. Meu eu fracionado, engasgado, amassado e etiquetado. Para aonde vou? O papel rabiscado com o novo endereço em cima da mesa não dizia.

Mas autoconhecimento também liberta – entendi tempo depois. Desafoga o peito uma liberdade arrebatadora de finalmente entender que estamos presos à inconstância de ser o que somos. Quando o caminhão recolheu todas as caixas e estacionou em frente a um portão pouco habitual, que estampava o mesmo número anotado em meu bloco de anotações, entendi que logo os meus pedaços de eus estariam reunidos de novo. Porém agora eu sabia exatamente quem eu era, na indecência de cada fração e na essência do inteiro – e sabia ainda que dali a alguns instantes não saberia mais. Os risos que ri, os amores que amei, as lágrimas em que me afoguei, os portos que me distanciei, os abraços onde enterrei confiança, outros tantos de onde colhi desafeto… Estariam todos ali comigo, ou isso já não era mais eu? A dor vinha da descoberta do que eu já não era, ou da perplexidade do que poderia não ser mais? E então eu já não mais sabia se aquele solavanco no peito vinha da certeza de que tudo era passageiro, ou da incerteza do que compunha a corporeidade daquilo a que eu me habituara a chamar de tudo.

Mudança é privilégio – eu disse certa vez, sem saber que as lentas mudanças de espírito, e outras tantas avassaladoras e instantâneas, foram mais do que circunstâncias que precisaram ser vividas. Elas se tornaram meu eu. E, por serem eu, também estão fadadas a passar. Porque, ainda bem, é sempre possível mudar de novo. A ferida muda e vira cicatriz, a cicatriz muda e vira lição, a lição muda e vira a própria a construção da vida. O lagarta muda e vira casulo, o casulo muda e vira borboleta, a borboleta muda e vira metáfora. A metáfora muda e vira tinta eternizada debaixo da pele – porque, quando as mudanças deixam ir, elas também revelam o que fica.

Foi quando, enquanto desempacotava objetos de cozinha comprados especialmente para a nova morada, eu me dei conta de que – de fato – não existe o momento ideal em que nos encontramos preparados para receber aquilo que se transforma. O esforço para carregar as caixas e para sair do casulo naturalmente nos torna desprevenidos. Mas – por escolha ou imposição – a gente encara. E suporta. E sobrevive. E sorri. E se permite finalmente um pouco de orgulho por ser o que somos – com tudo o que deixamos pra trás e tudo o que acrescentamos. E por ter mudado então a gente dá graças – ao que se acredita sagrado, ou aos pares de mãos que dividiram os pesos da caixa – porque, quando as mudanças deixam ir, elas também revelam quem fica.

Agradeci sorrateiramente pelo eu que se formou enquanto estive distraída. Deixei um porta-guardanapos cair de volta dentro da caixa e sorri abobalhada para a parede branca à minha frente. Ela devolveu brancura, e o riso insistiu. Gargalhei tresvariada para o apartamento em partes vazio e gargalhei ainda mais ao ouvir o eco do meu próprio riso – era o meu novo eu respondendo que estava tudo bem? Gargalhamos juntos. Então puxei outra caixa onde uma etiqueta anunciava o aviso de “Frágil”. Rasguei-a com a força de um só gesto, e do pudor da nudez que me arrebatara ao fazer o processo inverso, descobri que nada sobrara. Bem sabia que, embora os últimos trechos houvessem me catalogado vastos calos nos pés, de frágil eu nada tinha. Desbravei o conteúdo dentro do papelão – o riso ainda estampado no rosto. Lembrei que sem o peso das caixas e o medo do casulo a gente nunca muda. Olhei para o teto, rindo para o meu mais novo céu. Quem nasceu com o dom das asas não esquece como se voa. Já era hora de ser meu recém-chegado eu. E então não ser mais. O instante é o meu novo lar.

Antes de você fechar a porta

Ei, não finge que não me viu. Teus passos pesados já te denunciaram por detrás do olho mágico. Não se preocupe em pentear os cabelos com os dedos antes de eu entrar. Hoje eu só vou te olhar nos olhos. Não trago a mesma ternura de costume, mas, ainda assim, sustenta meu olhar. Eu vim te entregar o que é teu por direito e dever – os discos de Cazuza, a camiseta que eu fazia de pijama e as palavras que não me desceram na garganta. Me olha nos olhos, porque apesar de pequenos eles são profundos, e eu gosto mesmo é de verdades completas. Me olha – é assim que eu me despeço antes de sair por uma porta. E eu não gosto de nada entreaberto, você bem sabe.

Não vou me sentar, pois não demoro. Pode ganhar tempo enquanto faz perguntas triviais fingindo que ajeita os óculos. Em se tratando de você, espera é um dos meus estados constantes. Agora, é sua vez de ter paciência: levanta a cabeça e não desvia a mira. Lê nas minhas retinas o roteiro dos planos que andei traçando. A viagem ao litoral. O álbum de fotografias da infância. O beijo de bom dia em uma manhã de quarta-feira qualquer. Todos eles escritos enquanto você segurava minha mão firme, feito professor guiando uma criança em suas primeiras palavras. Você quebrou o meu medo. Sussurrou em meu ouvido pedaços desse roteiro. Depois quebrou a ponta do lápis, e me deixou sem entender por que o papel não mostrava o resultado dos meus movimentos, por maior o esforço que eu fizesse.

Toma aqui todos os rascunhos e os papeis em branco. São teus. Não precisa repetir o meu nome e deixar a frase morrer num suspiro, como quem não sabe o que dizer. Eu não vim em busca de respostas. Mas faço questão de te entregar de volta todas as interrogações e lacunas que você me presenteou. Elas já estão empacotados há um tempo e não me fizeram falta um dia sequer. Viver na dúvida é para quem não se importa. Além disso, um dia a insegurança mostra que ela não combina muito bem com reciprocidade. A gente até demora pra entender a conta, mas não dá pra ignorar o resultado. Até hoje eu não compreendi essa equação, mas finalmente me dei por convencida. Então, já que estou aqui, vou te deixar saber que guardei os últimos anos como uma grande incógnita. Não, não me fale que é simples resolvê-la. Nada disso me interessa mais.

É que viver num conta-gotas não é para mim. Ou eu caminho de pés firmes na praia, ou eu mergulho fundo. Não me contenta o meio termo das superficialidades – disso você também sabe. E eu, que de tanto me afogar criei trauma de mar, aceitei te dar a mão e ir enfrentando as ondas. Você me carregou a cada passo e prometeu que era seguro. Lembra como eram felizes os dias sob o sol? Nós dois mergulhamos juntos. Não demorou muito para eu sentir a dor, mas sim para aceitar que ela era rotina. Só muito tempo depois enxerguei o motivo do acidente – você nunca havia me contado que você era raso demais.

Eu já aceitei tua covardia, veja bem. Só lute contra ela mais um pouco e não abaixe a cabeça de novo. Não se preocupe, hoje eu não vou chorar. Há dias que enterrei a última lágrima no ralo do banheiro. E também passei um tempo me martirizando por ter te endereçado tantas delas. Mas é porque eu sou feita de tantos – tudo o que eu sinto transborda. É da minha natureza recusar a água na cintura, a porta entreaberta, as meias verdades, os amores pela metade. Minha matéria-prima é a intensidade. Não me culpe – é que de tanto ser partida em cacos, assumi comigo mesma o compromisso de me manter inteira. Agora, meu peito só fica aberto para receber o que for do seu tamanho. Coração medíocre não me acompanha mais – graças a deus.

Aproveito também pra te devolver tudo mais que perdeu espaço nos meus dias – os “boa noite” atropelados, os carinhos em mão única e minha direção na tua contramão. Também estão aqui as ligações na volta do trabalho que ficaram pra depois, a espera pelos comentários das músicas que te dediquei e você nunca escutou, e aquela última confissão de amor que não teve resposta. Nada disso é meu, nem de longe se parece comigo. Eu nunca soube conviver com esses pesos, e me despeço de todos eles aqui.

Ah, só mais uma coisa. Antes você de fechar a porta, me olha nos olhos uma última vez. É que eu gosto mesmo é de verdades completas – isso sim é o que eu entendo por leveza. E, na verdade, eu só vim aqui pra te dizer uma coisa: você foi a mentira mais bem contada que eu já vivi.

[Este texto faz parte do projeto Cinco Lados e é inspirado no tema “Mentiras”. Somos 5 escritores com o desafio de escrever sobre 15 temas diferentes. Acompanhe esta saga lendo as outras quatro faces desse projeto: Acenda Essa Luz, A Gangorra, Casa de Seu Frô e Parede de Sonhos.]

Pedidos

Foi quando teus dedos embaraçaram nos botões da minha blusa que percebi que eu estava completamente às avessas. Por uma fração de segundo vislumbrei o pânico, mas teu hálito quente soprando brisa em meu pescoço varreu qualquer linearidade de pensamento. Me contorci por debaixo do teu corpo, sentindo você tatear com violência as brechas da minha renda. Outro botão se abriu, e eu imaginei quantos mais seriam necessários até você ver minha alma nua. Em que momento o efeito da velocidade das tuas mãos no tempo de intervalo entre os meus suspiros entregariam à tua razão a aceleração do meu peito? Desabotoou mais um. Essa brincadeira de me deixar desvendar já fugiu do controle – dia após dia, botão após botão. Todas as minhas fortalezas se tornaram vulneráveis, e os teus lábios aprenderam os exatos túneis e passagens secretas para transitar entre elas. Dia desses, numa dessas aventuras noturnas, o lençol macio dos teus pelos me fez desejar te ver entrando pela porta da frente, dizendo que veio pra ficar. Esperei a promessa se materializar dos teus lábios, mas ela nunca aconteceu.

Me promete que vai ficar, menino, e eu só te peço que me deixe às avessas. Puxa a alavanca desse calabouço tão assustador e me faz descobrir o labirinto desconhecido que me leva ao melhor de mim mesma. Deixa os meus olhos se calarem a contragosto quando eu assumir que estava errada quando jurei não ser possível haver pureza tão grande no vento que entraria quando eu esquecesse a porta aberta. Me promete, e então eu só te peço que pendure o paletó logo acima da maçaneta e tire os sapatos antes de pisar no tapete. Se você ficar, talvez eu simplifique as regras. É que o meu avesso teima em combinar com a tua bagunça, e nem a gravata que virou artigo de decoração do meu criado-mudo consegue prolongar por muito tempo a minha irritação. Me promete que vai ficar, e quem sabe a gente possa esquecer quantas vezes já nos enganamos com ventos passageiros em portas entreabertas e possamos, enfim, passar o trinco sem medo.

Me promete que vai ficar, menino, e só te peço que faça chá de canela. Eu ainda mantenho os velhos hábitos e especiarias, mas o meu paladar anda com mania de insistir no teu sabor. Não precisa nem me trazer na bandeja de cores fluorescentes, acompanhado por biscoitos de goma. Deixa aí mesmo no caneco de alumínio surrado sobre o fogão, que eu vou correr até a cozinha quando o aroma inundar a casa. Descalça, vou me aproximar em silêncio e observar com ouvidos atentos você cantar músicas em forma de ruídos aleatórios. Quando o improviso com as letras em inglês fizerem cócegas em minha barriga, o riso solto vai me denunciar. Então a nossa risada vai se misturar numa só, e o som dessa felicidade vai ter cheiro de canela. Você vai atravessar os braços por minha cintura, e eu vou abraçar o privilégio de pensar mais uma vez que essa é a sensação mais gostosa que eu já conheci. Me promete, menino, e talvez eu te entregue as palavras que ando colecionando secretamente em meu peito. E te diga que nunca mais quero experimentar algo diferente do gosto do teu chá, do aconchego do teu cheiro e da segurança do teu chão.

Eu estou aqui, aguardando. Ainda não ousei esvaziar uma parte do guarda-roupas, mas já sei escolhi mentalmente o destino que vou dar a tudo o que está ocupando o seu lugar. Também separei as notícias do dia que vamos comentar enquanto eu lavo a louça e você limpa a mesa. Assim como as rimas que nascem em meus lábios a cada vez que meus olhos descansam em teu rosto. Me promete que vai ficar, e então eu te escrevo poesias. Prometo descansar o lápis antes das dez, e depois, me descansar em teu peito. Eu ando sufocando com todos os versos de amor que tenho trancado no coração. Me promete, e então eu te entrego as sete chaves. Não demora, porque eu coloquei a água pra ferver no caneco de alumínio. Já tirei os chinelos na intenção de facilitar a minha espionagem – mas te espero sobre o tapete, pra você não desconfiar. Pendura o paletó detrás da porta, e não deixa nenhum medo atravessar por frestas entreabertas.

E por falar nisso, menino, não se esquece de passar o trinco. Me promete que veio pra ficar, e eu te prometo que esse é meu último pedido.

[Este texto faz parte do projeto Cinco Lados e é uma resposta para outro texto meu: “Promessas“. Somos 5 escritores com o desafio de escrever sobre 15 temas diferentes. Acompanhe esta saga lendo as outras quatro faces desse projeto: Acenda Essa Luz, A Gangorra, Casa de Seu Frô e Parede de Sonhos.]

Veja, meu bem

O jornal anuncia um novo aumento no preço da gasolina. O vizinho sussurra algo sobre uma nova manifestação pelas ruas. O motorista do táxi espera minha aprovação pro seu comentário sobre uma nova denúncia de corrupção. Meus olhos já aprenderam a fingir interesse, mas no fundo estão vazios. É que o mundo lá fora continua girando em sua rotação, mas, aqui dentro, alguma coisa saiu de órbita.

Veja, você. Ninguém na rua está comentando sobre o arco-íris desbotado no céu – e nenhuma notícia tem me preocupado mais do que esse fato. Eu permaneço com minha caixa de lápis de cor debaixo do braço, tentando devolver as cores que a dureza do tempo levou. Você me prometeu pincel e aquarela, mas o dia está tão cinza que eu não te vejo cruzar a neblina. Sobre as dores – nos músculos e no peito – tento ignorá-las como as vozes do telejornal, enquanto ainda te espero.

Veja, meu bem. Debaixo do arco-íris, o jardim permanece dormente. Talvez a gente tenha jogado de qualquer jeito as sementes e virado as costas cedo demais. É que o cultivo exige paciência e cuidado. É preciso regar os brotos e aprender a lidar com os espinhos. É preciso coragem pra podar um ramo e deixar outro mais bonito nascer. Eu te falei que amor é feito rosa nascida no quintal, lembra? Mas, por aqui, nenhuma flor nunca mais desabrochou. O que ficou foram promessas murchas destoando do bem-querer e pétalas secas combinando com a terra escura.

Hoje não vou terminar a jardinagem. Estou de saída. Não, dessa vez não vou dar o teu endereço ao taxista. Eu vou partir pra onde eu possa reorganizar as minhas órbitas. Talvez você não tenha visto, meu bem, as feridas que eu precisei manter abertas pra você gostar de mim. Não insista em me ter por perto, porque eu não me reconheço mais nessa pessoa que anda se moldando ao teu querer. A verdade é que eu sou mesmo uma coleção de cacos quebrados, e talvez esteja na hora de desenhar tua cicatriz.

Veja, meu bem. Gasolina vai mesmo subir de preço. Presta atenção ao noticiário, porque eu sei que te interessam as mudanças que estão por começar. Quanto a nós dois, ou é o começo do fim, ou é o fim.

[Este texto faz parte do projeto Cinco Lados e é inspirado na música “Veja Margarida”. Somos 5 escritores com o desafio de escrever sobre 15 temas diferentes. Acompanhe esta saga lendo as outras quatro faces desse projeto: Acenda Essa Luz, A Gangorra, Casa de Seu Frô e Parede de Sonhos.]